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Damien Hirst: "A arte não devia ter medo do dinheiro"

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Damien Hirst: "A arte não devia ter medo do dinheiro"

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É considerado o artista plástico vivo mais rico do mundo. Extravagante e provocador, amado e, ao mesmo tempo, detestado, ninguém no mundo das artes fica indiferente a Damien Hirst. Mas talvez mais do que a arte, é a riqueza do mais proeminente membro do grupo dos Jovens Artistas Britânicos que o põe na boca do mundo. A euronews falou com Damien Hirst, em Kiev, na Ucrânia, onde foi um dos mentores do recém-criado Prémio de Arte “Geração Futura” da Fundação Pinchuk.

Ricardo Figueira – euronews:

Damien Hirst bem-vindo e obrigado por estar aqui connosco hoje! A minha primeira questão é muito directa. Gostava de lhe perguntar se o dinheiro e o sucesso mudam a alma de um artista?

Damien Hirst – artista plástico:

Acho que não. É muito mais difícil fazer boa arte quando, de repente, se tem dinheiro. O facto de não termos dinheiro força-nos a fazer as coisas de uma forma criativa, como o Van Gogh. Mas eu acho que a arte não devia ter medo do dinheiro. Tenho sorte porque desde muito cedo o meu agente disse-me que não devia servir-me da arte para ganhar dinheiro. Não nos esqueçamos que o dinheiro é fundamental, mas não é o objectivo.

Ricardo Figueira – euronews:

E como é que se serve do dinheiro para fazer arte?

Damien Hirst – artista plástico:

Sabe, as ideias vêm primeiro e o dinheiro é apenas algo que usamos para que as coisas aconteçam. Não utilizamos a arte para fazer dinheiro, utilizamos o dinheiro para fazer arte.

Ricardo Figueira – euronews:

O seu trabalho mais famoso é “For the love of God” (“Por amor de Deus”), que é uma caveira, um crânio humano verdadeiro cravejado de diamantes…

Damien Hirst – artista plástico:

Arte povera.

Ricardo Figueira – euronews:

Arte rica, neste caso. É verdade que a vendeu por 50 milhões de libras?

Damien Hirst – artista plástico:

Na altura em que a vendemos, a pessoa que a queria comprar não a comprou e acabámos por vender… eu vendi um terço a um consórcio.

Ricardo Figueira – euronews:

Porque tem havido alguma polémica. Há quem diga que não é verdade, que não foi vendida, que você faz parte do consórcio.

Damien Hirst – artista plástico:

Bem, eu não vendi tudo. A minha galeria White Cube detém 10%. Depois o consórcio comprou um terço e eu fiquei com o resto. Por isso vendi um terço.

Ricardo Figueira – euronews:

Então confirma que foi o trabalho mais caro alguma vez vendido por um artista vivo?

Damien Hirst – artista plástico:

Não sei.

Ricardo Figueira – euronews:

Foi o que li.

Damien Hirst – artista plástico:

A sério? Não faço a mínima ideia. Está lá em cima (aponta para o céu)!

Ricardo Figueira – euronews:

E porquê o nome “Por amor de Deus”? É uma pessoa religiosa?

Damien Hirst – artista plástico:

Em Inglaterra, “por amor de Deus” tem dois significados. Significa que fazemos algo pelo amor que temos por Deus, mas é também uma exclamação “por amor de Deus!”, se fazemos algo errado. A sua mãe diria isso. Se partisse um prato, a sua mãe diria “por amor de Deus, porque é que fizeste isso?” Por isso é icónico e irónico. Tem os dois significados.

Ricardo Figueira – euronews:

A morte é um tema recorrente no seu trabalho. Tem medo de morrer, ou é apenas uma fascinação?

Damien Hirst – artista plástico:

Estou desejoso de lá chegar!

Ricardo Figueira – euronews:

A sério?

Damien Hirst – artista plástico:

Não! Acho que todos estamos, sabe. Samuel Beckett disse uma vez algo incrível sobre a morte quando disse “a morte não nos pede um dia livre”. Adoro esta frase. É o desconhecido. Nunca podemos planear ou fazer algo, porque nunca se sabe. Eu fui ensinado, especialmente quando era mais jovem, a enfrentar as coisas que não podemos evitar. E acho que a morte é uma das coisas que não podemos evitar. Em vez de não falar sobre isso, acho que temos que lhe fazer face. Porque tem que ser normal, de uma certa forma. Mas eu sei que ninguém gosta dela.

