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Que mudanças climáticas concretas podemos observar em 2015?

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Que mudanças climáticas concretas podemos observar em 2015?

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Já todos ouvimos falar de alterações climáticas. Mas o que está realmente a acontecer neste preciso momento? Os satélites dão-nos algumas respostas.

A maior cadeia montanhosa da Europa assistiu, neste mês de novembro, à primeira queda de neve à medida que se aproxima o inverno. É aqui, a 3200 metros de altitude, no glaciar Les Deux Alpes, que o cientista Jean-Pierre Dedieu, da Universidade de Grenoble, faz um longo caminho para efetuar estudos que medem a amplitude das alterações climáticas que o nosso planeta está a viver. “As alterações climáticas nos Alpes são uma sentença sem recurso. Há uma verdadeira fratura em relação às condições que podíamos observar há apenas vinte anos. Os glaciares estão a ficar mais pequenos, em termos de superfície, de volume. Portanto, é preciso um acompanhamento regular da situação por parte dos satélites, que podem completar as informações recolhidas a partir do solo, que são pontuais”, declara.

Point of view

O problema é que as alterações sucedem-se num período de tempo muito reduzido, à escala do tempo médio de vida de uma pessoa.

A evolução das imagens de satélite entre 1985 e 2015 revela a diminuição drástica dos glaciares. O grande motivo por detrás disto são os gases de efeito de estufa. Em 2015, os níveis de CO2 atingiram um patamar que se estima ser o mais elevado desde há 3 milhões de anos.

Jean-Pierre Dedieu explica o seu método: “Este é um perfurador que serve para medir e calcular a quantidade equivalente de neve em água. Eu recolho os parâmetros básicos da neve. Já temos a temperatura, a densidade. Agora vamos explorar as primeiras camadas no interior do manto de neve. Menos 3,5… Também analisamos o tamanho dos flocos. As medidas são efetuadas todas as semanas. Tentamos fazê-las ao mesmo tempo que o satélite cobre esta área.”

Há menos queda de neve e as temperaturas no verão são mais elevadas. O que é que isto significa exatamente? “A Terra é um circuito fechado, a água não desaparece no espaço. Ela vai parar a algum lado e de forma muito mais intensa. É por isso que há episódios cada vez mais violentos – tempestades, ciclones -, em partes do mundo onde isso já sucedia, mas não tanto como agora”, afirma Dedieu.

O lançamento de satélites como o Sentinel-1, da Agência Espacial Europeia, permite monitorizar as áreas mais remotas do planeta. Os cientistas podem recorrer aos dados obtidos para apurar o impacto das alterações climáticas em áreas precisas, como os Himalaias. Fanny Brun, glaciologista, salienta que “durante a última década, os glaciares dos Himalaias perderam massa. Os novos satélites têm uma resolução muito mais precisa. Não só podemos ir fazendo novos balanços relativamente à massa dos glaciares, como podemos observar onde estes se tornam mais estreitos ou mais espessos. É muito interessante porque conseguimos compreender o processo inerente.”

Há dezenas de satélites de observação em órbita. Têm como missão medir a humidade dos solos, por exemplo, as áreas de deflorestação, os gases atmosféricos, a espessura das camadas de gelo, a salinidade do oceano. A partir de 1993, começaram a analisar a subida do nível do mar. Os dados apontam para um avanço médio das águas na ordem dos 3,3 milímetros por ano. Um fenómeno acompanhado muito de perto pela especialista Anny Cazenave. “O mar continua a subir e os satélites constatam-no regularmente. A nossa estimativa de 3,3 milímetros por ano é bastante rigorosa. No Mediterrâneo, sobretudo aqui em Collioure, no sul de França, a subida das águas corresponde precisamente à subida média”, aponta.

Três fatores contribuem para a progressão: 10% diz respeito à quantidade de águas subterrâneas extraídas para irrigação; 30%, à expansão do próprio volume da água, provocada pelo aquecimento global; e 60% vem diretamente dos glaciares e da diminuição das calotas polares.

A evolução da tecnologia espacial transformou a sistematização de parâmetros, sem os quais não teríamos a mesma noção das alterações climáticas. Em que ponto nos encontramos neste preciso momento? “Estamos em 2015, temos de fazer face às nossas responsabilidades, que são muito flagrantes. Os cientistas estão a fazer um diagnóstico o mais realista possível, como um médico que trata dum paciente. As mudanças climáticas sempre existiram, desde o princípio do mundo. O problema é que, neste momento, as alterações estão a suceder-se num período de tempo muito reduzido, à escala do tempo médio de vida de uma pessoa”, diz Jean-Pierre Dedieu.