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Irá a União Europeia sobreviver?

Última edição do "The Network": A crise de migrantes, o colapso do Espaço Schengen e a ameaça de Brexit e Grexit. Irá a União Europeia sobreviver?

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Irá a União Europeia sobreviver?

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Em quase 60 anos de história, há quem considere que a União Europeia enfrenta a pior crise de sempre. Conseguirá sobreviver à ameaça de Brexit e ao perigo contínuo de Grexit? Conseguirá sobreviver à crise de migrantes e ao terrorismo que ameaçam o espaço Schengen e ampliam as diferenças entre os valores europeus? Para agravar, a lenta recuperação económica e a elevada taxa de desemprego têm impulsionado movimentos populistas. Os eleitores questionam a eficácia dos partidos tradicionais. Será que os europeus tomaram por garantidas as conquistas da União Europeia? Ou sentir-se-ão melhores se recuperarem a soberania nacional?

Os nossos convidados no Parlamento Europeu, em Bruxelas, foram: Birgit Sippel#, do grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas, ou S&D, e coordenadora das Liberdades Cívicas, da Justiça e dos Assuntos Internos; William Dartmouth, vice-presidente do partido da Independência do Reino Unido, ou UKIP (na sigla em inglês); e Sophie In’t Veld, deputada holandesa do Parlamento Europeu e vice-presidente da Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa, ou ALDE.

euronews: A primeira questão é dirigida a todos. Será, esta, a tempestade que vai dividir a União Europeia?

Birgit Sippel: Em primeiro lugar, não diria que seja uma tempestade. É um desafio enorme. O segundo [desafio], depois da crise financeira. O importante é que estamos a encontrar soluções comuns para esta situação. Se não chegarmos a um consenso, tenho a certeza de que isto terá efeitos negativos para todos os cidadãos nas diferentes áreas políticas.

euronews: Está a dizer ‘se’ e isso não é suficiente como resposta. William?

William Dartmouth: Não é suficiente, porque a União Europeia tem procurado impor às pessoas e aos Estados-nação da Europa um super-Estado federal europeu, sem a aprovação popular. Gostaria de apontar dois exemplos importantes, rapidamente: a imposição do euro e o facto de que a Grécia não consegue existir na mesma zona monetária que a Alemanha.

euronews: Sophie, é igualmente pessimista ou, devo dizer, cética quanto à sobrevivência da União Europeia?

Sophie In’t Veld: Sou otimista. Se analisarmos o nosso percurso até aqui, concluímos que decidimos escolher um destino comum depois de duas guerras mundiais devastadoras e depois de 45 anos de ditadura comunista. Nós, europeus, fomos capazes de permanecer unidos. E se foi possível antes, também é possível agora.

euronews: É precisamente isso. Muitas pessoas não têm idade para se lembrarem dessas guerras.

William Dartmouth: Posso intervir? Tivemos paz na Europa graças à Nato. A comunidade europeia do ‘Carvão e do Aço’ não começou antes de 1956. Este é o tipo de argumento fraco que temos ouvido em Inglaterra durante anos e do qual as pessoas estão cansadas. É por isso que vamos votar para sair da União Europeia.

euronews: Se a União Europeia se dividir, poderemos assistir a conflitos entre regiões onde existem tensões étnicas? Na Europa Oriental, por exemplo.

Birgit Sippel: Antes de mais, acredito que os jovens sabem o que é viver em paz. Têm consciência de que na vizinhança da Europa há muitas guerras. Percebem que estão felizes porque existe paz na Europa. A paz existe não graças à Nato, mas porque têm a Europa, porque os Estados-membros se coordenam. Uma Europa unida é a única forma de encontrar soluções para os verdadeiros desafios no mundo.

euronews: Sophie, o que diz deste pesadelo onde as exigências de diferentes grupos étnicos provocam conflitos na Europa Central e Oriental. Será possível uma repetição do que sucedeu na Ucrânia?

Sophie In’t Veld: Não se trata da Nato ou da União Europeia. Trata-se dos grandes desafios no mundo do século XXI. Repare na economia global, na internet, nos conflitos na Síria, na Líbia e no Médio Oriente. Repare nas mudanças climáticas, na questão dos refugiados, no terrorismo. É uma ilusão achar que uma Europa dividida consiga dar uma resposta adequada a estes desafios. Juntos somos muito mais fortes e estamos mais seguros.

