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Dieudonné: A história de um provocador nato

A euronews traça a história do controverso humorista francês, que começa quarta-feira a ser julgado por apologia do terrorismo.

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Dieudonné: A história de um provocador nato

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Dieudonné, o humorista francês que tem dado mais que falar pela controvérsia que pelo humor, começa esta quarta-feira a ser julgado por apologia do terrorismo, depois de um comentário no Facebook em que se identificou com Amedy Coulibaly, o autor da tomada de reféns na loja Hyper Cacher, em Paris, frequentada por judeus. Este episódio, que fez quatro mortos, aconteceu dois dias depois do ataque mortífero ao jornal Charlie Hebdo, onde tinham morrido 12 pessoas.

Quem é Dieudonné?

Dieudonné M’bala M’bala é um humorista, ator e militante político francês nascido a 11 de fevereiro de 1966 em Fontenay-aux-Roses, filho de uma socióloga francesa e de um contabilista camaronês.

Depois de uma educação católica no liceu e alguns biscates, lança-se na comédia e alcança o estrelato nos anos 90 com a dupla “Elie e Dieudonnée”, juntamente com Elie Semoun.

A intervenção política começa no fim dos anos 90. Inicialmente centrada no antirracismo e na crítica a Jean-Marie Le Pen. Essa imagem vai mudar radicalmente poucos anos depois.

Ao ver recusado o financiamento de um filme sobre a escravatura, por parte do Centre National du Cinéma et de l'Image Animée (CNC), denuncia uma diferença de tratamento em relação à memória do Holocausto. Começa então uma série de ataques sistemáticos, cada vez mais ferozes, dirigidos aos judeus.

As acusações de antissemitismo irão valer-lhe a simpatia de Le Pen, que apadrinhou a filha de Dieudonné em 2008.

O alegado antissemitismo de Diedonné valeu-lhe vários processos.

Processos anteriores

■*16 de fevereiro de 2007 : injúrias raciais contra os judeus*

Numa entrevista à revista Lyon Capitale em 2002, Dieudonné, que prevê apresentar-se como candidato às presidenciais, diz que os judeus são "uma seita" e "uma fraude. “ Absolvido em primeira instância, acaba condenado num segundo julgamento.

■*15 de novembro de 2007 : Multa de 5000 euros por incitamento ao ódio racial*

Numa nova entrevista, desta vez ao “Journal du Dimanche”, compara os judeus aos negreiros, depois de incidentes com militantes da União de Estudantes Judeus de França (UEJF) antes de um espetáculo em Lyon.

■*26 de junho de 2008* : Multa de 7000 euros pela “pornografia memorial”*

Foi nestes termos que Dieudonné se referiu à evocação da Shoah, numa conferência de imprensa dada em Argel em 2005.

■*17 de março de 2011* : 10.000 euros por injúrias racistas

Num espetáculo dado em dezembro de 2008 no Zénith de Paris, atribui um “prémio” ao historiador negacionista Robert Faurisson, entregue por um ator vestido de prisioneiro dos campos de concentração.

■*28 de novembro de 2013 : Multa de 28.000 euros no caso “Shoahnanas”*

Ao apresentar uma versão da canção “Chaud cacao”, de Annie Cordy, faz um trocadilho com a palavra “Shoah”.

■*12 de fevereiro de 2014: Vídeos retirados da Internet*

Após queixa da UEJF, a justiça obriga Dieudonné a retirar passagens de um vídeo que chamou “2014 será o ano da quenelle“ (“quenelle”, nome de um prato lionês, é também o nome do gesto, alegadamente antissemita, que Dieudonné popularizou e se tornou viral nas redes sociais).

Nessas passagens, Dieudonné convidava a o advogado franco-israelita Arno Klarsfeld a debater o tema das câmaras de gás com Robert Faurisson.

Processo em curso

Dieudonné enfrenta um processo por declarações antissemitas contra o jornalista Patrick Cohen, a propósito de quem disse: “Sempre que o oiço falar, lembro-me das câmaras de gás”.

A acusação pede uma multa de 30.000 euros. O veredicto está marcado para o dia 19 de março.

O que diz a lei

Várias vozes se levantaram, acusando a justiça francesa por ter dois pesos e duas medidas, condenado Dieudonné mas não o Charlie Hebdo. Na verdade, os contornos de ambos os casos são bastante diferentes.

Segundo a lei francesa, a liberdade de expressão não permite a difamação, a injúria, o apelo ao ódio ou a apologia de crimes de guerra. A lei de 29 de julho de 1881 é a referência nesta matéria.

Com os alegados insultos ao islão por parte do Charlie Hebdo, não estamos perante injúrias ou insultos dirigidos aos seguidores do Islão, mas sim uma sátira da religião propriamente dita, ou seja, uma blasfémia. Ora, segundo o princípio da laicidade que rege a lei francesa, a blasfémia não constitui crime.