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EU-Rússia: Crise na Ucrânia com impacto direto na política energética europeia

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EU-Rússia: Crise na Ucrânia com impacto direto na política energética europeia

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As sanções europeias à Russia são o tema principal do próximo encontro de líderes europeus, esta quinta-feira em Bruxelas. Angela Merkel, também neste caso, assume um dos papéis de protagonista. A chanceler alemã já falou várias vezes com Putin sobre as consequências das últimas ações na Crimeia.

Mas tanto Berlim como Moscovo têm a perder caso as sanções se concretizem.
As trocas comerciais entre os dois países rondam os 76 mil milhões de euros todos os anos. Para além da Alemanha, a Comissão Europeia estima que os negócios entre Estados-membros e a Rússia, só em 2012, chegaram aos 335 mil milhões. A União Europeia é mesmo o maior parceiro comercial de Moscovo, com 41 por cento de todos os negócios.

Há ainda a questão energética: a dependência do gás russo varia entre os 28 Estados-membros. No caso de cancelamento de contratos, o Reino Unido, por exemplo, estaria muito pouco exposto. Já a Alemanha, os Países do Báltico e a Polónia seriam bastante afetados.
Esta crise pode obrigar a Europa a repensar toda a política energética.

Para nos ajudar a perceber todas estas implicações, entrevistámos Judy Dempsey, editora chefe do “Europa estratégica”, um blog do “Think-Tank” Carnegie Europe.

James Franey, euronews:
“Começo por lhe perguntar se na próxima cimeira que começa na quinta-feira, Angela Merkel que tem falado muito de sanções à Rússia, vai passar das palavras às ações concretas?”

Judy Dempsey, Carnegie Europe:
“Acredito que Merkel já está a passar das palavras a ações concretas com a primeira fase das sanções. Mas considero que agora não terá escolha e vai ter de continuar no caminho das sanções.
Recuar agora iria abalar o sentido de unidade e coesão da União Europeia. E desta vez está a olhar-se de forma diferente para a relação com a Rússia. Isto é novo.”

James Franey, euronews:
“Está a dizer-me que a relação entre a Alemanha e a Rússia está a mudar. Até porque a Alemanha sempre foi “branda” em relação à Rússia. Há mudanças concretas.”

Judy Dempsey, Carnegie Europe:
“Do ponto de vista da chanceler, a Rússia era um caso difícil quando Merkel tomou posse em 2005, mas logo depois teve outras coisas com que se ocupar. Acredito que líder alemã se tem apercebido , especialmente nos últimos dois anos, depois de Putin ter sido reeleito Presidente, de como toda a situação com a Rússia se deteriorou e Merkel tem falado sobre o assunto. Mas com toda a crise na Ucrânia, agravada pela intervenção russa na Crimeia, acho que a Rússia está a ferir, mais que “morder” as suas relações com a Alemanha. Estamos a assistir a uma mudança fundamental no relacionamento Alemanha -Rússia. De facto, Putin arrisca-se a perder a Alemanha como seu principal aliado dentro da União Europeia.”

James Franey, euronews:
“Que tipo de sanções podemos esperar? Houve conversas sobre o cancelamento de contratos de gás, que iriam afetar, de forma dura, os cofres da Rússia. Considera a ameaça realista?”

Judy Dempsey, Carnegie Europe:
“Em primeiro lugar, será legal cancelar esses contratos de gás de longo prazo? De qualquer forma, não é particularmente legal invadir um qualquer país! Se for esse o caminho escolhido, cancelar os contratos com a Rússia , é melhor ter certeza de que se têm a) fontes diversificadas b) um armazenamento completo. E c ) que não vai afetar os europeus de Leste . Esses países são muito dependentes da Rússia .

Esta crise vai concentrar as atenções, de uma vez por todas, no papel político da energia. Haverá uma reavaliação séria sobre o tipo de relacionamento em matéria de energia que precisamos ter com a Rússia.
A Rússia pode perder esta “batalha” da energia mais do que os europeus , uma vez que têm alternativas. O tempo agora é escasso, mas temos que começar a pensar nisso .”

James Franey, euronews:
“Se os contratos de gás forem cancelados, certamente o rublo irá cair. Qual o impacto que isso teria sobre o Putin e a Rússia?”

Judy Dempsey, Carnegie Europe:
“O rublo já está a cair. A Gazprom, nos últimos dias da primeira crise Ucrânia, perdeu cerca de 12 mil milhões de euros, com a desvalorização das ações. É muito dinheiro perdido. Além disso, mais cedo ou mais tarde , a classe média ( na Rússia) vai sentir o aperto. Durante muito tempo, os preços do gás russo, dentro do país, foram altamente subsidiados: isso representava perdas e ineficiência, mas Gazprom contava com a Europa Ocidental e com os europeus que compram o gás para compensar. Qualquer redução neste tipo de receitas pode forçar Putin a repensar a própria política energética. E é aí que as coisas podem ficar muito difíceis para o presidente russo.”