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Que mundo teremos em 2013?

Que mundo teremos em 2013?
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Quem serão os líderes do mundo em 2013? Como é que se vai comportar a Europa? A Itália vai mudar de líder? Qual o futuro para a Síria, Egito? Os outros regimes árabes vão afundar-se? As eleições no Irão vão modificar as relações de força?

Para responder a estas questões, preparámos uma emissão especial, conduzida por François Chignac, que falou com Maria Sarsalari, responsável pelo serviço persa da nossa redação; Frédéric Bouchard, diretor da nossa delegação em Bruxelas; Giovanni Magi e Giannisis Stamatios, nossos correspondentes em Paris e Atenas, respetivamente; e Riad Muasses, responsável pela equipa árabe do nosso canal.

François Chignac: Junho é a data das eleições no Irão. O último escrutínio presidencial originou longas semanas de manifestações. Devemos esperar um cenário idêntico?

Maria Sarsalari: Foi de facto isso que aconteceu nas últimas eleições, em 2009, e, depois disso, a fação reformista foi, na maioria, desenraizada. Parece que o regime pretende organizar eleições de uma forma controlada, com candidatos controlados, porque a ideia é que se for permitido o mesmo entusiasmo que nas anteriores, a situação pode ficar fora de controlo. Foi anunciado, recentemente, que os debates televisivos vão ser gravados e visionados previamente. Portanto, não podemos esperar muitas mudanças ao nível doméstico. A nível internacional, nos casos do nuclear e das relações com a comunidade internacional, tudo vai depender da vontade política do sistema e da decisão dos líderes, porque no Irão não são os governos que decidem sobre assuntos de política externa. Portanto, não podem ter um papel determinante. É o aiatola Khamenei que decide sobre os assuntos mais importantes e que tem uma última palavra.

François Chignac: A Europa recebeu o prémio Nobel da Paz em 2012. Muitas vozes contestaram ou criticaram esta distinção. Em 2013, a Europa vai finalmente merecer esta distinção ou não?

Frédéric Bouchard: Este prémio Nobel da Paz foi uma surpresa divina para a União Europeia neste período de crise, mas a crise económica continua e em força: recessão, desemprego… Aqui, na Bélgica, as falências das empresas atingiram um recorde. E sem um verdadeiro projeto de investimentos e de crescimento ao nível europeu, o ano de 2013 anuncia-se difícil. De qualquer das maneiras, há um pouco de esperança. 2012 terminou melhor para os 27. Segundo um diplomata europeu, no resgate da Zona Euro, metade do trabalho está feita. A União Europeia, por ocasião da sua sexta cimeira europeia do ano, deu um passo em direção à coordenação económica. Aconteceu no espaço de seis meses, um recorde de rapidez. Em comparação, foram precisos 40 anos para adotar a patente única europeia. Os Estados-membros acordaram uma supervisão única dos bancos da Zona Euro. A Grécia obteve mais uma tranche de ajuda. A integridade da Zona Euro não está mais posta em causa, como acontecia no início do ano, o que fez François Hollande dizer que a crise tinha ficado para trás. Uma opinião que não é partilhada por todos. Angela Merkel declarou, recentemente, que a Europa ainda tem um período difícil pela frente.

François Chignac: Quais são as outras dificuldades que a Europa pode enfrentar este ano?

Frédéric Bouchard: Muitos obstáculos podem surgir em 2013. Primeiro, a incerteza em relação aos resultados das eleições italianas dentro de algumas semanas. Um regresso de Silvio Berlusconi ao poder terá um efeito desastroso para a frágil estabilidade italiana nos mercados financeiros e por ricochete para a Zona Euro. Desejosos que a Itália prossiga as reformas, os dirigentes de direita, tal como os de esquerda, apoiaram apenas um homem: Mario Monti. Outra incerteza: a negociação sobre o orçamento da União Europeia para o período 2014-2020. Lembremo-nos que, em novembro, os Estados-membros fizeram alarde das suas divisões e do espírito cada um por si, uns defendendo a política agrícola comum, outros as ajudas regionais. A Grã-Bretanha impondo o seu veto a qualquer aumento. Uma negociação que representa, no entanto, menos de 1% da riqueza comunitária. Uma gota de água orçamental.
Outra cimeira deve ter lugar em fevereiro para pôr mãos à obra, mas deve colocar-se, novamente, a questão britânica. David Cameron defenderá contra ventos e marés o famoso cheque britânico de quatro mil milhões de euros por ano.
Mas parece que o país se desliga cada vez mais das políticas comunitárias. Já fora da Zona Euro, não participa no pacto orçamental e o primeiro-ministro David Cameron está a considerar a organização daqui até 2015 de um referendo sobre as ligações entre o seu país e a União Europeia. É um divórcio à maneira britânica que se perfila para a União Europeia.

