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Brasil: Até onde irá Michel Temer

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Brasil: Até onde irá Michel Temer

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Se Dilma Rousseff era contestada por muitos, o novo presidente interino do Brasil, Michel Temer, está longe de ser uma figura consensual.

Quem assistiu à tomada de posse do novo governo, reparou que se trata de um grupo de homens, brancos e de cabelos grisalhos. Pela primeira vez desde a ditadura militar, nenhuma mulher está representada no executivo. É um governo que reúne membros de virtualmente todos os partidos do espetro político brasileiro, à exceção do PT, de Dilma e Lula, e do Partido Comunista (PCdoB).

Vice-Presidente, aliado de Dilma Rousseff até há muito pouco tempo, Temer é citado em casos de corrupção. Vários dos novos ministros são “alvo de investigações na Operação Lava Jato”:
http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/temer-nomeia-alvos-da-lava-jato-para-ministerio/.

Os aliados da presidente deposta já nomearam Temer o novo alvo a abater.

Temos a partir de Paris, Andrei Netto, correspondente em França do jornal brasileiro, “Estadão”.

Maria Barradas, euronews: Andrei, obrigada por estar conosco, aqui na Euronews.
Michel Temer tem condições e legitimidade para assumir o governo?

Andrei Netto:
“No parlamento sim, Michel Temer tem condições de governar porque ele tem uma base de apoio bastante ampla com o PMDB e com o partido da social-democracia brasileira, o PSDB – de centro direita – e tem também algumas legendas, que chamamos legendas “nanicas” – pequenos partidos que prestam apoio ao seu governo. Do outro lado existe uma questão de legitimidade, que é a questão que se põe hoje no Brasil. Neste momento, uma parte importante da sociedade brasileira questiona-se se Michel Temer tem legitimidade para assumir o poder”.

M.B:
A imprensa internacional, nomeadamente, fala de um paradoxo, tendo em conta que Temer é suspeito e é citado em vários processos por corrupção e pode ele próprio vir a sofrer um processo de impeachement. O que é que tem a dizer sobre isto?

A.N:
“Existe, de facto, um processo de impeachement, um pedido de abertura de processo de impeachement, que já corre na câmara dos deputados contra Michel Temer, e é bem verdade também que existem algumas citações a respeito do vice-presidente nas investigações da operação “Lava Jato”, que é uma espécie de versão brasileira da operação “Mãos Limpas”. Michel Temer é uma pessoa que, até ao momento, não foi das mais atingidas dentro do PMDB, o partido centrista que ele representa. Há nomes mais implicados nesses escândalos de corrupção como o ex-presidente da câmara dos deputados, Eduardo Cunha, ou como o presidente do senado, Renan Calheiros e também seis dos ministros que acabam de ingressar no governo, a convite justamente de Michel Temer”

M.B:
Ele tem necessariamente de apresentar resultados convincentes nos próximos seis meses e tem que começar a sanear as contas públicas e a reverter a pior recessão do país nos últimos 30 anos. Há condições com este governo para fazer isto?

A.N:
“Eu diria que, paradoxalmente, esse não é um dos maiores problemas de Michel Temer, porque a economia brasileira esteve a tal ponto parada nos últimos dois anos – o crescimento negativo foi de cerca de 4% no ano passado (2015), durante a gestão de Dilma Rousseff – que a retoma (da) é quase que inevitável. Michel Temer escolheu um ministro da Fazenda, Henrique Meireles, que é um homem tremendamente experiente. Passou com grande sucesso no banco centra,l durante a gestão de Lula da Silva e é um homem habilitado a reequilibrar as contas públicas”.

M.B:
Como é que pensa que os brasileiros vão reagir se eventualmente Michel Temer não começar a ter resultados visíveis muito rapidamente?

A.N:
“Se Michel Temer conseguir reequilibrar as contas públicas, retomar o crescimento, reduzir o desemprego, é possível que nasçam dessas medidas uma espécie de estado de graça ou um apoio popular que legitime Michel Temer. De contrário, tenho as minhas dúvidas se Michel Temer não enfrentará uma grande oposição crescente nas ruas, nos próximos meses. Os próximos seis meses serão cruciais para esta crise política que não acaba agora, que vai continuar no Brasil”.

M.B:
Que consequências é que pensa que esta crise política tem para os compromissos internacionais do Brasil e nomeadamente para os Jogos Olímpicos que se avizinham já.

A.N:
“Talvez haja um pequeno impacto ou até um impacto considerável na atração dos Jogos Olímpicos, porque a imagem do Brasil está arranhada no exterior. Mas o que mais me preocupa não é em relação aos Jogos Olímpicos, é sobre a posição do Brasil em grandes fórums internacionais. Lembremos, por exemplo, que presidentes como Barakl Obama, dos Estados Unidos ou François Hollande, da França, até onde eu sei da parte do Palácio do Eliseu, não cumprimentaram Michel Temer, não entraram em contacto com o vice-presidente, agora na presidência em exercício e isso demonstra uma certa reticência, um “attentisme”, uma política de espera da comunidade internacional para saber quais serão os desdobramentos da crise política no Brasil”.

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