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Joseph Stiglitz: O perigo da austeridade numa Europa unida pelo medo


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Joseph Stiglitz: O perigo da austeridade numa Europa unida pelo medo

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“O grande problema da Europa é a moeda única” – segundo Joseph Stiglitz, distinguido com o Prémio Nobel da Economia em 2001, a criação da união monetária, tal como foi preconizada, é um erro histórico. Mas, numa entrevista com a jornalista Oleksandra Vakulina, o antigo responsável do Banco Mundial defende também que nem tudo está perdido.

Oleksandra Vakulina, euronews: O seu último livro intitula-se “Euro: Como uma moeda comum ameaça o futuro da Europa”. É possível salvar a união monetária?

Joseph Stiglitz: Sim, creio que sim. Mas isso implica a criação de determinados organismos, a existência de um sistema comum de garantia de depósitos, uma abordagem conjunta perante os bancos que enfrentam dificuldades. Tem de haver uma espécie de mutualização de dívida – as chamadas euro-obrigações -, o que significa alterar as regras implementadas pelo Banco Central Europeu, que não pode estar focado apenas na inflação. Tem de concentrar-se também no crescimento, no emprego e na estabilidade financeira. Implica igualmente um fundo comum de solidariedade para suportar os custos do desemprego e outros problemas que surgem ciclicamente na zona euro. São estas as reformas que têm de ser feitas. Não é nada de gigantesco. Mas a questão está em saber: será que os políticos consideram esta tarefa assim tão desmesurada? Porque há que avançar rapidamente com estas reformas.

“A austeridade é um perigo!”

euronews: Quanto tempo nos resta?

JS: Não vou falar numa janela de tempo ideal. Mas é verdade que a Europa está à beira dum precipício. E o problema é que a cada passo que dá, corre o risco concreto de cair mesmo. Há um ano, assistimos a mais uma crise na Grécia. Mas a forma como resolveram essa crise voltou a empurrar a Grécia no caminho do declínio.


Biografia: Joseph Stiglitz

  • Joseph Stiglitz recebeu o Prémio Nobel da Economia em 2001
  • Tem 73 anos e é professor na Universidade de Columbia
  • Antigo vice-presidente do Banco Mundial
  • Liderou o Conselho de Consultores Económicos da administração Clinton, entre 1995 e 97
  • É um dos responsáveis pela comissão da OCDE que avalia o desempenho económico e o progresso social
  • Economista-chefe do Instituto Roosevelt.

euronews: Houve um referendo e a maioria dos gregos votou contra as medidas de austeridade...

JS: 62%!

euronews: O referendo foi há mais de um ano e a crise grega está longe de acabar…

JS: Está pior! As coisas estão piores do que há um ano! E tudo porque insistiram em impor mais uma dose de austeridade. Como era de prever, a economia continuou a piorar.

euronews: A austeridade ainda é necessária?

JS: A austeridade é um perigo! Não só não é necessária, como prejudica de facto os países europeus. Não funcionou em quase nenhum dos casos.

euronews: O resultado do referendo foi interpretado como um “não” à zona euro e à Europa em geral. Considera que a Grécia teria mais hipóteses de sair da crise se estivesse fora da zona euro?

JS: Sim, considero. À medida que o tempo passa, e se a Alemanha e a troika não se acalmarem, se não houver uma reestruturação da dívida que até o FMI diz ser absolutamente necessária, se não houver mudanças nas políticas, a única saída para a Grécia é seguir por outro caminho.

euronews: O senhor foi até Atenas, no ano passado, no pico da crise, encontrar-se com os membros do governo grego… O que é que mais o marcou durante essa visita?

JS: O que mais me marcou foi perceber o quanto eles queriam realmente fazer parte do euro e deixar a austeridade para trás, sem se darem conta de que não podiam ter ambas as coisas.

Juncker e a mensagem do medo na Europa

euronews: O Reino Unido decidiu deixar a União Europeia. As perspetivas são positivas para os britânicos? O Reino Unido vai dar-se melhor fora da União Europeia?

JS: As consequências do Brexit são mais políticas do que económicas. A verdadeira questão está em saber o que é que isto significa para o futuro da União Europeia? É o lado político do problema. Será que a União Europeia vai captar a mensagem e dizer finalmente: “ok, não conseguimos convencer os cidadãos da União Europeia das vantagens que existem e que devem ser partilhadas entre todos de forma a alcançar a prosperidade”? Aquilo que me preocupa é ver Jean Claude Juncker, o responsável pela União Europeia, afirmar: “vamos impor condições muito mais duras, vamos tornar as coisas muito mais difíceis para evitar que outro país venha a sair”. Ou seja, a mensagem que passou foi que a Europa tem de se manter unida através do medo, não por causa das vantagens que existem. O que ele declarou foi que há que instilar o medo para que mais ninguém saia. Não acho que seja a atitude certa.

euronews: Organizar um referendo para ficar ou sair da União Europeia, da zona euro, é possível noutros países europeus?

JS: Depende da resposta da União Europeia. Há muita gente que acha que não é só a economia que está em risco, é a própria democracia. As pessoas estão constantemente a votar pelo fim da austeridade. Não apenas na Grécia: esses 62% também votaram em Portugal, em Espanha, em França, em Itália. E, no entanto, o que lhes dizem é: “desculpem lá, mas estes assuntos, que são os mais relevantes, já não são decididos ao nível da vossa democracia. A decisão foi delegada a Bruxelas, Frankfurt, Berlim. Vocês abdicaram da vossa soberania, daquilo que vos é mais caro”. Em certas eleições, alguns dos candidatos faziam campanha como sendo os melhores interlocutores para negociar com a Alemanha. Não se falava nas políticas que são necessárias; assumiu-se que as políticas são decididas lá longe e que a questão agora é saber negociar.

euronews: A realidade dos países de que já falámos – os países que organizaram referendos, a Grécia e o Reino Unido – e dos países do Sul da Europa, onde eventualmente isso poderá acontecer, levanta a seguinte questão: as pessoas já não se posicionam apenas contra a austeridade, mas contra a desigualdade em geral. É isso que está acontecer também nas eleições americanas?

JS: Claro que sim. Alguns dos temas mais prementes na Europa, também o são nos Estados Unidos. Muitos cidadãos estão revoltados com as políticas de liberalização dos mercados financeiros, de globalização em geral, que deixaram grandes franjas da população para trás… As promessas que os nossos líderes nos fizeram não foram cumpridas. Não é, por isso, surpreendente que haja outros políticos a tirarem partido dessa realidade. Infelizmente, os Estados Unidos não podiam ter um pior candidato à presidência. Mas é um candidato que alcançou uma certa empatia junto de uma larga fatia dos eleitores. Nós, os americanos, temos muito medo do que pode acontecer e os cidadãos do mundo inteiro também deviam ter. A América tem um papel decisivo na economia global, na segurança global. Há muita gente que receia ter alguém com a personalidade dele, tão instável, a decidir o que fazer com o armamento nuclear. É uma possibilidade que não deve deixar ninguém indiferente.

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