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Advogado de Erdogan quer punição alemã para poema a satirizar Presidente da Turquia

Programa satírico de Jan Böhmermann foi suspenso na ZDF quase 30 anos depois de "Humor de Perdição" ter sido igualmente suspenso na RTP por alegadamente satirizar figuras históricas portuguesas.

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Advogado de Erdogan quer punição alemã para poema a satirizar Presidente da Turquia

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Programa satírico de Jan Böhmermann foi suspenso na ZDF quase 30 anos depois de “Humor de Perdição” ter sido igualmente interrompido na RTP por alegadamente satirizar figuras históricas portuguesas.

A presente polémica na Alemanha entre o humorista Jan Böhmermann e o presidente da Turquia está entregue aos tribunais e o advogado alemão de Recep Tayyp Erdogan espera que a justiça germânica faça do comendiante um exemplo para evitar outros casos similares.

Em causa está um poema lido durante a emissão do programa NeoMagazin, no final de março, em que Böhmermann relaciona Erdogan, por exemplo, com zoofilia e pedofilia.

(O que têm a dizer os satiristas turcos sobre o caso Böhmermann.)

Este caso, traz-nos à memória também outros conflitos onde o poder político interveio na censura de obras artísticas. Em Portugal, por exemplo, é conhecido o cancelamento pela RTP da série “Humor de Perdição”, de Herman José.

Aconteceu em 1988 e terá tido por base as entrevistas ficcionadas pelo humorista a figuras históricas de Portugal e que não terá caído em graça ao então governo de Cavaco Silva, embora o Presidente da República na altura, o socialista Mário Soares, até tenha visitado e convivido em clima de boa disposição com a equipa do programa.

Mais recentemente, em França, o jornal satírico Charlie Hebdo, conhecido por não poupar nada nem ninguém nos seus artigos humorísticos, acabou por ser atacado em janeiro do ano passado pelo grupo terrorista autoproclamado Estado Islâmico por uma capa em que satirizou Maomé. Foi, aliás, o primeiro de uma série de trágicos atentados ocorridos em França em 2015.

Agora, na Alemanha, a polémica entre Böhmermann e Erdogan está a ameaçar tornar-se num conflito diplomático. O Presidente turco interpôs uma queixa na justiça alemã contra o humorista. A chanceler Angela Merkel admite ter considerado ofensivo o poema de Böhmermann, mas sublinhou a liberdade de expressão vigente na Alemanha.

O advogado alemão de Erdogan admite que “o humorista não vai certamente receber uma punição severa, mas está seguro de que Böhmermann será de alguma forma punido”. “Até para meter o humorista na linha, continuando a fazer sátiras, mas sem cair no insulto grosseiro”, alegou Michael-Hubertus von Sprenger.

(Böhmermann: “Numa sociedade livre, poemas satíricos têm de ser possíveis.
Esse é o preço que pagamos pela liberdade.”
)

A estação de televisão alemã ZDF, responsável pela emissão do programa NeoMagazin onde Böhmermann leu o poema da controvérsia, foi à cidade de Bremen ouvir anónimos de diversas origens sobre esta polémica.

“A Alemanha é a Alemanha. Somos multiculturais. No entanto, aqui toda a gente tem direito a dizer o que pensa, seja o que for”, referiu um dos entrevistados. Uma mulher, usando um véu islâmico, alega que “não se deve dar grande importância ao caso”: “É claro que para muitos este é um insulto racista, mas devíamos ignorá-lo.”

Um outro entrevistado, assumiu ser “dos que dizem claramente que à sátira não se deve permitir tudo”, mas salientou que “agora cabe aos tribunais ajuizar e ao Estado de Direito cabe decidir os limites da sátira.”

A sátira da sátira

No controverso poema lido no final de março por Jan Böhmermann, no programa NeoMagazin, da ZDF. A gravação do programa foi retirada da emissão televisiva e das respetivas plataformas digitais da estação alemã. O programa foi igualmente suspenso e o humorista está sob proteção policial.

Aproveitando o mediatismo do caso, Kei Diekmann, um jornalista do tabloide Bild, aproveitou o silêncio de Jan Böhmermann desde que o poema chegou à justiça e inventou uma entrevista exclusiva com o humorista, promovendo no Facebook, pouco antes das 09h da manhã (menos uma hgora em Lisboa) o que seria o cabeçalho dessa entrevista, com o comediante a recusar-se a pedir desculpa pelo ocorrido.

Houve quem acreditasse que a entrevista era verdadeira. Cerca de duas horas depois da publicação original, o jornalista confirmou o embuste e perto do meio-dia reforçou o esclarecimento, escrevendo “sátira da sátira…” (em baixo).