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Como Davos olhou para 2017


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Como Davos olhou para 2017

O Fórum Económico Mundial de Davos voltou a juntar os grandes decisores globais para tentar definir os contornos de 2017 e falar sobre as mudanças geopolíticas que podem ocorrer. Estará o fenómeno da globalização a regredir? Será que a Rússia e os Estados Unidos se vão tornar aliados próximos? A União Europeia ou a NATO poderão colapsar? São questões que pareciam inimagináveis há apenas alguns anos. O tabuleiro geopolítico mundial está a mudar rapidamente e é arriscado fazer previsões. Mas é um facto que 2017 está a inquietar muita gente.

A possível escalada da tensão entre os Estados Unidos e a China, nomeadamente devido às pretensões de Pequim no mar do Sul da China, é o cenário que mais devemos recear, diz-nos Robin Niblett, responsável do grupo de reflexão Chatham House. “Trump considera a China como uma das principais ameaças à América. Se os americanos tentarem fazer recuar militarmente os chineses, a China irá ripostar, e isso poderá desencadear um conflito com consequências devastadoras, quer em termos económicos, como geopolíticos”, realça Niblett.

De acordo com os comunicados do Fórum de Davos, o grande risco geopolítico da atualidade é o surgimento de um “mundo multipolar”, abrindo vários caminhos possíveis para o conflito. Lee Howell, diretor executivo do Fórum, afirma que “faltam mecanismos para lidar com desafios globais como a não proliferação nuclear e a cibersegurança. Mas há que fazer um esforço, porque são riscos concretos”.

A visão de Carlos Ghosn, presidente do grupo Renault-Nissan

Ghosn é uma presença assídua neste Fórum. Aqui fica a sua perspetiva do panorama global.

Isabelle Kumar, euronews: Comecemos num registo descontraído. Que inovações tecnológicas o interessam este ano?

Carlos Ghosn: Há muitas. Este ano vamos assistir a um marketing massificado em torno dos carros elétricos, que se estão a tornar na tendência do momento. Há também muitos avanços no que diz respeito aos carros autónomos, sem condutores; igualmente, em termos de conetividade dos veículos… Há muita coisa a acontecer em 2017. Os produtos estão a transformar-se à nossa frente.

euronews: Apesar das grandes mudanças no horizonte, aqui em Davos fala-se muito no eventual recuo do fenómeno da globalização. É algo que o preocupa?

CG: É óbvio que é uma questão que nos preocupa, embora não esteja muito pessimista em relação a isso, porque se virmos bem toda a gente tem a ganhar com a globalização. Se houver realmente um recuo, não acredito que vá ser muito significativo. Será algo mais relacionado com a correção de alguns aspetos, de alguns excessos, com a preparação de um marketing mais centrado sobre os benefícios da globalização. Honestamente, não prevejo esse recuo, nem um movimento de recusa da globalização. A globalização vai continuar sob formas diferentes, corrigindo algumas das perceções que existem, alguns dos excessos. Mas vai continuar.

euronews: Que efeitos pode a presidência de Donald Trump produzir sobre a indústria automóvel?

CG: Tem havido muitas especulações sobre a posição da próxima administração. Trump disse duas coisas que são muito claras: primeiro está a América e a preservação do emprego. Essa é a mensagem principal. Se aqueles que operam no mercado trabalharem no sentido de mostrar que a América está em primeiro lugar, se criarem emprego nos Estados Unidos, não há qualquer problema. Até agora, os construtores automóveis têm adaptado as suas estratégias em função do acordo existente, que é o Nafta. O Nafta vai provavelmente mudar. Ainda não sabemos, mas provavelmente. Alguns dos pontos do acordo vão ser renegociados. Mas acho que ninguém vai dizer: ‘acabou o livre comércio’. Não, será um livre comércio diferente, que tenha talvez mais em conta os interesses macroeconómicos. Por nós, não há problema, vamos adaptar-nos à situação.

euronews: E onde é que a Europa, com todas as suas incertezas, se encaixa no meio de tudo isto?

CG: As incertezas na Europa estão mais relacionadas com as eleições cruciais que se vão realizar em 2017. É daí que vêm as incertezas. Do ponto de vista económico, acredito que este será um bom ano para a Europa. Não iremos assistir a um crescimento deslumbrante, vai ser um crescimento moderado, tendo em vista as eleições que vão decorrer. Esperemos que 2018 traga mais solidez à economia.

“Se for o populismo protecionista, será um desastre”

“Demasiado lenta durante demasiado tempo” – foi este o veredito do Fundo Monetário Internacional em relação ao estado da economia global em meados de 2016.

Jeff Schumacher, da empresa de investimentos BCG Digital, afirma que não concorda com certos argumentos de Trump, mas que se sente otimista relativamente ao contexto empresarial que se avizinha. “Se os impostos sobre as empresas baixarem e o sistema regulatório se tornar mais flexível, Trump pode lançar uma vaga de crescimento e trazer mais capital para os Estados Unidos. Tendo em conta a dimensão do mercado americano, isso vai beneficiar a economia global”, considera.

Há quem fale dos Estados Unidos como o motor global e há quem receie que se torne no travão, nomeadamente por causa da retórica protecionista do novo presidente, como aponta o economista Nariman Behravesh. “Se for o populismo pró-crescimento a avançar, que é o mais provável, ótimo. Mas se for o populismo protecionista, será um desastre para os Estados Unidos, para a China e para vários outros países. Será a recessão”, aponta.