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Molenbeek, o bairro que está nas bocas do mundo pelos piores motivos

O bairro belga de Molenbeek poderá até ser, por estes dias, um dos lugares mais seguros da Bélgica, atendendo ao forte dispositivo policial na zona

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Molenbeek, o bairro que está nas bocas do mundo pelos piores motivos

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O bairro belga de Molenbeek poderá até ser, por estes dias, um dos lugares mais seguros da Bélgica, atendendo ao forte dispositivo policial na zona, mas para muitos dos que aqui que se encontram converteu-se no pior local para morar.

Apelidado de “ninho de terroristas”, este gueto está nas bocas do mundo e passou a atrair muitos curiosos pelos piores motivos.

Os habitantes de Molenbeek dizem que querem viver em paz. Sublinham que não podem ser responsabilizados pelas ações dos terroristas que aqui viveram, sem que se pudesse suspeitar que estavam a preparar atentados, e condenam, de forma contundente, os ataques em Paris.

Responsável pelo centro médico “Medicina para o Povo”, Patricia Polanco dá conta de uma mudança clara na atitude dos utentes: “Há muito medo. Especialmente entre os pais. Questionam-se sobre o que vai acontecer aos filhos depois disto. São imigrantes do Magrebe e queixam-se que são todos colocados no mesmo saco. As pessoas olham para eles nas ruas, de forma diferente. É isso que também percebem por parte dos meios de comunicação social.”

Molenbeek localiza-se a poucos quilómetros do centro de Bruxelas. A atmosfera pesada que paira sobre o bairro parece tornar-se mais suave assim que se abandona o local.

Numa altura em que a palavra radicalização domina o léxico mundial, em entrevista exclusiva à Euronews, o Imã da Grande Mesquita de Bruxelas, Mohamed Galaye Ndiaye, alertou para os perigos dessa mesma radicalização quando aplicada ao discurso relacionado com o Islão.

Charles Salamé, euronews – Como comenta e que mensagem gostaria de deixar a propósito dos últimos acontecimentos ocorridos em Paris?

Mohamed Galaye Ndiaye, Imã da Grande Mesquita de Bruxelas – Recebemos este acontecimento com um grande sentimento de choque. É uma dupla tristeza, para o povo francês e para o conjunto de França, país ao qual apresentamos as nossas sinceras condolências. Também é triste para o Islão que está agora no banco dos réus. Sempre que se verificam atentados deste tipo somos confrontados e questionados sobre o que pensamos, sobre as nossas posições em relação aos acontecimentos. Estamos sempre prontos para condenar, e condenamos, mas o que é que se fez, efetivamente, no terreno para erradicar este fenómeno que chamamos de terrorismo? Quem é o inimigo do ser humano atualmente?

euronews – O que é que faz para combater esta vaga de radicalização?

MN – Atualmente aponta-se o dedo, principalmente, ao bairro belga de Molenbeek. Se analisarmos os factos vamos aperceber-nos que estes jovens radicalizados são as primeiras vítimas. Porquê? Porque neste tipo de bairro desfavorecido, como nos subúrbios franceses, encontramos jovens com insucesso escolar, que convivem com a delinquência, que são confrontados com a perda do emprego ou com a inexistência total de emprego, que vêm de famílias em que os pais estão divorciados. Encontram-se em situações catastróficas. Os que procuram recrutar pessoas para este tipo de atentados ou para fazer mal, encontrarão nestas pessoas, seguramente, presas.

euronews – O insucesso escolar, a pobreza, existem em todo o lado, em todas as culturas e religiões. Porquê esta radicalização na base do Islão?

MN – Não é na base do Islão. São as pessoas que fazem o Islão, que agem em nome do Islão, com fins políticos ou outros fins, e, por vezes, por ódio contra o Ocidente. É preciso, também, analisar. Existe um descontentamento em relação ao que se passa no mundo árabe, no Iraque, e em lugares como a Palestina. Por vezes, as pessoas estabelecem ligações e agem em nome do Islão.

euronews – Está contra ou é a favor da deportação de Imãs radicais?

MN – Esse é o trabalho do Estado. O problema é a palavra radicalização, um tema polémico na atualidade. Como é que podemos definir uma pessoa que é radical? Será que se pode dizer que uma pessoa que tem barba é um radical? É preciso falar sobre o que chamamos atualmente de jihadismo violento. Os que atuam de forma violenta, que têm ódio contra o Ocidente e contra o ser humano. São essas pessoas que consideramos radicais. Não é só porque se usa uma túnica longa e barba, ou porque se frequenta a mesquita que uma pessoa é radical.