Última hora

Em leitura:

Jamala: "A política não é para mim"

the global conversation

Jamala: "A política não é para mim"

Publicidade

ALL VIEWS

Clique para descobrir

Maria Korenyuk: A Ucrânia ganhou o Festival da Eurovisão da Canção pela segunda vez na história. Em 2004, foi a vez da cantora Ruslana com a canção Danças Selvagens. Este ano coube a Jamala: uma artista de descendência tártara que nasceu na Crimeia.

Korenyuk: Jamala, obrigada pela sua presença e parabéns pela vitória! Começo por lhe perguntar se esperava vencer o festival da Eurovisão e que dificuldades encontrou pelo caminho?

Jamala: “Posso dizer que não foi fácil, isso é certo. Era difícil ganhar, desde logo porque apresentei uma canção pouco comum neste tipo de concurso. A minha música foi considerada desde o início estranha, triste, entre outras coisas. Foi muito difícil apresentar uma canção tão íntima, tão pessoal num concurso com canções mais superficiais.”

Korenyuk : 1944 não é apenas o nome de canção vencedora. É, também, um ano difícil na história de todos os tártaros da Crimeia. Em maio de 1944, José Estaline ordenou a deportação do povo tártaro. Referiu que a música era a história da sua família. De que forma é que a deportação afetou os seus familiares?

Jamala: “Aconteceu na madrugada de 18 de maio, por volta das três da manhã. As tropas do NKVD, Comissariado do Povo para os Assuntos Internos deram-nos 15 minutos para pegarmos nos nossos pertences. A minha bisavó (Nazalkhan) teve cinco filhos: quatro rapazes e uma rapariga. Eles foram colocados num comboio e levados da Crimeia para a Ásia Central. Passaram várias semanas sem comida e sem água. Enquanto estavam no comboio, a minha bisavô perdeu a filha mais pequena. Eu percebi que gostava de escrever sobre tudo isso.”

Korenyuk: “Em 2014, assistimos à anexação da península da Crimeia por parte da Rússia, à opressão e à repressão dos tártaros. Pergunto-lhe se estes acontecimentos refletem, de alguma forma, a sua canção e se a levaram a escrever a música 1944?

Jamala: “Posso dizer que os mais recentes acontecimentos me deixaram triste e, esta é, provavelmente, uma das razões que levou ao aparecimento desta música. No entanto, sempre disse que escrevi especificamente sobre os acontecimentos de 1944, e é por isso que dei à canção o nome que dei.”

Korenyuk: “Jamala, sabemos que os seus pais ainda estão em Crimeia e que fazem parte da comunidade tártara, vítima de repressão. Sabe se a atitude em relação à sua família mudou depois de ter vencido o Festival da Eurovisão e se alguém os felicitou?

Jamala: “Houve muitos elogios, muitos desconhecidos foram a casa deles expressar a sua gratidão e alguns até levaram bolos. Nesse dia, mesmo os residentes da Crimeia que não apoiam a Ucrânia sentiram esta vitória como deles. Talvez não tenha sido por um longo período de tempo, mas viveram-se dias de unidade.”

Korenyuk: “Quem lhe incutiu o amor pela música? Foi a sua família?

Jamala: “Sim, foram os meus pais. Eles são músicos. Meu pai é acordeonista e a minha mãe tocava piano. Era professora de música e ainda ensina alguns alunos. Costumávamos organizar festa de família onde cantávamos músicas ucranianas, gregas, arménias e, também, do Azerbaijão. A música viveu sempre na nossa casa. Havia sempre muita música.”

Korenyuk: Como é que se prepara antes de entrar em palco? Segue algum tipo de um ritual para que a atuação seja bem-sucedida?

Jamala: “Se a pergunta se refere ao tema 1944 foi muito difícil. Tentei imaginar como me senti nesse ano. Mas estamos a falar de um concurso de música e quando antes de entrar em palco há alguém a cantar uma canção intitulada _Soldados do amor, Soldados do amor_não é fácil. Além disso tinha, apenas, três minutos para apresentar a minha música. Eu estava de tal forma focada na minha performance que quando cheguei ao palco tinha os olhos cheios de lágrimas. Fingir a dor sem a sentir, não funciona porque as pessoas não acreditam!”

Korenyuk: Hoje em dia é uma cantora reconhecida dentro e fora da Ucrânia. Sei que se iniciou como atriz e que pode vir a envolver-se em atividades públicas. O chefe de Estado ucraniano, Petro Poroshenko, disse que foi nomeada para Embaixadora da Boa Vontade da UNICEF e tudo indica que venha a ser convidada para integrar partidos políticos. Está preparada para abraçar projetos que não estejam ligados à música?

Jamala: “Não quero isso. Sabe o que eu pensei quando cheguei a casa depois da vitória? Sentei-me e disse: Gostava de escrever um novo álbum, de me esconder numa cave com os meus músicos e de apenas tocar”. Tornar-me política? Não, de maneira alguma! A política não é um lugar de emoções e eu não posso viver sem emoções. É, por isso, que a política não é para mim.”

Korenyuk: Depois de todos os ensaios para o Festival da Eurovisão e da vítória decidiu, em vez de descansar, partir em digressão para apresentar o mais recente álbum. Pergunto-lhe onde vai buscar tanta inspiração e energia?

Jamala: “Para ser honesta, são as pessoas que me inspiram. Quando me receberam no aeroporto de Kiev, chorei de alegria com todos os que estavam presentes. As crianças estavam a chorar, os adultos estavam a chorar e eu também. É algo que não posso descrever. Penso que as pessoas podem tirar energia, mas também a podem dar. É, por isso, que o meu maior prazer e a minha maior inspiração vem das pessoas. Claro, que podia ir de férias. Adoro a água, o mar, os oceanos, os rios e os lagos. Mas agora não tenho tempo para isso e o que quero, mesmo, fazer é cantar. Quero dar às pessoas aquilo que melhor sei fazer.”

ALL VIEWS

Clique para descobrir

Há pontos de vista diferentes para cada história: a Euronews conta com jornalistas do mundo inteiro para oferecer uma perspetiva local num contexto global. Conheça a atualidade tal como as outras línguas do nosso canal a apresentam.

tradução automática

tradução automática

Artigo seguinte