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Manning: Herói da opinião pública e do jornalismo de investigação forçado a declaração de arrependimento

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Manning: Herói da opinião pública e do jornalismo de investigação forçado a declaração de arrependimento

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Reviravolta no caso Manning pode deixar Wikileaks numa posição mais frágil perante a opinião pública.

Aquele que Julien Assange considera um herói, fez, alegadamente, uma declaração de arrependimento numa audiência da sentença, em Fort Meade, no Estado de Maryland. A declaração de Manning surge no final de um julgamento em tribunal marcial. Desde a sua detenção, o soldado norte-americano de 25 anos, que entregou ao portal WikiLeaks documentos militares que contêm provas de abusos dos direitos humanos e eventuais crimes de guerra no Iraque e no Afeganistão, tornou-se um símbolo de coragem e resistência perante a adversidade. Resistiu a uma pressão extraordinária. Esteve sempre em isolamento, despido e submetido a tratamento cruel, desumano e degradante por parte do governo dos Estados Unidos.

O seu direito constitucional a um julgamento rápido foi ignorado. Esteve três anos em prisão preventiva, enquanto o governo reuniu 141 testemunhas e milhares de documentos na posse dos seus advogados.

O governo negou-lhe o direito de realizar uma defesa básica e a justificar que as suas ações não pretenderam causar qualquer dano.

A defesa de Manning lutou passo a passo até que, em julho, o militar caído em desgraça pela denúncia de documentos sensíveis e secretos, foi condenado, primeiro, a 90 anos de prisão.

Bradley Manning foi considerado culpado de violar a Lei de Espionagem, mas não de “conluio com o inimigo”, uma das 21 acusações.

Manning estava convicto da importância de informar o público sobre os crimes de guerra e sobre a sistemática injustiça.

Fonte da Wikileaks já considerou que a única moeda de troca deste tribunal militar é a humilhação de Bradley Manning, forçado a pedir desculpas ao governo dos EUA, na esperança de reduzir a pena em 10 ou 15 anos.

O pedido de desculpas terá sido extorquido através da manipulação da justiça militar norte-americana.

Custou três anos e milhões de dólares extrair dois minutos de remorso tático.
A WikiLeaks declarou que continua a apoiar Bradley Manning, e continuará a fazer campanha pela sua libertação incondicional.

Eurodeputados pedem clemência a Obama

Antes de conhecida a sentença, 17 eurodeputados, entre as quais, as portuguesas Ana Gomes, Alda Sousa e Marisa Matias, escreveram uma carta ao presidente norte-americano Barack Obama para exigir a libertação de Manning.

Os eurodeputados sublinham que, “mais do que causar danos, a entrega de documentos por Bradley Manning ao WikiLeaks sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão fez uma muito necessária luz sobre essas ocupações, revelando, entre outros abusos, uma rotina de assassínio de civis”, o que, prosseguem, “contrasta enormemente com os relatórios de progresso fornecidos ao público por líderes militares e políticos”.

Para os 17 eurodeputados signatários da missiva, “a ação corajosa de Bradley Manning, pela qual já foi três vezes nomeado para o Prémio Nobel da Paz, foi uma inspiração para outros, incluindo Edward Snowden, que recentemente divulgou informação sobre vigilância em larga escala do governo norte-americano nos Estados Unidos e também de governos e cidadãos europeus.

A pena de prisão (quase) perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional, foi recentemente rejeitada como ‘tratamento desumano e degradante’ pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos”, alegam os eurodeputados.

Precedente afeta jornalismo de investigação

Também os jornalistas de investigação estão preocupados perante a possibilidade deste tipo de processos judiciais eliminar o acesso a fontes de informação crucial.
“Este processo tem e terá um efeito intimidatório nas fontes que poderiam fornecer informação expondo uma política ou práticas questionáveis do Governo”, defendeu Brant Houston, diretor da secção de jornalismo de investigação da Fundação John S. e James L. Knight.

“Sem proteção legal suficiente e com a expetativa de um processo judicial que os leve à bancarrota ou à prisão, haverá muito menos informadores que decidam recorrer à imprensa”, acrescentou.

Joel Simon, diretor da Comissão para a Proteção de Jornalistas (CPJ), concorda que a “agressiva acusação” do governo norte-americano contra Manning “enviou uma clara mensagem aos potenciais informadores” que se vai repercutir no trabalho dos “jornalistas que cobrem assuntos de segurança nacional”.

Para Tom Rosenstiel, diretor executivo do Instituto da Imprensa Norte-Americana (API), o que é preocupante não é a acusação a Manning em si, dado que o soldado “não recorreu diretamente a um meio de comunicação” convencional, mas aos ativistas do portal WikiLeaks.

“Isso distingue o seu caso da forma como normalmente se processa o jornalismo de investigação, em que os repórteres cultivam as suas fontes e ganham a confiança destas”, disse Rosenstiel.

O que é preocupante, segundo o especialista, é que o governo do presidente Barack Obama esteja a usar a lei da espionagem “de uma forma como que jamais fez”.
Manning é o sexto processado durante a administração Obama por violar a lei da espionagem, aprovada em 1917 e que, antes da chegada ao poder do atual chefe de Estado, apenas tinha sido usada três vezes para sustentar uma acusação judicial federal, segundo dados dos Repórteres Sem Fronteiras.

“Se o governo persistir no uso desta nova interpretação, está a coagir, na prática, os informadores legítimos e os jornalistas que atuam no interesse público”, alertou Rosenstein.

Houston concorda que “o atual uso da lei da espionagem” em que o governo de Obama apoiou a sua acusação a quem quer que divulgue informação confidencial “contribui enormemente para o efeito intimidatório”.

Essa nova interpretação da lei consiste, segundo Elizabeth Gotein, do Centro Brennan de Justiça, numa “tendência para que não importe o motivo” pelo qual o informador revela informação, como demonstrou a administração de Obama ao acusar Manning de “ajudar o inimigo”, apesar de o soldado argumentar que apenas queria abrir um debate público.

Com o passar do tempo, esta ameaça “pode fazer com que as fugas de informação sejam cada vez mais espetaculares e em maior escala, porque os únicos que estarão dispostos a assumir esse risco serão pessoas que fazem uma cruzada pessoal”, prognosticou Gotein – um perfil que corresponde precisamente ao do fundador do portal WikiLeaks, Julian Assange.

Este cenário deixa uma única esperança aos jornalistas de investigação norte-americanos, segundo um editorial do New York Times: que o governo “faça alguma coisa para superar a sua dependência dos segredos”.