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Bósnia: Um território minado

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Bósnia: Um território minado

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Aladin Mijacic viu a perna cortada, depois de um acidente com uma mina… Estamos na Bósnia, o país da Europa mais afetado pelas minas terrestres…. Aladin tenta convencer as vítimas a manterem a esperança: “Assim que recebo notícias sobre uma nova vítima das minas terrestres, salto imediatamente para o meu carro e vou direto para o hospital apoiar a família. Bem… Quando não existe família é o meu dever ajudar a vítima a lidar com o choque. Mais tarde, assim que a vítima sai do hospital, vamos visitá-la sempre que é necessário.”

Aladin encontra-se com Mirnes Nisic de 18 anos que consegue usar os braços novamente, quase por milagre. Estamos em Seljublje, uma pequena aldeia no interior da Bósnia. Num dia frio, em janeiro deste ano, Mirnes ajudava o primo Nedzad a cortar lenha numa floresta próxima: “Houve uma enorme explosão. Primeiro pensei que era a corrente da minha moto-serra que tinha partido, mas não… Desmaiei e quando voltei a mim 10 ou 15 minutos depois, percebi o que tinha acontecido: era uma mina!”

Fatima, a Mãe de Mirnes lembra-se de cada momento desse dia: “Enquanto trabalhava no campo de milho, ouvi uma detonação, mas primeiro pensei que era novamente um animal apanhado por uma mina… Algo que acontece às vezes… Por isso estamos todos familiarizados com este som… De volta a casa, convidei a minha irmã e a minha sogra para um café, dizendo-lhes que tinha ouvido a explosão de uma mina…”

Mas não era um animal… Mirnes ficou ferido nos dois braços, Nedzad nas duas pernas: “O meu amigo pediu-me para colocar algo a fazer pressão nas pernas para parar o sangramento. Mas eu estava gravemente ferido nos braços e não conseguia. Ele pediu-me para não o deixar sozinho, para ficar com ele até a ajuda chegar. A guerra acabou há quase duas décadas e estas minas ainda estão lá, prontas para nos matar a qualquer momento!”, diz Mirnes.

Nedzad morreu algumas horas depois no hospital. Mirnes fez um transplante do músculo da perna para o braço. E está a tirar a carta de condução.

A ONG dos sobreviventes das minas está sedeada em Tuzla. O diretor da organização, Amir Mujanovic, não está nada otimista sobre a desminagem na Bósnia: “A Bósnia está a enfrentar enormes desafios para conseguir ser um país livre de minas até 2019, tal como a estratégia nacional prevê… Há um grande déficit de financiamento por parte das entidades nacionais e locais. Por exemplo, em 2013, no ano passado, as entidades nacionais forneciam apenas um quarto do financiamento projetado…”

A situação ainda ficou pior, na primavera deste ano, enchentes e deslizamentos de terras deslocaram os campos minados… As ruínas indicam a antiga linha da frente. E as minas ainda estão por toda a parte… Em Kovacica encontrámos os atuais heróis da Bósnia, os homens que desarmam as minas… Zeljko, Dusko, Sanjin… São homens corajosos que enfrentam um risco mortal todos os dias.. Cerca de 200 mil minas ainda estão espalhadas pelos terrenos e não é fácil encontrá-las.

“Eu gosto de ajudar as pessoas a voltar a casa, onde viviam antes da guerra. E a segunda razão pela qual escolhi este trabalho é porque precisamos de trabalho e não há outros empregos disponíveis…”, conta Sanjin Matkovic.

Desde o fim da guerra, cerca de 1700 pessoas morreram ou ficaram feridas nas minas ou nos engenhos explosivos não detonados na Bósnia e Herzegovina. Nesta primavera, cerca de 5000 deslizamentos de terras modificaram a paisagem da Bósnia, muitos afetaram diretamente os campos minados…

Dusko Skipina descreve: “Este era apenas um campo normal, onde os moradores cultivavam feno. Mas, devido às fortes chuvas e aos deslizamentos de terra, o campo minado, na antiga linha da frente, lá em cima, foi deslocado um pouco cá para baixo e agora as minas terrestres estão algures por ali…”

Antes da guerra, viviam em Kovacica 160 famílias. Os conflitos deixaram a vila vazia. Apenas 18 famílias voltaram, entre elas: a família de Stojan Stojanovic: “Eu estava cansado, sentei-me para acender um cigarro. Os meus cigarros cairam, queria apanha-los e, de repente, vi algo verde, de aparência estranha, perguntei-me o que seria… Arrumei as folhas para o lado e vi que era uma mina. Já encontrei minas quatro vezes, até agora… Quatro vezes. Pessoalmente, fiquei afetado em dois casos: o primeiro incidente aconteceu quando um pai e o filho foram para lá cortar madeira. A mina matou o pai, o filho estava gravemente ferido… E, depois três dos meus amigos foram apanhar cogumelos e um deles pisou uma mina e morreu imediatamente…”

Halid Hadziabdic treina os cães farejadores de minas… Rostos cansados… E um silêncio partilhado pelos colegas perdidos que morreram no cumprimento do dever…

Zeljko Pljevaljcic conta: “Eu perdi um bom amigo, um colega, e tenho muitos amigos que sobreviveram, mas ficaram gravemente feridos depois da ativação da mina e não se conseguem mexer sozinhos depois do acidente.”

No primeiro semestre deste ano foram acrescentados mais 14 nomes à lista das vítimas nestes campos de extermínio. Quatro deles morreram. Incluindo uma criança. O ano ainda não acabou e as armadilhas escondidas nas florestas da Bósnia vão continuar a matar. Da mesma forma que mataram Nedzad…

Bonus interview: Amir Mujanovic, executive director of Landmine Survivors Initiative
Será que a Bósnia se vai livrar das minas terrestres até 2019? Amir Mujanovic, diretor-executivo da ONG com sede em Tuzla “Landmine Survivors Initiative”, explica-nos os obstáculos que a Bósnia e Herzegovina têm de enfrentar: ainda existem cerca de 200 mil minas escondidas no solo, mas o dinheiro não é suficiente. Nem vontade política para as detetar o mais rapidamente possível. Para ouvir a entrevista completa (em inglês), por favor, siga este link.

Bonus interview: Ahdin Orahovac, deputy director of Bosnia’s Mine Action Centre
Bósnia e Herzegovina enfrentam enormes dificuldades na luta contra as minas terrestres. O que está errado? Em Sarajevo, a Euronews encontrou Ahdin Orahovac, vice-diretor do “Mine Action Centre” BHMAC do. Para ouvir a entrevista completa (em inglês), por favor, siga este link.