William Dartmouth: Podemos certamente responder a esses desafios através das Nações Unidas, do G8, do G20 e através de um número vasto de organizações internacionais. Não é preciso existir um super-Estado europeu.

euronews: E se a União Europeia deixar de negociar acordos de comércio livre? O que acontece? Algumas pessoas não querem isso…

William Dartmouth: É muito mais difícil negociar um acordo de comércio livre entre os 28 Εstados-nação do que só com um. É, por isso, que, por exemplo, a Suíça tem um acordo de comércio livre com a China, a Austrália tem um acordo de comércio livre com a China, a Nova Zelândia tem um acordo de comércio livre com a China, a Islândia tem um acordo de comércio livre com a China…e a União Europeia não tem.

euronews: Birgit, quão preocupada ficaria se a União Europeia acabasse? A Europa ficaria dividida e seria conquistada por forças maiores?

Birgit Sippel: Não. Tenho uma opinião totalmente contrária à do meu vizinho porque precisamos da União Europeia. Na aldeia global precisamos de encontrar respostas globais. Um único Estado-membro não consegue lidar com todos os desafios. Precisamos de respostas europeias. Só depois de as encontrarmos é que podemos pedir aos outros para assumirem as suas responsabilidades.

euronews: Sophie, se a União Europeia acabar também acaba o euro. Não receia uma desvalorização monetária, como acontecia antes da criação do euro?

Sophie In’t Veld: É evidente que estamos muito melhor numa União Europeia forte, capaz de enfrentar os desafios. Isso inclui uma moeda comum. Mas, quero dizer ao meu colega: ‘se acha que o povo britânico está melhor com os seus interesses representados nas Nações Unidas, onde existem outros estados como a Rússia, por exemplo, tem todo o direito de dizê-lo’. Eu julgo que os britânicos estão melhor fazendo parte da União Europeia”.

William Dartmouth: Menos de 10 por cento dos deputados do Parlamento Europeu são do Reino Unido. Desde 1996 até novembro do ano passado tínhamos apenas 8,24 por cento dos votos no Conselho da União Europeia, segundo os arquivos… Lamento dizer-lhe, mas estes números são factos e está a tentar dizer que não são verdade. Nos arquivos, desde 1996, mesmo sob o governo de Blair, Londres tentou bloquear propostas 72 vezes e falhou em todas as ocasiões. A verdade é que nos estão a tentar impor coisas que não gostamos e estamos saturados.

Sophie In’t Veld: É engraçado…o facto de continuar a gritar só prova o que eu tentava explicar. Julga que ter poder significa bloquear coisas. A Grã-Bretanha tem sido incrivelmente influente na União Europeia. E não é por tentar bloquear coisas mas porque tem boas ideias, porque foi capaz de encontrar aliados para as suas ideias, porque conseguiu maiorias. A Grã-Bretanha tem tido influência por estes motivos. Acha que pode alcançar tudo o que quer? Não. Isto é uma democracia e nem sempre se consegue o que se quer.

Birgit Sippel: Gostaria de sublinhar que na União Europeia não é um, ou outro, Estado-membro quem determina o que deve acontecer. É uma questão de democracia. Temos de cooperar. Temos de olhar para a situação no nosso próprio Estado-membro, mas é também importante compreender qual é a melhor solução para todos os Estados-membros, sem deixar nenhum para trás. Temos de melhorar a situação para os 500 milhões de cidadãos da Europa. Se a Europa se dividir, julgo que a consequência será a concorrência entre todos os Estados-membros – não no bom sentido, mas no sentido de acabar com os padrões que temos.

euronews: Numa resposta curta. Como podemos prevenir ou acelerar a dissolução da União Europeia? Sophie?

Sophie In’t Veld: Julgo que o que está a acelerar a divisão da União Europeia é a paralisação total no Conselho onde os chefes do Governo se reúnem. Devem, finalmente, tomar decisões e atuar no que respeita ao terrorismo, aos refugiados, à economia e ao comércio livre, às mudanças climáticas… Esta é melhor forma de a Europa avançar, se tornar mais forte e enfrentar os desafios atuais.

William Dartmouth: Deve voltar ao que as pessoas achavam ser o plano inicial. Em duas palavras, um mercado comum.

Birgit Sippel: A ideia inicial era criar boas condições de vida para todos os cidadãos da União Europeia. O que devemos fazer agora é afastarmo-nos de posições extremistas. É preciso pensar friamente e juntos procurar soluções reais na vida real.