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"Chamar-lhes drogas legais é um erro enorme"

Em que ponto se encontra o combate contra as chamadas “drogas legais” na Europa? O fenómeno já data de alguns anos. Perante a abertura massiva de

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"Chamar-lhes drogas legais é um erro enorme"

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Em que ponto se encontra o combate contra as chamadas “drogas legais” na Europa? O fenómeno já data de alguns anos. Perante a abertura massiva de lojas especializadas, onde estas substâncias são vendidas livremente, alguns países tomaram medidas. Portugal e Irlanda são dois deles. Mas as vendas desviam-se para a internet.

Há cerca de um ano, Adam Owens foi encontrado morto nos arredores de Belfast, depois de consumir substâncias psicoativas que, nos últimos anos, se tornaram conhecidas como “drogas legais”. Neste, como noutros casos, o consumo foi fatal.

“A primeira vez que me apercebi foi um ano e meio antes da sua morte. Descobri um pacote no quarto dele, debaixo da almofada. E vi restos de vómito na cama e no chão. Era um vómito muito escuro. Fiquei muito perturbada e senti-me devastada ao perceber que o meu filho estava a usar este tipo de drogas. Eu não fazia a mínima ideia.” É o relato da mãe de Adam, Adele Wallace.

Para ela, o facto de viverem na Irlanda do Norte facilitou muito as coisas para Adam, uma vez que no Reino Unido este tipo de substâncias ainda é legal. Podem ser compradas em lojas específicas, na rua e, sobretudo, na internet.

“Eu fiz a experiência de colocar 1,5 grama de açúcar num saco. Como podem ver, parece uma quantidade minúscula. Fiz isto para mostrar às crianças nas escolas que uma pequena quantidade como esta de droga legal, partilhada entre o Adam e duas outras pessoas, foi suficientemente tóxica para matar o meu filho de 17 anos”, afirma Adele.

No ano passado, houve 115 mortes no Reino Unido devido ao uso destas substâncias sintéticas que imitam os efeitos da cocaína, heroína, ectasy, canábis, entre outros. Os alertas resultam em listas de produtos proibidos, mas há novas fórmulas que “fintam” a lei. Isto apesar de todas as coloridas embalagens dizerem expressamente: “Não é para consumo humano”.

Stephen Bell, especialista da Queen’s University de Belfast, criou um novo método para identificar rapidamente os compostos químicos das substâncias utilizadas.

“Desenvolvemos um método que consiste basicamente em tentar identificar as frequências de vibração das ligações químicas. A composição específica de cada elemento faz com que tenha uma vibração diferente. É como se fosse uma impressão digital química. Isso permite-nos detetar muito rapidamente as substâncias que ainda não conhecemos, que acabaram de chegar ao mercado e que são potencialmente perigosas. Chamar-lhes ‘drogas legais’ é um erro enorme, porque os riscos são gigantescos. Em primeiro lugar, não são legais – muitos dos compostos são substâncias proibidas. E nunca foram testados em ninguém. O que se está a fazer é uma experiência em massa. Estão a fornecer produtos aos jovens sem saberem se lhes vai fazer mal”, considera.

O governo britânico aprovou uma nova lei que proíbe a venda destas substâncias psicoativas a partir de maio. A venda passa a ser punível com penas de prisão até sete anos. Em Portugal, por exemplo, o governo interveio em 2013. A Irlanda antecipou-se em três anos.

Martin McHugh consumia tanto as drogas ilegais, como as denominadas “legais”: “Comecei a usar drogas legais quando abriram as lojas no centro da cidade. Depois quando as fecharam, continuei a arranjá-las. Vendiam-se nas ruas. Chegavam pela internet ou através do Reino Unido. A minha experiência pessoal foi ter sintomas de paranóia aguda, ficava aterrorizado. Aquilo durava de 36 a 72 horas. Não adiantava tomar um calmante.”

Tim Bingham tem estudado as repercussões da interdição na Irlanda em termos de consumo de drogas. Salienta que o encerramento das lojas canalizou a oferta e a procura para a internet. Fizemos uma procura online, guiados por Tim: “Aqui temos os incensos que se fumam como a canábis. O preço de venda é de 7,95 libras. Há embalagens diferentes: um grama, três gramas, seis gramas. Posso comprar dois pacotes. Não tenho de me registar, nem nada. Posso fazer a aquisição anonimamente e, no dia seguinte, chega a casa. Os produtos podem ser comprados na internet porque os servidores não se situam na Irlanda. A venda não é ilegal nos sítios onde os serviços estão sedeados. Sabemos que estas substâncias continuam a ser vendidas porque, no ano passado, fizemos uma sondagem entre estudantes e descobrimos que 19% deles compram-nas eles próprios ou através de amigos.”

É mais barata, é supostamente legal e vem em embalagens atraentes – em Monaghan, junto à Irlanda do Norte, a canábis sintética tornou-se na droga mais popular entre os adolescentes.

Packie Kelly trabalha num centro de apoio social. Considera que a interdição não evita realmente que estas substâncias cheguem ao mercado. “Estamos sempre a recolher as embalagens que vamos encontrando. Há muitas variedades diferentes. Esta, por exemplo: os consumidores de heroína dizem-nos que preferem mil vezes continuar na heroína do que tocar nisto. A polícia irlandesa já fez várias buscas e detenções por causa destas substâncias, mas até agora ninguém foi acusado de nada. A legislação não está adaptada à realidade”, declara.

Alguns peritos consideram insuficiente o encerramento de lojas especializadas face ao aparecimento de novas substâncias – cerca de uma centena, todos os anos, na Europa.

“Quando me submeti a exames toxicológicos para me darem metadona, os resultados acusavam anfetaminas e cocaína. Só que, na altura, eu não tomava nada disso, só utilizava as drogas legais. Pouco tempo depois, já não detetavam nada. Diziam que esta nova geração de substâncias não aparecia nem no sangue, nem na urina. Mas depois as pessoas começaram a ter efeitos secundários e a ir parar ao hospital. E não lhes podiam fazer nada, porque as análises não acusavam nada”, explica-nos Martin McHugh.

Adele Wallace deixa esta pergunta: “Como é que uma coisa que é tão mortal, que é tão tóxica, que mata crianças, pode ser classificada como legal? E mata adultos também, porque toda a gente está a usar estas drogas. Mas são as crianças que são mais vulneráveis, porque são levadas a achar que é seguro, uma vez que têm o rótulo de ‘legal’. É repugnante.”