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Depois do ouro negro, Angola vira-se para o "ouro verde"

O setor agrícola angolano foi radicalmente afetado por décadas de guerra civil. Aquele que se tornou no segundo maior produtor africano de petróleo procura agora de novo diversificar a sua economia.

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Depois do ouro negro, Angola vira-se para o "ouro verde"

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Há quem afirme que os cachos de bananas representam agora o ‘ouro verde’ de Angola. A queda do preço do petróleo atingiu particularmente um país que é o segundo maior produtor africano. A resposta passa por diversificar a economia e, na linha da frente, está precisamente a agricultura.

Point of view

Os volumes de venda de banana só do Perímetro Irrigado de Caxito representam cerca de 100 milhões de dólares por ano.

E como se vai processar essa diversificação num território que tem o dobro do tamanho da França? A prioridade é investir nos mais de 58 milhões de hectares de terrenos irrigáveis que existem. Fomos conhecer um exemplo no Caxito, província do Bengo. Trata-se de uma produção hortofrutícula, com mais de 4600 hectares, que contribui fortemente para as cerca de 250 mil toneladas de bananas, por exemplo, que são produzidas no país. Não só está garantida a autossuficiência, como Angola se tornou num exportador deste fruto.

“Consideramos a banana como sendo o nosso ‘ouro verde’. Tão somente pelo valor comercial que tem, pelo seu valor nutricional e pela alta renda que proporciona às famílias. A banana, de facto, contribui em grande medida para a diversificação da economia. Posso citar aqui um grande exemplo: hoje os volumes de venda de banana só do Perímetro Irrigado do Caxito representam cerca de 100 milhões de dólares por ano. E hoje o projeto pauta-se pela exportação da banana na África subsariana, com destaque para o Congo Democrático, para o qual no mês de outubro já conseguimos exportar cerca de 10 toneladas de produção”, declara João Mpilamosi, presidente da Caxito Rega.

Os incentivos do governo ao setor agrícola passam por desenvolver as formações, o microcrédito e o financiamento direto de projetos de irrigação. Muitos pequenos agricultores continuam a fazer todo o trabalho segundo os métodos tradicionais.

O investimento público tem focalizado os sistemas de transporte e distribuição, de forma a agilizar o escoamento dos produtos locais e tornar a venda a retalho mais acessível, num país onde grande parte da população vive com menos de dois dólares por dia. João Pedro Santos, diretor geral da rede de hipermercados Kero, salienta o seguinte: “Trinta e cinco por cento daquilo que são as nossas vendas são referentes àquilo que é produzido em Angola. Já existem alguns produtores nacionais que estão a fazer as suas produções não só para o mercado local, mas também para o mercado internacional. Nomeadamente já há exportações claras para o mercado africano dentro da região e existem indicadores claros – que são mensalmente ou semestralmente avaliados – para que rapidamente Angola também possa ser um país que exporte não só para África, mas também para alguns países de outros continentes, do mundo.”

O objetivo é fazer corresponder os padrões de produção aos critérios internacionais, nomeadamente a nível sanitário. A Refriango – uma empresa de refrigerantes, sumos e bebidas – propõe-se fazer precisamente isso. Emprega quase 4 mil pessoas e assume uma liderança clara no mercado lusófono no continente africano. “Os nossos níveis em termos de qualidade ajudam, porque os certificados que nós temos, digamos… Fomos a primeira indústria alimentar, conseguimos o certificado ISO 22000. Os laboratórios têm trabalhado bastante. Daí a certificação destes laboratórios com os certificados internacionais”, aponta o diretor executivo, Estevão Daniel.

Cerca de 11 milhões de ovos importados foram recentemente inviabilizados porque não respeitavam as novas disposições sanitárias. Há agora quotas de mercado para 27 produtos diferentes, de forma a estimular a produção nacional. Elizabete Dias dos Santos, administradora do Grupo Diside, salienta que “é nossa responsabilidade antes de produtores sermos consumidores. A nossa preocupação é que estamos a lidar com a saúde pública. Enquanto consumidores e produtores, temos que ter a responsabilidade de informar os nossos consumidores de que o que é feito em Angola tem qualidade, tem validade e tem credibilidade.”

O desenvolvimento económico conhece vulnerabilidades ao nível logístico, da rede de transportes e da organização dos fornecedores. São questões que tornam a dinâmica da indústria local mais complexa. O potencial natural deste país é tão diverso quanto os desafios que enfrenta. Até que ponto Angola, uma economia iminentemente assente na produção petrolífera, vai conseguir reinventar-se?