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Euforia alemã com a receção de refugiados está a esmorecer?

A euforia na atitude e no discurso dos alemães face à chegada incessante de refugiados denota sinais de mudança. Mas essa não é, pelo menos para j�

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Euforia alemã com a receção de refugiados está a esmorecer?

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A euforia na atitude e no discurso dos alemães face à chegada incessante de refugiados denota sinais de mudança. Mas essa não é, pelo menos para já, a posição de Detlef Könitz, um empresário de Coblença.

Inundado pelo espírito solidário já gastou mais de um milhão de euros para criar um campo de refugiados em terrenos próprios e explica a razão: “Percebemos que estas pessoas precisam de ajuda urgente e que temos de contribuir para lhes apresentar um alojamento decente na Alemanha e, em particular, em Coblença.”

Instalou vários contentores totalmente equipados e criou uma pequena aldeia com cem pessoas. Grande parte são sírios, repletos de sonhos em relação ao novo país que os acolheu.

Um alegado documento confidencial do Governo alemão deixa antever uma revisão em alta das chegadas. As autoridades alemãs falam agora na possibilidade de 1,5 milhões de refugiados entrarem no país até ao final do ano.

De acordo com uma sondagem recente 51% dos alemães dizem “ter medo dos refugiados.” Os habitantes de Coblença juram não ter problemas com os recém chegados, mas na prática parece não ser bem assim.

“Quando ouço os números, o que ainda está para vir, a nível nacional, coloco-me imensas questões. Muitas pessoas com quem falo estão um pouco assustadas”, desabafa Gisella Hartel, responsável por um jardim de infância local.

Em Estrasburgo, o Comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa comentou a crise migratória, em entrevista exclusiva à Euronews, numa altura em que a organização lançou um relatório sobre a Alemanha e requerentes de asilo.

Sándor Zsíros, euronews – Quais são as principais conclusões do relatório sobre a situação dos refugiados na Alemanha?

Nils Muižnieks, Comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa – A Alemanha está a fazer um trabalho notável ao receber um grande número de refugiados e requerentes de asilo. Alertei para o facto de que os alemães precisam de investir mais para que possam acelerar o processo de candidaturas. Precisam de investir em mais recursos humanos, não só para processar dados, mas também para os centros de receção, de forma a promover o acesso à formação linguística o mais rápido possível. Além disso, têm de pensar a longo prazo porque a sociedade alemã está a diversificar-se. Mas existe uma repercussão, uma pequena minoria violenta, mesmo apesar da atmosfera de acolhimento. Também é preciso um investimento estratégico para promover a tolerância e a vida em conjunto no futuro.

euronews – Neste momento encontram-se na Alemanha milhares de refugiados. Considera que há uma mudança de atitude em relação a estas pessoas?

Nils Muižnieks – O clima político parece estar a mudar. Alguns partidos políticos estão a criticar Angela Merkel e o governo, o que pode, claro, enviar um sinal para a franja crítica da sociedade. Mas há um número esmagador de pessoas que se mostram dispostas a acolher. Vi muitos gestos de solidariedade, voluntários a trabalhar, a oferecerem roupas, alimentos, medicamentos. Foi animador. Para os alemães, a mensagem chave é a de que devem dar o exemplo, mas ao mesmo tempo devem liderar o processo de reforma do sistema europeu de migração e asilo.

euronews – Acredita que esta pressão migratória vai despoletar uma vaga de crimes de ódio na Alemanha?

Nils Muižnieks – Sim. Assistimos a um aumento dos crimes de ódio. O número de ataques, de incêndios provocados por mão criminosa, mais do que duplicou desde o ano passado. Por isso, há claramente uma mobilização, as pessoas estão a agir com base no ódio. Ouvi dizer que o Governo assumiu uma postura muito forte contra o discurso do ódio, em particular na Internet. Envolveu o Facebook, Twitter, Youtube e outras plataformas para combater mais rapidamente material de índole racista.

euronews – Ao olharmos para a Alemanha e o resto da Europa, em particular do centro e do leste, quão grande é a diferença? De que forma é que a União Europeia deveria atuar?

Nils Muižnieks – O problema é que a Europa está a agir de forma descoordenada, fragmentada. Alguns países estão a agir relativamente bem, são acolhedores, ao contrário de outros. A questão é que este é um problema europeu. Não pode ser abordado efetivamente a nível nacional. Aguardo por uma resposta europeia que ainda não chegou. Espero que os alemães assumam a liderança e exerçam pressão para uma política europeia nesta matéria.

euronews – Qual pode ser o papel de França?

Nils Muižnieks – França também é importante. Sabemos que, se a Alemanha e França se unirem e quiserem tornar algo prioritário, as coisas poderão mudar.