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Holodomor: um caso de genocídio?

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Holodomor: um caso de genocídio?

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Targan é uma pequena aldeia a 120 km de Kiev, a capital da Ucrânia. Durante 1932 e 1933 metade da população morreu de fome.

Este período ficou conhecido como Holodomor. Não foi a falta de alimentos que esteve na origem do flagelo mas uma ordem da União Soviética de Estaline, após a coletivização forçada.

Os camponeses recusaram integrar os “kolkhozes” e a entregar as suas produções.

Oleksandra Ovdiyuk, recordada que “os bolcheviques criaram brigadas especiais de sete pessoas. Essas brigadas varriam as aldeias, em vagões, para confiscar qualquer feijão, grão ou outros alimentos que estivessem escondidos nas casas dos agricultores.”

Os camponeses que sobreviveram à fome foram aqueles que conseguiram esconder alguns alimentos dos soviéticos e alimentar-se de tudo o que conseguiam obter, como por exemplo folhas e talos de milho.

Segundo os sobreviventes, no inverno de 1932 – 1933, as pessoas viram-se obrigadas a comer até os animais de companhia, como cães e gatos. Chegou mesmo a haver casos de canibalismo, como recorda Olena Goncharuk. “Tínhamos medo de andar pela aldeia pois os camponeses estavam famintos e caçavam as crianças. Lembro-me da minha vizinha, ela tinha uma filha que desapareceu. Fomos à casa dela. A cabeça estava separada do corpo e o corpo estava a assar no forno.”

Enquanto uma brigada varria as aldeias em busca de alimentos outra percorria as povoações a recolher os cadáveres.

O cemitério de Targan era, em 1933, uma vala comum. Cerca de quatro centenas de camponeses foram aqui enterrados, muitos ainda com vida.

“Foram à casa de uma mulher e queriam levar o cadáver dela mas ela ainda estava viva. Ela disse ao homem para não a levar pois ainda estava a respirar. Ele respondeu-lhe que ela iria morrer de qualquer modo e que não queria voltar ali no dia seguinte,” conta Olena.

Estima-se que a Grande Fome tenha provocado milhões de mortos. Devido à magnitude do Holodomor, os historiadores ucranianos classificam-no como genocídio, uma classificação pouco consensual. Os académicos internacionais tendem a classificar o Holodomor como um crime contra os direitos humanos.

O historiados ucraniano, Volodymyr Serhiychuk, considera que defende que o termo genocídio é o adequado pois, como conta, “houve a fome em outras regiões da URSS, no Cazaquistão, por exemplo, mas os cazaques podiam ir e procurar comida em regiões limítrofes da Rússia, ou no Quirguistão e Uzbequistão. Mas os ucranianos não tinham possibilidade de ir à Bielorrússia ou à Rússia, porque as fronteiras estavam fechadas e não lhes era permitido comprar bilhetes de comboio. Os agricultores ucranianos não quiseram aderir aos “kolkhozes “, nem dar aos bolcheviques a sua produção. É por isso que os bolcheviques não tiveram outra opção senão matá-los à fome,” conclui.

Desde 2006, a Ucrânia instituiu que o quarto sábado de novembro seria o dia do Holodomor. Um dia em que todo o país lembra os milhões de ucranianos que morreram à fome, colocando velas em todas as janelas e nos monumentos evocativos.

Apesar do Holodomor ser reconhecido como genocídio por mais de 20 países, os académicos internacionais consideram que este não foi um ato com um intuito de exterminar um povo, pois outros países e outros povos foram, também afetados. Uma ideia, defendida, também, por André Liebich, Professor no Instituto de Altos Estudos Internacionais e do Desenvolvimento, Suíça, historiador especialista em países da ex-URSS.

euronews: O primeiro artigo da lei ucraniana sobre o Holodomor define-o como genocídio do povo ucraniano. É reconhecido como tal em mais de 20 países. No entanto, para muitos, a utilização do termo’‘genocídio” não é o mais adequado. Por quê?

André Liebich: De facto, o termo é mal escolhido. Quando pensamos em genocídio, especialmente no contexto da década de 30, pensamos primeiro no Holocausto. Mas a diferença é que o Holodomor não afetou só o povo ucraniano, afetou também outros povos, no interior da Ucrânia e mesmo fora, como no Cazaquistão e na Rússia. Além disso, o Holocausto foi uma campanha, uma intenção de exterminar um povo, enquanto o Holodomor, se não houvesse milhões de vítimas, o que é indiscutível, não foi planeado com o intuito de erradicar o povo ucraniano. Foi o resultado de uma política desumana e brutal de Estaline, que não hesitou, perante o número de vítimas que iria criar. Mas a sua principal intenção não era eliminar os ucranianos mas realizar o seu programa, custasse o que custasse. Mesmo à custa de milhões de vítimas, especialmente agricultores, que eram, na sua maioria, ucranianos.

e: Na Ucrânia as alterações ao Código Penal preveem penas pela negação pública do Holodomor. Isso não vai afetar os debates sobre o assunto?

AL: Absolutamente! O estado não tem de decretar o que é a verdade nem pôr fim às discussões. O facto de o Holodomor ser contestado por alguns torna o debate mais atual e necessário. Só mostrando os factos, discutindo o número de vítimas, é que chegamos à verdade. Não cabe ao Estado legislar sobre o que é verdadeiro e o que não é verdadeiro, colocando um ponto final à discussão.

e: Há a realidade da fome e a morte de milhões de pessoas, mesmo assim os números variam. Seria justo colocar essa tragédia na escala de crimes contra a humanidade, como no caso do Holocausto?

AL: Absolutamente! Como um crime contra a humanidade e não como um crime contra um povo em particular. Se concebermos o Holodomor como um crime que afetou milhões de pessoas em toda a ex-União Soviética, temos uma base para a comemoração comum, para uma reconciliação entre russos, ucranianos e outros povos. Se pretendermos classificar a tragédia do Holodomor como puramente ucraniana e que visa apenas os ucranianos, isso criará conflitos com aqueles que foram, também, vítimas dessa tragédia.

e: A Ucrânia é, por vezes, acusada de encetar um processo de vitimização competitivo, supostamente tentando aumentar o número de mortos. O que pensa?

AL: Na verdade, uma competição de vítimas não beneficia ninguém. O número mais baixo que podemos dar, em relação ao Holodomor, é de 2 milhões de indivíduos. Se somarmos os que morreram de doença devido à fome, se juntarmos o défice de nascimentos, chegamos a vários milhões, mas não a 10 milhões, como às vezes ouvimos, nem talvez a 6 milhões, que é o número canónico para o Holocausto, com o qual querem comparar o Holodomor.