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Ucrânia dividida entre Rússia e UE

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Ucrânia dividida entre Rússia e UE

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Os apoiantes de um acordo de associação entre a Ucrânia e a União Europeia manifestaram-se, este domingo, depois do governo de Kiev ter anunciado que suspendia as negociações e que iria privilegiar os negócios com a Rússia. A capital da Ucrânia não via tantas pessoas nas ruas, desde a Revolução Laranja, em 2004. Os protestos mostram a profunda divisão que existe no seio da sociedade do país, dividido entre a herança soviética e a aproximação à União Europeia.

Há uma década que se iniciaram as negociações para uma futura integração da Ucrânia à UE. Em 2004, o segundo presidente da Ucrânia independente, Leonid Kuchma, iniciou as conversações com os homólogos europeus. A Rússia já tinha atraído três antigas repúblicas soviéticas, para um espaço económico comum.

A chegada ao poder de Yulia Tymoshenko e Viktor Yushchenko, marcou uma aproximação à Europa. Uma época marcada pelas fortes tensões com a vizinha Rússia, mas também pela incapacidade de encontrarem um acordo…

O resultado, a fação pró-Rússia regressou ao poder. O presidente Viktor Ianoukovicth não virou costas à União Europeia nem ao caminho percorrido até agora mas será sincero?

A aproximação de Kiev ao ocidente implica um afastamento do leste e da Rússia, algo que o presidente não aceita. A poucos dias de assinar o acordo com a União Europeia Ianoukovich reuniu, secretamente, com Vladimir Putin.

Em cima da mesa estiveram potenciais represálias, caso a Ucrânia assinasse o acordo com a UE. Há muito que Putin quer que a Ucrânia faça parte da união aduaneira que mantém com Bielorrússia e o Cazaquistão.

O antigo presidente Yushchenko e outros críticos da União Aduaneira da Eurásia advertiu que único objetivo de Moscovo é apropriar-se da soberania dos países e destruir a indústria local e que, por isso, não pode qualificar-se de parceria.

No parlamento, o primeiro-ministro, Mykola Azarov, questiona: “o que compensaria os prejuízos se virássemos as costas à união aduaneira do Kremlin?”

Esta segunda-feira Bruxelas criticou a ação da Rússia e afirmou que mantém a disposição em fechar os acordos de associação e de comércio livre com a Ucrânia.

Para nos explicar a situação, temos Kataryna Wolczuk, o directora-adjunta do Centro de Estudos da Rússia e do Leste Europeu, na Universidade de Birmingham.

euronews: A Ucrânia suspendeu os preparativos do Acordo de Associação com a União Europeia. Qual é a mensagem que o governo transmite com esta decisão?

Kataryna Wolczuk: O governo ucraniano está a enviar a mensagem de que os benefícios da integração com a UE não têm sido claros e não foram comunicados, claramente, ao povo da Ucrânia. E isso é surpreendente pois as negociações duraram muitos anos, mas foram muito, muito… em vez de tecnocráticas, foram uma espécie de intergovernamentais, como muitos especialistas e dirigentes da Ucrânia envolvidos mas não com pessoas reais.

e: Isso significa que a Ucrânia tem intenções de fortalecer os laços com a Rússia?

KW:Não necessariamente. A Rússia está a investir no seu próprio regime de integração regional, chamado de União Económica da Eurásia, que é suposto ser criado em 2015. A Rússia está a esforçar-se, muito para que isso aconteça. Dito isto, a Ucrânia tem resistido, até agora, e mesmo quando suspendeu a assinatura do Acordo de Associação, disse que não era por causa da adesão à União Económica da Eurásia. A Rússia tem vindo a realizar, ao longo dos últimos dois anos, uma forte campanha contra o Acordo de Associação apelidando-o de suicida para a Ucrânia; que a Ucrânia iria comprometer-se com todas as decisões da UE, sem poder opinar e que os custos, a curto prazo, seriam muito elevados. A Rússia não só ofereceu, por exemplo, descontos nos preços do gás mas,ameaçou, também, com a aplicação de medidas punitivas contra a Ucrânia.

e: Como qualifica as grandes manifestações pró-UE, na Ucrânia, em defesa do Acordo de Associação?

KW: Os protestos são muito simbólicos. Estamos a falar de nove anos após a Revolução Laranja. O presidente da Ucrânia é quem é por culpa da Revolução Laranja. As pessoas, nos últimos três anos, ficaram muito desiludidas com o modo como as coisas têm acontecido na Ucrânia. Basta falar com as pessoas nas ruas para ver este sentimento palpável de frustração. A decisão de suspender a assinatura do Acordo de Associação tem sido exemplo, para o povo da Ucrânia, das esperanças frustradas de que a Ucrânia poderia tornar-se num país europeu normal.

e: Sem o acordo de associação com a Ucrânia, a Parceria Oriental pode ainda cumprir seu objetivo ou tem de ser degradada?

KW: Não creio que possa ser diminuída. A UE precisa de se certificar que os dois países, a Moldávia e a Geórgia, que são, a partir de hoje, os mais prováveis para assinar o Acordo de Associação, sabem que os benefícios da integração com a Europa são imediatos e muito mais visíveis.

e: O acordo de associação com a Ucrânia poderia ter-se tornado numa das principais realizações da próxima cimeira em Vilnius. O que devemos esperar, agora, deste evento?

KW: É muito difícil dizer o que a Ucrânia vai fazer a partir de hoje. Estamos a ver que o presidente ucraniano, Yanukovich tem estado, visivelmente silencioso em relação à sua posição sobre o Acordo de Associação. Foi o primeiro-ministro, Mykola Azarov, que anunciou que os preparativos foram abandonados. Em que medida a Ucrânia está preparada para fazer uma outra inversão de marcha, e como iria ser vista na UE? Creio que a Ucrânia perdeu muita credibilidade. É muito difícil de prever. Assim, os preparativos para a cimeira Vilnius vão manter-nos, a todos, suspensos.