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Viagem ao fundo do cérebro

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Viagem ao fundo do cérebro

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O cérebro controla o que pensamos e sentimos, e também os nossos movimentos.

Nesta exposição em Bordéus, as crianças ficam a conhecer os segredos de um dos órgãos mais complexos do corpo humano.

O comissário da exposição, Vincent Jouanneau, convida-nos também a descobrir os avanços da ciência: “A evolução levou à criação de tipos diferentes de cérebros, em vários animais, cada um com capacidades diferentes. Mesmo dentro da espécie humana, os cérebros são diferentes uns dos outros. Dependendo da forma como o usamos, das nossas experiências de vida, do nosso conhecimento acumulado, desenvolvemos mais ou menos funções cognitivas. É essa plasticidade que faz do cérebro um órgão único, perfeitamente adaptado a cada indivíduo.

No passado, só se podia estudar o cérebro das pessoas mortas, nas autópsias. Hoje, podemos ver o funcionamento de um cérebro em tempo real, graças à imagiologia médica.

Essas inovações ajudam-nos a perceber melhor como funciona o nosso cérebro”.

Num hospital em Vílnius, na Lituânia, está a decorrer um teste pouco habitual. Os pacientes, vítimas de traumatismo craniano, usam óculos de plástico para medir a pressão dos tecidos cerebrais.

Até agora, esta medida, usada para determinar se os pacientes têm ou não risco de lesões cerebrais, só era possível com uma operação que envolvia perfurar o crânio. Um procedimento caro e perigoso, que deixa um milhão de pacientes europeus sem uma monitorização adequada do cérebro.

“Esta plataforma dá-nos a nós, neurocirurgiões, a possibilidade de percebermos o que se passa no cérebro sem sermos invasivos. As medições invasivas são a norma na neurocirurgia, mas não podem ser utilizadas em pacientes conscientes.

Este equipamento permite-nos fazer medições da pressão intracraniana que são mais seguras, mais fiáveis e mais rápidas”, explica Saulius Rocka, médico responsável por este projeto.

Esta é uma plataforma que se baseia na tecnologia de ultrassons Os medidores de ultrassons são aplicados nos olhos e medem os parâmetros de fluxo sanguíneo em várias regiões da artéria oftálmica.

O sinal é processado de forma rápida e precisa, segundo os autores do projeto.

O cérebro é muito mais que um órgão humano frágil.

As crianças, nesta exposição, aprendem que o cérebro tem o incrível potencial de aumentar o potencial quase sozinho, Mas pode também diminuir esse potencial, à mesma velocidade, com o envelhecimento.

“Foram feitas ressonâncias magnéticas a taxistas de Londres e ficou provado que têm um hipocampo mais desenvolvido que outras pessoas. O hipocampo é a parte do cérebro responsável pela memória. E por que razão os taxistas de Londres desenvolveram esta parte? Porque tiveram de aprender de cor o mapa das ruas de Londres e desenvolveram esta capacidade mental”, explica Vincent Jouanneau.

Neste laboratório em Viena, os cientistas colocam, literalmente, as mãos nos cérebros. Querem perceber os segredos moleculares mais profundos do envelhecimento do cérebro.

Querem, sobretudo, perceber por que razão alguns cérebros se mantêm saudáveis com a idade, enquanto outros desenvolvem doenças neurodegenerativas, como Alzheimer.

Conta-nos Gabor G. Kovacs, o neuropatologista responsável por este projeto: “Os neurónios, ou células cerebrais, têm muito contacto uns com os outros, e começam a perder esses contactos. Depois de os perderem, as células dos nervos começam a morrer. Ao mesmo tempo, acumulam proteínas patológicas. É o que acontece com a doença de Alzheimer. O que queremos descobrir é qual é o primeiro passo neste processo.

Quando um paciente vai ao médico já com sintomas de Alzheimer, as células já morreram. Queremos recuar cinco ou oito anos, até ao tempo em que a doença realmente começa”.

Até agora, os cientistas conseguiram perceber algumas coisas. Acreditam que as mesmas proteínas e genes envolvidos no desenvolvimento do cérebro podem ter um papel na degradação, com a passagem do tempo. Esta descoberta pode vir a ser essencial para melhorar o diagnóstico e a terapia da doença de Alzheimer.

Na exposição em Bordéus, as crianças aprendem também que o cérebro tem capacidades ainda por explorar. Pode, por exemplo, manipular um computador ou uma máquina através de um computador. Técnicas complexas, conhecidas como interfaces cérebro-computador, estão a ser usadas pelos cientistas para dar esperança aos paraplégicos e tetraplégicos.

Num laboratório em Linz, na Áustria, o cérebro é já usado para ligar e desligar luzes.

Os elétrodos, à volta do crânio, detetam quando os sinais elétricos no cérebro estão mais ou menos ativos.

Um computador lê a atividade cerebral e consegue traduzi-la numa ordem para acender a luz. Mas os pesquisadores acreditam que o cérebro pode ser estimulado para fazer ainda mais. Pode, por exemplo, fazer um paraplégico interagir mentalmente com um videojogo jogar um jogo de tabuleiro ou abrir portas à distância.

O melhor pode estar ainda para vir: “O interface cérebro-computador, basicamente, funciona desta forma: temos elétrodos que são colocados em sítios próprios na cabeça, onde certas ondas cerebrais podem ser medidas. Para o nosso sistema, uma simples mudança no sinal cerebral é suficiente para gerar um comando ao computador. Tal como quando usamos algo podemos ativar uma função com um só comando, também podemos usar um só sinal do cérebro para ativar determinado comando”, diz Stefan Parker, cientista de computadores na Universidade Johannes Kepler.

Estes cientistas estão já a testar a possibilidade de controlar máquinas voadoras através de uma combinação de técnicas sensoriais, visão compoturizada e ondas cerebrais.

Falando de coisas mais concretas, há também muitas aplicações possíveis no dia-a-dia: “Podemos, por exemplo, pilotar uma cadeira de rodas com o cérebro, de forma bastante sólida e precisa. Ou ainda controlar um computador com o cérebro, e forma a que o computador trabalhe mais depressa. Podemos ainda antever um futuro em que os sinais do cérebro possam ajudar a controlar as órteses e façam com que um tetraplégico possa voltar a agarrar em objetos”, conta Gerhard Nussbaum, outro cientista envolvido no projeto, ele próprio paralisado.

Este é um futuro que, para os cientistas, pode estar já ao virar da esquina. Mas é precisa muito mais pesquisa até se poder concluir o “puzzle” sobre o funcionamento deste órgão magnífico que é o cérebro.

www.fp7brainsafe.com
www.develage.eu
www.asterics.eu
www.cap-sciences.net