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Manoel de Oliveira: Parar é morrer

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Manoel de Oliveira: Parar é morrer

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Manoel de Oliveira é um consagrado realizador português que estudou no Porto a arte de representar, mas se apaixonou pelo outro lado da câmara.
 
Fez o seu primeiro documentário em 1931, virou-se depois para a ficção e não mais parou. 
 
Dirigiu cerca de cinquenta filmes, recebeu quase quarenta galardões e trabalhou com nomes como Catherine Deneuve, John Malkovich e  Marcello Mastroianni.
 
No ano em que comemora cem anos de vida continua a trabalhar na profissão que escolheu.
    
Euronews:
Nas últimas duas décadas tem realizado uma média de mais de um filme por ano. Qual é o segredo de tanta vitalidade?
 
Manoel de Oliveira:
Não tem segredo nenhum. É trabalhar, é fazer, é um impulso natural. A minha vida é um bocado complicada: tenho falta de espaço em casa, luto com essa falta de espaço porque tenho muita “marmelada”, a casa é pequena e tenho falta de tempo na vida. Não posso dar remédio nem a uma coisa nem a outra. Não se pode esticar o tempo nem se pode alargar a casa. Isso requeria obras e hoje é muito caro. 
 
Euronews:
Qual é, na sua opinião, a essência do Cinema?
 
Manoel de Oliveira
“O Cinema é o espelho da vida”. E não só é o espelho da vida como não há outro, é o único espelho da vida. E sendo-o é também a memória da vida.
 
Euronews:
Quais são os acontecimentos do último século que mais o marcaram?
 
Manoel de Oliveira:
Pode dizer-se que o que mais me marcou, no aspecto social e mundial, foi o 25 de Abril. Foi o acto que mais me marcou. Porquê? Porque o 25 de Abril, em si, tem um momento extraordinário: os militares, que fizeram o 25 de Abril, não desejavam tomar o poder. Fizeram-no para entregar o poder democrático ao país. Este é um caso raro e único.
 
A seguir ao 25 de Abril deu-se o socialismo em França e a seguir em Espanha e a seguir caiu o muro de Berlim e tudo parecia abrir-se para o caminho celestial.
 
E depois veio o Kosovo e o terrorismo e essas porcarias todas. Até que chegámos a este momento, ao problema económico do capitalismo e dos bancos. É um obstáculo da vida e da sociedade mundial. Um obstáculo bastante alto mas devemos dar o pulo e saltar para o outro lado.
 
Euronews:
Que saída vê para a crise actual?
 
Manoel de Oliveira:
Parar é morrer e isto é aplicável hoje. O pior de tudo é parar, quer dizer, não se fazerem coisas, não se fazer nada, ficar com medo, retrair-se, etc. Esta ideia do povo, diante da crise, correr a tirar o dinheiro dos bancos, com medo de o perder, agrava terrivelmente a situação. É um erro parar, não continuar a despertar as coisas.
 
Euronews:
Como é que vê o futuro da Europa?
 
Manoel de Oliveira:
Na Europa há um mito histórico e religioso. A União Europeia tende para isso: um só comando genérico e uma só fé que é posta na democracia. Tira-se a religião um pouco para o lado e estabelece-se uma democracia generalizada, a união da Europa com um mesmo fim: um só rei e um só papa. É o mito que se está a tornar uma realidade actualmente com Bruxelas no centro da União Europeia. Acho que é óptimo mas é muito difícil porque há diferentes climas nas regiões, há diferentes idiossincrasias, diferentes línguas. É sempre muito difícil tornar uma coisa acessível a toda essa diversidade.
 
Euronews:
Quais são os grandes problemas da sociedade contemporânea?
 
Manoel de Oliveira
A televisão, que mostra sobretudo pornografia, ou violência, tiros, “mata e esfola”. As mulheres trabalham e não estão ao lado dos filhos que ficam, sozinhos, a ver televisão. Hoje em dia há uma perda enorme de valores.
 
Euronews:
Há quem defenda que o Cinema e as Artes não deviam ser financiadas pelo Estado. Como responde a essas críticas?
 
Manoel de Oliveira:
Se eu faço um filme dou trabalho a uma equipa completa, a muita gente: dou trabalho a uma “colecção” de actores muito grande e aos figurantes; dou trabalho às empresas e toda essa gente paga impostos. Mesmo que venha um auxílio não sei se esse auxílio não é inferior aos impostos que o Estado recebe. O Estado está sempre a ganhar. E estou a dar emprego a essa gente toda. É interessante porque quando as pessoas param tudo morre, se se activam tudo vive.
 
Euronews:
Como é que podemos atrair mais público para o cinema de autor?
 
Manoel de Oliveira:
É preciso que as pessoas estejam profundamente bem-educadas. A Educação é fundamental. No aspecto das prioridades governamentais, por exemplo, penso que o que deve estar em 1º lugar é a Saúde. Um país sem Saúde não vale nada. Em 2º lugar está a Educação e a seguir a Arte porque é o complemento da Educação, é a condição humana. É essencial conhecer isto, sem isto não se pode funcionar. E depois vem o resto…