Ricardo Figueira – euronews:

Em que é que se tornou o mercado das artes nos últimos anos?

Damien Hirst – artista plástico:

Bem, como todos os mercados… os mercados mudam. Acho que agora é mais saudável. Como já disse, enquanto artista, se alguém comprar tudo o que fazemos e depois o vende, não o mantém parado. Compra e vende, compra e vende. Ganha muito dinheiro e pode começar a fazer-se passar por algo que não é. Hoje em dia, acho que é mais saudável. Enquanto artista não queremos uma arte que esteja sempre em movimento. O ideal é que alguém compre, ponha a peça de arte numa parede e a deixe lá ficar. Eu conheço muitas pessoas… Ninguém conseguia manter os seus quadros nesse mercado, nessa loucura. As pessoas compravam quadros para os vender. Qualquer pessoa podia ser um vendedor de arte. Quando pinto um quadro com pontos quero que as pessoas olhem para os pontos, mas muitas vêem cifrões. Isso não é arte. Mas, é óptimo que a arte possa sobreviver em qualquer mercado. E isso é o mais importante.

Ricardo Figueira – euronews:

Está aqui em Kiev, na Ucrânia, para a atribuição do Prémio de Arte “Geração Futura”. Estamos a fazer esta entrevista junto às obras de um dos concorrentes. É importante para si participar neste tipo de iniciativa?

Damien Hirst – artista plástico:

Todos começam enquanto jovens artistas.

Por isso acho que é óptimo. Temos que incentivar. O que o Victor Pinchuk está a fazer é fantástico. Está a encorajar artistas do mundo inteiro, a ajudar a promovê-los. Quando o Viktor me pediu para fazer parte do grupo de artistas associados ao prémio, eu disse que sim se o prémio fosse uma soma avultada e acho que é (N.D.R: 100 mil dólares). Quando estava em Londres ganhei o Turner Prize, que era de 20 mil libras. Era muito dinheiro naquela altura. Isso ajuda imenso. Acho que todo o tipo de ajuda para artistas é bom porque, sabe, há muitos mais artistas pobres e a passar fome do que artistas ricos.

Ricardo Figueira – euronews:

Está aqui juntamente com outros grandes artistas, como Jeff Koons. É verdade que há uma certa rivalidade entre você e o Jeff Koons ou é algo inventado pela imprensa?

Damien Hirst – artista plástico:

Não, nem por isso. Eu compro obras do Jeff. Sou um grande coleccionador e adoro o trabalho do Jeff.

Ricardo Figueira – euronews:

E ele compra os seus?

Damien Hirst – artista plástico:

Não creio. Acho que ele compra arte mais antiga. Ele é um pouco mais velho do que eu, de qualquer das formas. Quando eu era um jovem artista fui à galeria Saatchi e vi uma exposição do Jeff. Eu era estudante e o Jeff já era um grande artista na altura. Ele era o meu herói. Eu não sou o herói do Jeff.

Ricardo Figueira – euronews:

O que é que pensa fazer nos próximos anos?

Damien Hirst – artista plástico:

Bem, com o leilão, deixei uma grande parte do meu trabalho. Deixei as borboletas e todo o tipo de trabalhos com formol. Estou a fazer coisas novas. Limpei o estúdio e estou a divertir-me imenso, como se tivesse voltado ao princípio.

Ricardo Figueira – euronews:

Vai continuar com as caveiras?

Damien Hirst – artista plástico:

Sempre gostei de caveiras. Quando a minha namorada me disse “não podes continuar com as caveiras porque estão muito na moda” fiquei com muita vontade de o fazer. Foi por isso que fiz a caveira com os diamantes. Porque acho que uma caveira nunca poderá estar demasiado na moda. Como no México. Tenho uma casa no México e eles adoram caveiras. É algo repetidamente interminável. E eu gosto de continuar a fazê-lo até estar na moda outra vez e depois fora de moda, e na moda outra vez, por isso não sei.

Ricardo Figueira – euronews:

Damien Hirst muito obrigado! Foi um prazer tê-lo aqui. Bom Natal!

Damien Hirst – artista plástico:

Bom Natal!