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E depois de Bento XVI?

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E depois de Bento XVI?

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Sucedeu, no comando da Igreja Católica, a um Papa “globetrotter” que defendia os valores tradicionais. Eleito em 2005, o Papa Bento XVI trabalhou como guardião de de uma igreja que luta contra a diminuição de fiéis na Europa. Quis recentrar os valores, com a Igreja assombrada por escândalos sexuais.

Criticado por alguns, aplaudido por outros, por causa das opiniões conservadoras sobre o aborto, o casamento gay ou o sacerdócio das mulheres, o Papa, com 85 anos, disse não ter mais forças para continuar e quis passar o testemunho. Mas a quem? A maioria dos cardeais foi nomeada por ele Haverá um novo papa tradicionalista? Ou deve a Igreja adotar um prisma mais moderno?

Nesta edição de “The Network” temos, no Parlamento Europeu em Bruxelas, Anne Morelli, professora no Centro Interdisciplinar de Estudos das Religiões e Laicidade. Em Paris, Bernard Lecomte, autor da biografia de Bento XVI “Os segredos do Vaticano”. Também aqui no Parlamento, Pierre Galand, presidente da Federação Humanista Europeia.

Qual é o impacto de Bento XVI na Igreja, nestes últimos sete anos?

Anne Morelli:

De um ponto de vista laico, diria que o pontificado de Ratzinger foi excelente, no sentido em que o conservadorismo radical, ligado a uma péssima estratégia de comunicação, colocou em valor problemas extremamente retrógrados que fizeram muitos fiéis deixar a Igreja. Isso, para nós, é excelente.

Bernard Lecomte:

Penso que, depois do pontificado espectacular de João Paulo II, Bento XVI tentou fazer passar dois conceitos – a verdade, já que quis deixar claras várias coisas – e a simplicidade, como homem, em primeiro lugar, mas também a simplicidade de um papa capaz de renunciar ao cargo por razões de saúde.

Pierre Galand:

O impacto de Bento XVI é, em primeiro lugar, o de um homem que assumiu o cargo com um rigor doutrinal absolutamente insuportável, como disse a Anne, o que fez muitos cristãos católicos afastar-se da autoridade religiosa.

Pôde o Papa gerir corretamente os escândalos de abusos sexuais, ou deveria ter sido mais agressivo?

Anne Morelli:

Houve muitos escândalos na Igreja e ele só reagiu quando não podia virar mais a cara. No caso dos Legionários de Cristo, enquanto ele pôde abafar o padre Marcial Maciel, ele fê-lo. Não penso que ele tenha precedido o movimento.

Bernard Lecomte:

De certa forma, houve injustiça em relação a ele, porque, se os escândalos de pedofilia são reais e e terríveis, só o cardeal Ratzinger, tornado Papa Bento XVI, conseguiu pôr um termo a esses escândalos, primeiro convencendo João Paulo II e, depois, tomando todas as disposições em 2010, quando já era Papa.

Passemos ao futuro. Que tipo de Papa devem escolher os cardeais: um tradicionalista ou um reformista? Pierre?

Pierre Galand:

Em primeiro lugar, diria que não estou de acordo com o que acaba de ser dito. Este Papa, durante muito tempo, como cardeal, fez como toda a hierarquia religiosa: encobriu os escândalos de pedofilia e isso é revoltante. Agora, quanto ao futuro, quando sabemos que foi ele que nomeou a maior parte dos cardeais, não estou muito otimista em relação a ver a Igreja mudar de rumo.

Bernard Lecomte:

Conservador e reformador, são palavras muito políticas. Creio, em primeiro lugar, que os cardeais vão eleger um papa federador, aglutinador. Não podemos eleger alguém que não seja federador para comandar 1300 milhões de fiéis.

De que continente?

Anne Morelli:

Não sei de que continente, mas estou absolutamente segura de que não será um progressista e tenho outra certeza absoluta, muito importante: não vai ser uma mulher.

Chegou a hora de ter um papa africano? Fala-se muito de um ganês (Peter Turkson)…

Pierre Galand:

Posso estar a repetir-me mas, nesta Igreja, se querem um elemento federador, isso seria bem visto, tendo em conta os estragos feitos até agora. Celebramos, este ano, os 50 anos do Concílio Vaticano II. Era outra Igreja, outra forma de ver a dignidade humana. Agora, trata-se de um respeito dogmático que foi posto na frente, regras impostas pela cúpula a todos os fiéis. Nós, como livre-exaministas, não podemos estar de acordo.

É possível que um dia haja um papa mulher?

Bernard Lecomte:

Uma papisa, certamente que não. Um papa africano ou do Terceiro Mundo, com certeza que sim, é perfeitamente possível. Mas com certeza que não uma mulher.

O facto de ter sido este papa a escolher a maior parte dos cardeais faz com que o próximo Papa seja sem dúvida um tradicionalista? É inevitável?

Anne Morelli:

Ainda a propósito da questão das mulheres, é curioso que um papa possa ser negro mas tenha de ser absolutamente de sexo masculino, sendo que mostramos mais facilmente a nossa cor de pele que o nosso sexo.

Quanto à questão sobre o tradicionalismo, estou convencida de que os piões que Ratzinger pôs na Igreja lhe serão fiéis e vão votar num tradicionalista.

Independentemente da identidade do novo papa, como vai fazer face ao problema do planeamento familiar?

Pierre Galand:

Esse problema é, simplesmente, o de autorizar o acesso à contraceção, permitir que haja uma educação para a vida sexual e afetiva junto dos jovens, nas escolas, em todo o mundo, porque existe aqui um tabu que é contrário à nossa visão do mundo, no que toca à forma como as pessoas se devem poder realizar e gerir a sua própria liberdade. Só temos que esperar que os integristas da Igreja sejam relegados para uma minoria.

Bernard Lecomte:

A Igreja são dois mil anos de tradição, não se pilota a Igreja com quem conduz um Twingo. O Papa Bento XVI fez avançar o pensamento sobre o preservativo por causa da sida. Aqui, deu um passo em frente. Quanto ao resto, ao ritmo da Igreja, o próximo papa dará também alguns passos. Mas repito que a Igreja é algo que é difícil de fazer andar.

Anne Morelli:

Espero que o próximo papa não seja tão reacionário como este, mas não tenho muitas esperanças. Tenho medo que haja condenações por parte desta Igreja que condena uma jovem rapariga grávida que não pode, por exemplo, ter acesso ao aborto. Penso que há muita monstruosidade neste tipo de atitude.