Última hora

Última hora

Corações virtuais para uma vida melhor

Em leitura:

Corações virtuais para uma vida melhor

Tamanho do texto Aa Aa

Jack e os pais vivem na costa Leste de Inglaterra. De vez em quando vão a Londres. Lá tentam aproveitar ao máximo, mas o motivo para estas viagens está no peito deste menino de 6 anos.

“Descobrimos o problema dele quando eu tinha 28 semanas de gravidez. Infelizmente, disseram-nos que sofria da síndroma de hipoplasia do lado esquerdo do coração e que era muito complexo, envolvendo três cirurgias paliativas. Por isso, foi um choque”, afirma Sarah Jones, a mãe de Jack.

Depois de ter sido submetido a três operações de coração aberto, Jack precisa de consultas médicas de rotina – para garantir que não existem desenvolvimentos negativos. Aqui, no Hospital Pediátrico de Evelina, o doutor Razavi monitoriza a saúde do rapaz com recurso a tecnologia sofisticada.

“Quando ele põe os pensos, sinto que não estou a fazer nada… estou só a descontrair. Faz isto: boom, boom… boom, boom… mas não sei como faz aquela coisa”, diz Jack Riley.

O que esta máquina faz é utilizar o ultra-som para criar uma imagem do coração, desenhado em tempo real com os tecidos e o sangue a reflectirem as ondas sonoras.

O ecocardiograma pode fornecer uma riqueza de informação muito importante, possibilitando aos terapeutas um rápido olhar de como o sistema cardiovascular está a funcionar. É uma ferramenta vital, tendo em conta a gravidade do assunto.

“Os problemas cardíacos congénitos afectam uma em cada cem crianças e as doenças de coração na população em geral são muito comuns: é uma das maiores causas de doença e morte em especial no mundo ocidental e começa a sê-lo nos países em desenvolvimento”, diz Reza Razavi.

Apesar de útil, os ecocardiogramas e outras ferramentas de imagem são limitados. Para suplantar essas limitações está a ser desenvolvido um projecto de pesquisa europeu, que conta com a participação deste hospital.

“O modelo que está agora no ecrã é apenas uma imagem e podemos ver o tamanho enorme das artérias, as interligações, mas não nos diz como o coração está a bater, neste modelo particular. Temos a esperança de que com a introdução de dados anatómicos e outros elementos possamos ter a imagem da contracção do coração. Teremos então mais probabilidades de saber se o coração da criança vai ter problemas em breve. Teremos também a possibilidade de testar alguns medicamentos num modelo virtual em vez de os testarmos em crianças”, revela Hannah Bellsham-Revell investigadora do Rayne Institute.

“O que pretendemos é ver o que acontece após o tratamento – especialmente se for tratamento difícil e caro – nós queremos saber tudo antes de o darmos, se vai funcionar ou não. E para isso o computador oferece uma grande versatilidade – permite-nos testar qualquer tratamento e ver qual vai ser o resultado sem ter que passar pelo tratamento, fazendo-o em silicone ou no computador”, diz Reza Razavi.

Um modelo realista deve integrar toda a informação médica relevante. Mas como a reunir?

“Temos scanners diferentes que utilizamos para criar imagens do coração. O que vê aqui é um que utiliza um campo magnético. O que é especifico neste scanner é que consegue dar informação sobre o movimento do coração e informações sobre a propriedades dos tecidos musculares do coração. Pode também dar uma imagem da corrente sanguínea no coração”, garante Jürgen Weese, pesquisador de soluções de intervenção cardiovascular da Philips.

Os scanners médicos produzem múltiplas imagens digitais de “fatias” do coração. Com o programa correcto, torna-se fácil montar um objecto tridimensional a partir de uma série de secções transversais ligadas entre si. Alguns scanners modernos fazem isso com apenas um botão.

“O que vê aqui é um Scanner de TAC. Este tipo de aparelhos recorre a raio-X para criar uma imagem do coração, faz projecções radiológicas de todos os lados e compõe uma imagem 3d de imagens singulares. O que é particular nesta máquina é que consegue uma grande resolução, imagens muito boas da coronária, do coração”, confessa o cientista.

Para passarmos da visualização à modelização, as imagens digitalizadas precisam de ser interpretadas por um computador. Os algoritmos são desenvolvidos no Campus High Tech de Eindhoven, na Holanda.

Cada coração é único por isso o programa mede todas as particularidades, mapeando o órgão do paciente. Mas nesta altura ainda temos apenas um esboço e não um modelo.

“Esta técnica permite-nos retirar a geometria das imagens, mas não nos dá a forma como o coração vai bater, se modificar alguma coisa. Se quiser ter uma previsão sobre o funcionamento do coração, se quiser ter uma terapia, ou mudar o fluxo sanguíneo nalguma parte, então precisa de modelos adicionais que representem a biofísica das diferentes partes do coração. Com isso, vai ter a previsão de como o coração funciona depois da terapia e com isso pode decidir entre diferentes opções de tratamento”, garante Jürgen Weese.

E é aqui que a engenharia dá uma mãozinha. O coração é uma bomba muito eficiente. O seu mapa é uma espécie de guia para uma máquina complexa. Actualmente já existe conhecimento e experiências em máquinas e outros objectos artificiais realizados em simulações computacionais.

“Estas técnicas foram usadas para analisar pontes e estruturas nos anos 1950, 1960 e 1970 e por volta dessa altura começámos a ter capacidade computacional que nos permitiu passar para as locomotivas e a tecnologia aérea. E o que aconteceu mais recentemente é que o mesmo tipo de técnicas está a ser aplicada para alguns dos problemas mais complexos que temos na biologia, na fisiologia e na medicina”, argumenta Nic Smith, professor de Fisiologia computacional da Universidade de Oxfortd.

O resultado é um coração virtual que funciona como um protótipo real, mostrando, por exemplo, as células que não funcionam como deviam ou então que permita o estudo da propagação eléctrica no músculo cardíaco antes de se pôr pacemaker.

“O que estamos a conseguir é a possibilidade de prever o comportamento de um paciente em relação a uma terapia, na sua anatomia particular e avançar com tratamentos mais aconselhados. Acho que é um dos grandes objectivos da medicina passar de um prática baseada em erro e tentativa para uma que seja apoiada na ciência, onde percebemos os mecanismos”, refere Nick Smith.

Anos de investigação e ensaios clínicos são ainda necessários antes de um coração virtual se tornar numa ferramenta de prognóstico fiável, dando uma nova esperança àqueles que mais precisam.

“Apesar demonstrarem normalidade, quando as crianças como o Jack atingem a adolescência começam a ter bastantes dificuldades e a esperança de vida é muito menor em relação ao resto da população. Estamos a tentar encontrar novas formas de tratá-los para aumentar a esperança de vida e este projecto ajuda-nos substancialmente nesse objectivo”, diz Reza Razavi.

“Quero ser médico quando crescer. Porque é muito giro. Posso ver o coração de toda a gente”, diz Jack.

www.euheart.eu