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Os rankings das escolas são realmente válidos?

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Os rankings das escolas são realmente válidos?

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Muitos pais decidem a educação dos filhos com base nos rankings das escolas. Mas até que ponto esta classificação reflete a realidade? E o que fazer com as escolas no fundo da tabela?

Portugal: “O ranking não me preocupa minimamente”

Na maior parte dos casos, os resultados dos exames nacionais são o elemento base dos rankings. Mas muitos criticam um sistema que costuma colocar em destaque as escolas privadas. A nossa primeira reportagem vem de Portugal.

Todas as manhãs, Carla Sousa prepara o pequeno-almoço da filha, Catarina, antes de a levar à mesma escola que frequentou. Apesar de viver agora noutra parte do Porto, Carla escolheu para as suas filhas a Escola Básica e Secundária do Cerco, normalmente no fundo dos rankings.

“A mim não me preocupa minimamente. A mim preocupa-me que as minhas filhas se sintam bem, que tenham sucesso escolar, que sejam trabalhadoras em casa e isso reflete-se na escola. O ranking da escola a mim não me preocupa minimamente”, diz-nos.

Catarina frequenta o 10° ano de Ciências Tecnológicas e estuda música. Diz sentir-se bem na escola situada neste bairro problemático e que o impacto dos rankings não constitui um problema. Mas a motivação dos alunos, sim. “Em geral, há muitos alunos que não estudam, que não se aplicam, mas há alunos que têm boas médias e que conseguem entrar em Medicina ou Engenharia, Direito”, explica.

O diretor deste estabelecimento escolar, Manuel António Oliveira, considera que a falta de motivação está inegavelmente ligada a contextos familiares de pobreza e desemprego. E que os rankings baseados apenas nos resultados dos exames não fazem sentido.

“Nós não podemos, de facto, ignorar os rankings, apesar de estarmos num território educativo de intervenção prioritária, mas também não podemos comparar o que é incomparável. Por exemplo, quando nós falamos de colégios ou de escolas privadas ou do ensino cooperativo é evidente que estamos a falar de coisas radicalmente diferentes, porque selecionam os seus alunos, selecionam os seus professores e o projeto educativo será feito quase à medida”, declara Manuel António Oliveira.

A referência cai diretamente no outro lado do espetro: o Colégio Nossa Senhora do Rosário, também no Porto, ocupa o primeiro lugar da tabela. Mas não é isso que faz a diretora deste estabelecimento privado concordar com os critérios utilizados.

Segundo Maria Teresa Nogueira, “aferir critérios exclusivamente académicos, só por si, digamos que é injusto, porque a pessoa é muito mais do que isso. Comparar critérios académicos entre escolas, entre colégios particulares, etc., é uma comparação que pode ser injusta e estou convencida que é. Na verdade, nós, colégios particulares, dispomos de condições que são favoráveis ao sucesso.”

O Colégio Nossa Senhora do Rosário oferece inúmeras atividades extracurriculares e inclui mesmo um projeto de voluntariado. A noção de privilégio não é alheia aos estudantes: o conceito de investimento no futuro está bem presente.

“Sim, sem dúvida, porque ajuda-me também neste aspeto, a desenvolver como melhor pessoa e tudo isto me vai abrir portas para o meu futuro, portas que já não seriam abertas se estudasse noutro sítio”, afirma Carolina Magalhães Silva, uma das alunas.

Alemanha: Uma revolução dentro de portas

Como transformar uma escola com maus resultados num exemplo académico? Quais são os passos a seguir? Conheça o percurso de uma escola na Alemanha que deu uma reviravolta.

É no bairro de Groupiusstadt, em Berlim, que se situa uma escola famosa a nível nacional pelos motivos errados: violência, professores esgotados, absentismo recorde.

“A prioridade absoluta dos alunos era a vida fora da escola. Os professores só tinham margem para ir reagindo a esse facto. Tinham de lidar com os diferentes grupos que se foram formando no exterior e que entravam em confronto uns com os outros”, recorda o diretor, Reinald Fischer.

Um dia, os pais de Groupiusstadt juntaram-se para organizar uma petição e tentar mudar uma situação insustentável. Foi então que surgiram as seguintes ideias: primeiro, integrar as escolas primária e básica do bairro, criando uma nova estrutura; depois, trazer o apoio de assistentes sociais; e, por fim, repensar a comunicação entre professores e alunos.

O assistente social Guido Beneke salienta que “foi uma reviravolta completa. Esta escola estava à beira de fechar as portas. E, no entanto, conseguiu implementar um novo modelo educativo, onde se fazem experiências inovadoras e onde as pessoas passaram a trabalhar para um objetivo comum.”

Mas a realidade neste bairro continua a ser bastante difícil: mais de 75% dos encarregados de educação diz não ter meios para comprar anualmente os livros escolares de que os seus filhos precisam.

“Contratámos professores que se interessaram pelo projeto e pelo trabalho de proximidade com os alunos que realizamos”, explica Reinald Fischer.

80% dos antigos professores foram substituídos. Erkan Karakaya veio do sul da Alemanha, onde o contexto económico é mais favorável e a vivência nas escolas costuma ser mais fácil. “Decidi vir porque estão a fazer uma revolução. Eu venho de um modelo onde não há mudanças e o sistema é sempre o mesmo”, conta-nos.

A sua abordagem é mãos à obra. Literalmente. Os alunos com necessidades especiais são desafiados, por exemplo, a pintar a própria sala de aulas.

Um só professor pode ter turmas com alunos dos mais diferentes anos e idades. Uma forma de promover respeito entre todos e de incentivar a entreajuda. O próximo passo é dotar esta estrutura com o ensino secundário, de maneira a que o percurso seja contínuo. As obras já começaram.

“Dentro de cinco anos, vamos oferecer um ensino integral, totalmente planificado e financiado. Essa é a janela temporal que prevemos”, afirma Reinald Fischer.

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