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Armas virtuais para lutar contra doenças reais

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Armas virtuais para lutar contra doenças reais

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Os que lutam diariamente contra doenças graves têm agora um aliado de peso: a fisiologia virtual. Trata-se de uma nova geração de sofisticados programas informáticos que alargam as esperanças dos pacientes.

A cirurgia é a rotina diária num hospital de Bruxelas. Desta vez, os médicos preparam-se para extrair um tumor do fígado. São guiados por um modelo tridimensional que lhes permite visualizar o tumor.

O cirurgião Jean-Jacques Houben explica: “As imagens permitem-nos prever como é que o sangue entra e sai do tumor. O objetivo é localizar, exatamente, a região do fígado que vai ser retirada para eliminar o cancro, mas poupando o máximo de tecido saudável.”

Mas o novo método garante mais precisão. “Somos muito mais precisos. É um pouco como o GPS de um carro que permite chegar exatamente ao destino, conhecendo de antemão as coordenadas”, completa Jean-Jacques Houben.

Estes modelos 3D são o resultado de um projeto de investigação da União Europeia que cria ferramentas virtuais para melhorar a abordagem cirúrgica das patologias do fígado.

Na cidade francesa de Estrasburgo, também se aposta na tecnologia. Fomos a uma sala audiovisual de uma unidade de investigação de um hospital. Aqui podem ver-se imagens em tempo real e em três dimensões do fígado do paciente. Imagens que são enviadas, ao mesmo tempo, para o bloco de operações.

Luc Soler, coordenador do projeto “Passport”, explica que em condições normais “o cirurgião não sabe exatamente onde vai porque os órgãos humanos não são transparentes. Mas aqui – diz – podemos ver, sob a superfície dos órgãos, a posição dos vasos sanguíneos e dos tumores. Por isso, cada gesto é mais seguro”.

Os modelos tridimensionais dão aos médicos a possibilidade de simular cirurgias. Mas também garantem que as operações sejam feitas com um risco muito reduzido. Algo que, segundo os investigadores, já está a salvar vidas.

A explicação é feita por Luc Soler: “No passado, dizia-se que havia oito regiões principais no fígado. Mas constatámos que em cada paciente esse número difere. Quando há um tumor numa destas regiões, é preciso extraí-lo e, por causa desse erro, muitas vezes extraíamos fígado a mais e dizíamos: ‘bem, não podemos operar o paciente senão ele vai morrer de insuficiência hepática’. Agora, podemos operar aqueles que antes pensávamos não poder operar.”

Foi o caso de Teresa Oliveira, com uma doença genética que provoca o surgimento de quistos no fígado. “Os quistos ocupavam praticamente todo o fígado. E se eu não tivesse feito nada, provavelmente teria que ter um transplante”, descreve. Mas graças à tecnologia, pode ser operada.

Mais a sul, em Itália, um outro problema de saúde ligado aos rins. Francesca e Paolo conheceram-se na unidade de nefrologia de um hospital de Bérgamo. Ambos têm patologias renais graves e necessitam de hemodiálise para remover o líquido e as substâncias tóxicas do sangue.

Francesca Nembrini começou por fazer quatro horas de hemodiálise por dia e ia ao hospital três dias por semana. Há três meses, passou a ir três noites por semana e faz oito horas de hemodiálise de cada vez.

Mas para a hemodiálise, o médico necessita de construir um acesso vascular, normalmente através de uma pequena cirurgia no braço. Uma operação que não é tão simples quanto se imagina. É o que testemunha Paolo Beretta. “Eu e o meu irmão temos veias muito pequenas. Por isso, são difíceis de isolar. Tive sorte porque conseguiram fazer a fístula à primeira. Mas o meu irmão precisou de três operações para ter esse acesso vascular correto “

Para que a hemodiálise funcione, o fluxo sanguíneo do paciente tem que alcançar um patamar mínimo. A preparação para a cirurgia é acompanhada por exames clínicos que, no entanto, não garantem a cem por cento um bom acesso vascular.

“Um acesso vascular que não garanta um fluxo superior a 300 milílitros de sangue por segundo não funciona. Por isso é necessário voltar a intervir, do ponto de vista clínico, cirúrgico ou farmacológico para garantir que os pacientes tenham um bom acesso vascular”, justifica Stéfano Rota, do Hospital Riuniti, em Bérgamo.

Os investigadores apressaram-se a responder a esta necessidade dos médicos e dos pacientes. Desenvolveram um modelo computadorizado que prevê o fluxo sanguíneo do paciente. O programa pode mesmo indicar que parte do braço terá um melhor fluxo e como é que esse fluxo vai evoluir nas semanas e nos meses após a operação.

Andrea Remuzzi, coordenador do projeto, explica que o método permite prever o fluxo sanguíneo com uma diferença de apenas 15 por cento entre a previsão e o fluxo sanguíneo real medido após a cirurgia. Mas garante que se pode melhorar essa precisão.

É o que assegura, também, a especialista Anna Caroli: “Seremos capazes de melhorar a medição de duas maneiras. Para já, os ultrassons medem a velocidade do sangue num determinado ponto do sistema vascular. Mas, no futuro, vamos poder medir esse fluxo em diferentes pontos e com diferentes velocidades. Por outro lado, de um ponto de vista digital, podemos implementar fórmulas mais complexas e adaptadas.”

Os investigadores dizem que este é apenas o primeiro passo. No futuro, querem poder fornecer aos cirurgiões dados mais precisos para garantir o êxito das operações em órgãos bastante frágeis.

“Esta tecnologia vai permitir melhorar a prática cirúrgica ao nível dos sistemas vasculares do coração, do cérebro ou de outras partes do corpo. Os cirurgiões vão poder prever o que fazer em caso de alteração súbita num vaso sanguíneo, vão poder saber se precisam usar um ‘bypass’, reconstruir um vaso sanguíneo ou colocar uma prótese”, promete Andrea Remuzzi.

Para mais informações:

URL|passport-liver.eu
URL|vph-arch.eu