François Chignac: A Grécia beneficiou de um acordo de última hora. Isso faz prever um ano de 2013 menos difícil do que os anteriores?

Stamatios Giannisis: A decisão, tomada em dezembro, pelo Eurogrupo de libertar uma tranche de 52,5 mil milhões de euros para a Grécia, desata as mãos do governo grego e assegura a estabilidade da coligação governamental. Espera-se que o ano de 2013 seja outro ano difícil, já que será muito difícil para a Grécia retomar o caminho da recuperação económica. A descida dos rendimentos médios, o elevado desemprego e o aumento dos impostos vai fazer cair ainda mais os padrões de vida e deve causar contestação social.

François Chignac: E concretamente, quais são as dificuldades?

Stamatios Giannisis: A discussão acerca do chamado Grexit vai continuar enquanto as pessoas virem menos dinheiro nos seus bolsos e nenhuma descida no custo de vida. No entanto, como a decisão de dezembro funciona como uma espécie de voto de confiança europeu às intenções do governo grego de realizar as reformas que tinha prometido, a possibilidade de os gregos deixarem a zona euro torna-se mais improvável, pelo menos no futuro mais próximo.

François Chignac: A batalha eleitoral já começou em Itália. Que devemos esperar?

Giovanni Magi: A presença de Silvio Berlusconi pode radicalizar a campanha eleitoral, que se prevê já muito animada, com slogans populistas e antieuropeus, sobretudo da parte da Liga do Norte, do movimento Cinco Estrelas do cómico Beppe Grillo. Do outro lado, Mario Monti, cuja eventual candidatura tem agora o apoio do Partido Popular Europeu e ao que parece da Igreja Católica, também sempre importante em Itália. Uma candidatura que pode agrupar todas as formações do centro e que integra representantes do Povo da Liberdade, o partido de Silvio Berlusconi. Todas as sondagens apontam como vencedor das próximas legislativas o Partido Democrático, de centro esquerda. O cenário mais provável no pós-eleições é que o chefe do PD, Pier Luigi Bersani, seja o primeiro-ministro e ele procurará uma aliança com o centro, propondo a Monti o ministério da Economia e das Finanças ou, ainda mais provável, a presidência da República, uma vez que há eleições em maio.

François Chignac: As eleições vão influenciar o clima de negócios em Itália?

Giovanni Magi: As economias da Zona Euro estão hoje interligadas. Vimos isso com o anúncio do fim do governo Monti, que teve teve consequências não só para a economia italiana, mas também para Espanha e outros países. O desafio para a Itália e, inevitavelmente, para toda a Zona Euro é que o Parlamento saído das eleições italianas consiga garantir uma maioria estável que inspire a confiança internacional.

François Chignac: O regime sírio está prestes a cair, como anunciam os comentadores?

Riad Muasses: A queda do regime sírio vai mudar os dados no Médio Oriente, nomeadamente porque o Hezbollah tem um apoio na Síria. Eles fazem passar as armas, treinam-se na Síria. Há um apoio verdadeiramente forte na Síria. Com a queda do regime sírio, o Hezbollah vai perder certamente um aliado importante. E a mesma coisa para o Irão, que foi um aliado da Síria durante quase 40 anos. Isso também vai debilitar o regime iraniano.

François Chignac: As últimas manifestações no Egito podem fazer cair Mohamed Morsi?

Riad Muasses: Hoje, no Egito, há uma enorme batalha entre os islamistas e todas as forças políticas que não estão de acordo com os islamistas no poder. Pediu-se aos islamistas no Egito que assumissem o poder para instaurar um regime democrático e não um regime islamista. Essa é a questão.

François Chignac: Fala-nos então de um outono árabe?

Riad Muasses: O conjunto de países onde falamos de Primavera Árabe, como a Tunísia, o Egito, o Iémen, a Síria… nesses países há uma grande deceção da população árabe, uma vez que eles esperavam ter um regime democrático, um regime que os fizesse avançar, rumo à democracia, à verdadeira democracia, mas, na realidade, vimos que na Tunísia e no Egito, há essa deriva islamista. O islamismo está a ganhar terreno no mundo árabe, de Marrocos até ao Iraque.