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Dezenas de milhões de europeus não conseguem aquecer-se no inverno

De  Naomi Lloyd  & Fanny Gauret
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Dezenas de milhões de europeus não conseguem aquecer-se no inverno
Direitos de autor  euronews

Por toda a Europa, as pessoas estão a lutar para pagar os alimentos e o aumento das contas de energia. Na Bulgária, mais de um quarto da população não se pode dar ao luxo de aquecer a sua casa - este é o nível mais alto da Europa, seguido pela Lituânia e Chipre.

A jornalista Fanny Gauret foi à Bulgária, onde o Fundo de Auxílio Europeu às Pessoas mais Carenciadas (FEAD) está a ajudar algumas das pessoas mais vulneráveis.

Reportagem: A situação na Bulgária

No inverno, na Bulgária, as temperaturas descem regularmente abaixo de zero. Assim, o aquecimento da casa é uma grande preocupação, especialmente para os mais vulneráveis, que muitas vezes não se podem dar ao luxo de se manterem quentes. Os edifícios mal isolados, mas também os baixos rendimentos e o aumento dos preços da energia, são as principais causas desta situação precária.

Kocherinovo, uma pequena aldeia de montanha no oeste do país. Aqui, Nikola, de 71 anos, vive sozinho. Recebe de novo uma pequena pensão de cerca de 150 euros, ou seja, metade do salário mínimo. Nikola recebe um subsídio de energia, pago pelo governo, e com este dinheiro pôde comprar lenha para o fogão: "Em outubro recebi 520 leva (cerca de 265 euros) para a lenha, ou seja, para todo o Inverno. 500 leva são cinco metros cúbicos. Comprei oito, e paguei a diferença do meu bolso. O metro cúbico costumava custar 75 leva, agora são 90, são 15 leva a mais".

A subida dos preços da energia tem um impacto muito significativo no orçamento do Nikola. Mesmo recebendo ajuda e um bónus Covid para reformados, mal consegue pagar as contas, medicamentos e comida. Assim, Nikola recebe uma refeição todos os dias graças ao programa "um almoço quente para a alma", financiado pelo FEAD.

"São lentilhas e batatas. Não me posso queixar. Sobrevivo", conta. 

Tal como Nikola, em 2020, mais de 15 milhões de europeus beneficiaram de ajuda alimentar graças ao FEAD. Na mesma aldeia vive Evelina, 62 anos, que apesar da deficiência cuida sozinha dos seus pais. A pensão não é suficiente para cobrir as despesas da família. Por isso, recebe várias ajudas estatais, que lhe permitem fazer face às despesas.

"Recebi ajuda para aquecimento, para alimentação e há também uma assistente que me vem ajudar. É muito melhor, pelo menos agora não tenho de cozinhar", diz.

As despesas energéticas pesam sobre as famílias búlgaras mais pobres: Em 2018, representavam cerca de 16%, enquanto na Suécia representam menos de 5%.

Evelina conseguiu poupar dinheiro para comprar uma salamandra que funciona com granulado, que consome menos energia do que a lenha: Comprámos duas toneladas, espero que isso seja suficiente. Estou a poupar na pensão. O aquecimento é muito importante", conta.

Uma combinação de ajuda nacional e europeia, tal como o "almoço quente para a alma", de que Evelina e a família também são beneficiárias, é um dos objetivos do Fundo Social Europeu Plus para combater a pobreza energética - e a pobreza em todas as formas.

Em Bruxelas, Andriana Sukova, da Comissão Europeia, explica: "Provou ser muito importante para os pobres que a assistência alimentar e material de base fornecida através do programa FEAD seja também bem acompanhada por políticas nacionais e medidas nacionais, reduzindo o peso do rendimento pessoal para os pobres, para manter as casas quentes ou para comprar os medicamentos de que os idosos necessitam, e para manter uma vida equilibrada e razoável".

Entrevista: Thomas Pellerin-Carlin

Falámos com Thomas Pellerin-Carlin, o diretor do Centro de Energia de Jacques Delors, sobre a crise de pobreza energética da Europa.

Naomi Lloyd, Euronews: Como podemos estar numa situação em que milhões de pessoas, na Europa, não têm dinheiro para aquecer as suas casas? É básico, não é?

Thomas Pellerin-Carlin: Absolutamente. E isto é o resultado de escolhas passadas que fizemos, que são escolhas para construir um sistema ineficiente que se baseia na utilização de combustíveis fósseis. Por causa disso, encontramo-nos numa situação em que dezenas de milhões de europeus não conseguem aquecer devidamente as suas casas. E isto agrava-se sempre que temos uma crise de combustíveis fósseis e um choque proveniente dos preços dos combustíveis fósseis.

A situação atual é o resultado de escolhas passadas que fizemos, para construir um sistema ineficiente que se baseia na utilização de combustíveis fósseis. Por causa disso, dezenas de milhões de europeus não conseguem aquecer devidamente as suas casas.
Thomas Pellerin-Carlin
Diretor do Centro de Energia Jacques Delors

Muitos países europeus têm vindo a lançar medidas para ajudar. Que diferença é que eles estão a fazer?

Sabemos que os países que estão a fazer melhor são claramente aqueles onde as políticas incentivam a mudança para as energias renováveis e a mudança para a eficiência. A pobreza energética é pior no sul da Europa, o que é um pouco contraintuitivo. Imagine-se que quanto mais frio é o país, pior é a pobreza energética, mas na realidade é o contrário. Porque a pobreza energética não é o resultado da geografia ou da natureza, é o resultado de escolhas políticas. Se a Suécia está bem agora, não é por causa do atual governo sueco, mas devido a 30 anos de investimento sueco na renovação de casas, no desenvolvimento de sistemas de aquecimento renováveis.

Na sua opinião, o que tem de ser feito a nível europeu?

Para mim, há três coisas. Parte do Pacto Verde Europeu, na nossa opinião no Instituto Jacques Delors, deveria ser sobre garantir que cada família possa aquecer devidamente a casa durante o inverno. Isso deveria ser um objetivo político antes de mais nada. Como é que implementamos isso? Primeiro, através de regulamentação. Isso significa que mandamos renovar os edifícios mal isolados sempre que são alugados ou vendidos. Depois, fornecendo financiamento para apoiar este tipo de renovação, especialmente para os países mais pobres como a Bulgária. E para isso, houve uma boa proposta da Comissão Europeia, que é a de criar um fundo para o clima social, e isso seria um passo significativo na direção certa.

Nome do jornalista • Ricardo Figueira