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O espírito sustentável de Dunquerque

O espírito sustentável de Dunquerque
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Dunquerque, cidade portuária e industrial do norte de França, atravessa um período de transformação que vai moldar o centro urbano e instalar definitivamente a metrópole no século 21. Os projetos em curso tentam conciliar os interesses económicos, sociais e ambientais da região para proporcionar emprego e qualidade de vida aos 210.000 habitantes da comunidade urbana.

É impossível falar, hoje, desta cidade sem evocar os acontecimentos de 1940. No mês de maio daquele ano as forças nazis encurralaram as tropas francesas e britânicas em Dunquerque. Londres lança a Operação Dínamo no dia 26. A retirada dura até à madrugada de 4 de junho. Mais de 338 mil soldados aliados, um terço dos quais franceses, são transportados para Inglaterra debaixo de fogo intenso. O chamado “espírito de Dunquerque” nasceu então no imaginário britânico. Londres deixou no terreno quase 70 mil homens, entre mortos, desaparecidos e prisioneiros de guerra. A cidade apenas seria libertada a 9 de maio de 1945, um dia depois da capitulação de Berlim. Dunquerque estava em ruínas.

Atualmente a cidade desenvolve um projeto de requalificação do centro que visa reurbanizar uma área que conta 5.000 residentes, conquistar terras ao porto e transferir a circulação automóvel para a periferia da zona histórica, como explica Jean-Louis Muller, o Diretor dos Grandes Projetos da Comunidade Urbana de Dunquerque: “Dunquerque é um projeto em curso há duas décadas. O que vemos aqui atrás é o que chamamos os territórios Neptuno que estão em redor do centro da cidade, caracterizado pela praça Jean Bart, a praça central de Dunquerque. Dunquerque é uma cidade dos anos 50, onde o automóvel é rei, com grandes avenidas. A circulação automóvel atravessa o centro mas pelo menos 30 por cento dos automóveis nem sequer lá param. 30 por cento dos automóveis atravessam o centro para ir de leste para oeste, ou de sul para norte. O nosso objetivo, uma vez que existem estas grandes avenidas, é criar uma via circular para afastar os automóveis do centro.”

O bairro do Grand Large é um dos programas do projeto Neptuno e ocupa a zona dos estaleiros navais que fecharam em 1987. As construções obedecem às mais recentes normas ambientais, entre as quais se destaca o desempenho energético. Outra das características do bairro é o espaço reduzido atribuído aos automóveis: uma forma de promover meios de transporte ecológicos.
Pretende-se também que o Grand Large seja habitado por diferentes estratos sociais e etários. Dos mil fogos projetados, 40 por cento destinam-se à habitação social. 250 alojamentos já estão concluídos.

Daniel e Edith David mudaram-se em maio do ano passado e destacam a proximidade com o centro da cidade e a praia de Malo-les-Bains. Recordam também a visita que efetuaram ao apartamento em janeiro de 2011, na qual constataram que a temperatura ambiente era de 16 graus centígrados com o aquecimento desligado. Contudo, o casal está preocupado com o futuro do bairro: “Há dois projetos que se fossem independentes seriam excelentes: este projeto de bairro ecológico e o projeto para afastar o tráfego automóvel do centro da cidade. O problema é que eles cruzam-se aqui, a via circular vai atravessar o bairro ecológico.” – denuncia Daniel David.

A eficiência energética está no centro das preocupações de Dunquerque. O futuro começou a ser edificado há duas décadas quando foi lançada uma rede de aquecimento urbano que aproveita o calor residual da indústria siderúrgica para aquecer a água que circula num sistema que fornece 12 mil fogos e vários edifícios públicos. Além da extensão desta rede, as autoridades locais pretendem diversificar as fontes de calor. Daniel Lemang, Adjunto Especial do Presidente da Câmara: “Esta rede de aquecimento é, à partida, uma oportunidade. Há 25 anos foi uma oportunidade. Os inventores da época interrogaram-se: “Porquê perder este calor?” Uma questão de bom senso. Agora vamos efetuar uma pesquisa tecnológica com a universidade para ver se podemos explorar outras fontes de calor que não são aproveitadas, penso por exemplo na unidade de incineração de resíduos urbanos.”

Dunquerque é um dos maiores polos energéticos da Europa. O território acolhe uma central nuclear, duas refinarias de petróleo, um gasoduto submarino e um porto marítimo que em 2011 registou um tráfego superior a 47 milhões de toneladas, 16 por cento das quais de carvão. Dunquerque é o sétimo porto da linha costeira entre Le Havre e Hamburgo.

Há cinco anos a administração portuária decidiu apostar no gás natural liquefeito e no mês passado arrancaram as obras para construir um terminal para acolher navios metaneiros. O projeto é realizado em parceria com dois operadores energéticos franceses, a EDF e a GRT Gaz. Ao Porto de Dunquerque cabe a construção do terminal marítimo, uma obra orçada em 150 milhões de euros. O custo estimado do projeto ultrapassa os 2,5 mil milhões de euros e deve estar concluído em 2015.

A concretização deste projeto não obedeceu apenas a critérios económicos. Os constrangimentos ambientais obrigaram à alteração do projeto inicial para evitar os habitats duas espécies protegidas: andorinhas-do-mar-anãs e salicornias europaeas. O Diretor-Executivo do Porto de Dunquerque, Stéphane Raison explica-nos como decorreu o processo de aprovação: “Há duas coisas na região de Dunquerque que é preciso sublinhar. A primeira é que se trata de uma região onde existe uma aceitabilidade social em matéria de desenvolvimento industrial, o que não é o caso de outros territórios europeus. A segunda é que, quando o projeto arrancou as associações locais não queriam a sua realização pela simples e boa razão que o projeto se encontrava num local onde existem duas espécies protegidas emblemáticas na Europa. Por isso levamos a cabo um debate público em 2007 e 2008 do qual resultou uma opinião favorável por parte da comissão francesa do debate público mas que nos obrigou a alterar o projeto para respeitar os constrangimentos ambientais.”

Dunquerque ostenta com orgulho o prémio de cidade sustentável atribuído em 1996 por uma associação internacional, ICLEI – Governos Locais para a Sustentabilidade, que reúne mais de setecentas cidades. Mas não haverá uma contradição entre a industrialização de um território e o desejo de um mundo mais ecológico? O sociólogo Christophe Gibout dá-nos a resposta: “
O desenvolvimento sustentável é uma inovação de crescimento, não é uma inovação de rutura. Isto quer dizer que é antes do mais desenvolvimento económico, ao qual juntamos uma dupla dimensão: uma dimensão de sustentabilidade, quer isto dizer que é preciso preservar os recursos e o ambiente para as gerações futuras; e uma dimensão de democracia participativa.”

Num território onde a taxa de desemprego é superior a 12 por cento da população ativa, a manutenção do tecido industrial é o primeiro objetivo para as autoridades locais, mas não a qualquer preço. A melhoria da qualidade de ambiental é a outra face da moeda.

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