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Ex-conselheiro de Obama vê oportunidade para EUA mudarem de atitude na Síria

As mudanças operadas nos últimos dias no tabuleiro do “jogo” geopolítico que, cada vez mais, parece ser o conflito na Síria, abriram diversas portas

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Ex-conselheiro de Obama vê oportunidade para EUA mudarem de atitude na Síria

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As mudanças operadas nos últimos dias no tabuleiro do “jogo” geopolítico que, cada vez mais, parece ser o conflito na Síria, abriram diversas portas na busca de soluções para os problemas daquela região. Em particular, a intervenção militar russa ao lado do presidente Bashar al-Assad contra alegados “terroristas” e a eventual ofensiva terrestre iraniana contra as milícias da oposição síria ao regime.

Para aprofundar estes últimos desenvolvimentos em torno do conflito sírio, o jornalista da euronews James Franey falou com Vali Nasr, o diretor da Escola Johns Hopkins para Estudos Internacionais Avançados e um reconhecido especialista sobre o Médio Oriente. Analista de relações internacionais, Vali Nasr também trabalhou como conselheiro do Departamento de Estado norte-americano na primeira administração Obama.

Como caracteriza a estratégia de Obama para a Síria? Existe alguma? Dr. Vali Nasr: A administração americana tem-se mostrado muito relutante em assumir um envolvimento direto na Síria. Em especial em termos militares, por receio de dar um passo em falso para uma guerra. Na frente diplomática, os Estados Unidos (EUA) têm-se ficado pelo apelo para que Bashar al-Assad se demita da presidência, mas não têm feito de facto muita força para encontrar uma solução diplomática que possa pôr termo à guerra. Por isso, em termos gerais, parece que os EUA têm posição sobre a Síria, mas não uma estratégia para acabar com a guerra. Como é que as recentes ações da Rússia alteram as coisas no terreno? A Rússia tem assumido um papel muito mais ativo e revelou-se capaz de entrar no vazio deixado pelos Estados Unidos. Mas, mais importante, a ação russa redefiniu, essencialmente, o “jogo” que se faz na Síria e vai também tornar muito mais difícil aos EUA continuar os bombardeamentos contra posições do grupo Estado Islâmico (EI ou, na sigla inglesa, ISIL), com a possibilidade de uma zona de exclusão aérea e outras eventuais medidas que venham a tomar face ao regime de Assad. Porque, agora, todos vão enfrentar os militares russos e essa é uma avaliação muito diferente de qualquer outra que os países e todos os agentes envolvidos na Síria alguma vez tiveram de enfrentar antes. Se fosse chamado hoje pelo Presidente Obama, o que o aconselharia a fazer? Antes, isto era apenas uma guerra de afirmação regional entre o Irão e a Arábia Saudita. Nenhuma das partes tinha abertura para compromissos porque viam o resultado na Síria, basicamente, como um veredicto na competição à parte entre dois estados, no qual um sairia vencedor face ao outro. Agora, tanto para o Irão como para a Arábia Saudita, o jogo mudou. Em especial para os sauditas, que já não estão em confronto com os iranianos. Agora, estão a enfrentar a Rússia. O mesmo se passa com a Turquia, que também entrou em desacordo com o Irão por causa de Assad. Também os turcos já não estão em confronto com o Irão. A Síria, antes, estava num impasse. Não havia um caminho fácil para se avançar pela diplomacia. Todos estavam entrincheirados nas suas posições. A Rússia veio alterar tudo. A questão-chave para o Presidente Obama será, agora, encontrar uma oportunidade para os EUA fazerem o que não podiam fazer antes. O que é que isso pode de facto mudar? Para a Rússia, afinal, o que irá sempre contar é o presidente Assad. É claro que a arma da Rússia nesta luta é Assad. O historial russo está ligado ao apoio a Assad. O interesse estratégico passa por salvar Assad. Mas, no final, como em todos os conflitos, os protagonistas revelam motivações cínicas para justificar as guerras. Para os iranianos, era a sua reputação e a proteção do Hezbollah. Para os sauditas, a possibilidade de derrotar o Irão e humilhá-lo na Síria. Todos, aqui, têm motivações cínicas. Ganhe quem ganhar na Síria, vai sair deste conflito muito mais reforçado de uma maneira ou de outra. Mas, tal como aconteceu nos Balcãs, há vantagens em pôr termo ao conflito. Há um benefício para a Europa porque acabariam com a crise de refugiados. Pode haver também um benefício para os países da região porque continuar a guerra será ainda mais destabilizador.