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Como o avanço da AfD está a agitar a Alemanha


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Como o avanço da AfD está a agitar a Alemanha

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Quem são exatamente os apoiantes por detrás do controverso partido AfD, Alternativa para a Alemanha? A euronews foi conhecer alguns deles durante um encontro de rua organizado na parte leste de Berlim. Isto aconteceu antes de a AfD entrar de forma fulgurante na Câmara de Deputados da capital alemã, após umas eleições regionais que lhes deram mais de 14% dos votos.

“Apoio a AfD porque que os partidos tradicionais não oferecem alternativas. O resgate do euro, o resgate da Grécia, a crise dos refugiados – não se propõe uma alternativa para estes cenários. Mas nós achamos que há outras possibilidades”, declarava Stefan Kretschmer, membro do partido.

Num país em rápida mutação, a AfD vê-se agora representada em 10 dos 16 parlamentos regionais. Segundo Marianne Kleiner, também membro, “a cidade de Berlim tem de voltar a ser transparente com os cidadãos. Há tantas prioridades que estão trocadas… Tanto a nível local, como a nível regional. Por exemplo, a forma como os refugiados estão a ser distribuídos, sobretudo na parte leste de Berlim, contra o compromisso que tinha sido assumido com os residentes”.

Outro participante, Herbert Mohr, assegurava o seguinte: “Não diria que somos islamofóbicos. Somos críticos quanto ao Islão. Todos os muçulmanos que vivem na Alemanha estão completamente integrados. Mas nós consideramos que a religião islâmica não tem raízes na cultura alemã. Na Alemanha, subsistem os valores judaico-cristãos ocidentais e é assim que queremos continuar”.

Nem todos concordam. Um grupo de manifestantes da extrema-esquerda veio salientar isso mesmo, gritando: “Tirem o nacionalismo da cabeça”. Seguiram-se alguns momentos de tensão que refletem o desconforto gerado entre alemães pelo avanço de uma formação considerada de extrema-direita. “Vieram até aqui chamar-nos de nazis e racistas. É tudo mentira. Não somos. Mas eles acham que sim”, dizia-nos Stefan Kretschmer.

“Na Alemanha, para demonizar alguém, basta colar-lhe o rótulo da direita”

A verdade é que a AfD está a conseguir chamar para si muitos eleitores descontentes com os partidos do bloco central que ocupam tradicionalmente o poder, aproveitando a vaga anti-imigração após a chegada massiva de refugiados.

Frauke Petry assumiu a liderança do partido no ano passado. Tem 41 anos, quatro filhos e uma retórica que tem conquistado muito terreno. Mas, salienta, não dirige um partido de extrema-direita. “Não. Nós próprios nos colocamos a questão: que tipo de partido somos? Olhemos para as pessoas que votam em nós, que se tornam membros do partido. Há vários conservadores e liberais. Recebemos apoios de todos os quadrantes do espetro político. Na Alemanha, para demonizar alguém, basta colar-lhe o rótulo da direita. Tentaram fazê-lo comigo, com o partido… Mas a questão é que as pessoas têm vontade de despertar e perceber o que se passa à volta”, afirma Petry.

A Alternativa para a Alemanha nasceu em 2013, em plena crise da dívida soberana na Europa. Mas foi em 2015 que o partido foi projetado para a ribalta política, através das posições contra a entrada de mais de um milhão de refugiados no país.

Enquanto outros encerravam as fronteiras, Angela Merkel decidiu abrir as portas da Alemanha. “Aquilo que estamos a viver agora vai mudar a face do nosso país nos próximos anos. Queremos que essa mudança seja positiva e vamos conseguir fazê-lo”, declarava a chanceler, em setembro de 2015.

A arma política do medo

Christa Senberg é voluntária num centro de refugiados na área de Bradenburgo, onde muitos criticam o governo por, alegadamente, pretender gastar quase 100 mil milhões de euros nos próximos cinco anos em políticas de integração. “A AfD está a usar os refugiados para convencer as pessoas em situação precária que tudo seria muito melhor se eles não tivessem vindo. Há muito que se alertava para a necessidade de mudanças no Estado social, porque corria-se o risco que alguém aparecesse para instrumentalizar os problemas que existem. E foi o que aconteceu. Mas veio a pessoa errada e conseguiu conquistar aqueles que não estavam satisfeitos”, considera.

O imã Mohamed Taha Sabri veio há 27 anos da Tunísia. Até agora, afirma, não havia problemas de integração em Berlim. Mas salienta que o discurso da AfD, que distancia inequivocamente o Islão da cultura alemã, pode gerar cada vez mais tensões. Organizou um encontro com vários partidos políticos para debater as incertezas crescentes. A AfD declinou. “Recusaram no último minuto. Disseram-nos que a nossa mesquita não era um local neutro para dialogar e que estariam dispostos a fazê-lo noutro sítio”, conta-nos.

A crescente representação da AfD a nível regional poderá traduzir-se numa entrada no Bundestag nas eleições do ano que vem. Até que ponto a sua estratégia política assenta nos receios atuais e futuros da população? A líder do partido responde.

“Antes de mais, olhemos para as forças motrizes da Humanidade. Que forças são essas? Uma delas é o medo. Fingir que os políticos vivem sem a questão do medo, sem perceberem em que contexto as pessoas vivem, não é propriamente honesto. Esse é um dos fatores. Por outro lado, há quem diga que nós instilamos o medo nas pessoas. Eu respondo: olhem para os problemas que existem, para a crise do euro, para a crise da migração. O que é que está por detrás de tudo isso? Quais são as causas dessas crises? Fomos nós que criámos o problema? Ou simplesmente demos início ao debate sobre esse problema? Ele vai deixar de existir se não falarmos nele? Não, não vai”, garante Frauke Petry.

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