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Morfu, onde o braço de ferro cipriota se concentrou


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Morfu, onde o braço de ferro cipriota se concentrou

Apesar das negociações recentes, Chipre continua uma ilha dividida. Há quem garanta mesmo que é um contexto irreversível. Outros acreditam que a reunificação não está fora de alcance. O Insiders foi até Morfu, uma localidade que assistiu a um êxodo massivo em 1974.

No norte de Chipre, perto da cidade de Morfu, há laranjais a perder de vista. Os habitantes de toda esta zona falam turco. No sul desta ilha mediterrânica, há muito dividida, a língua é o grego. Em janeiro decorreu um encontro em Genebra para falar de novo sobre a reunificação, envolvendo as chamadas “potências garantes”: Reino Unido, Grécia e Turquia. Mas o braço de ferro continua.

Em 1974, Chipre separou-se em duas partes. Perguntamos a Ramadan Kandulu, dono de um laranjal, se é ou não possível reverter isto? “Para mim, é impossível voltar a juntar as duas partes. É como se uma das metades fosse uma laranja e a outra uma maçã… Não dá para uni-las”, diz-nos.

“Nós somos turcos, eles são gregos, é tudo diferente!”

Há 43 anos, o conflito levou à deslocação de dezenas de milhares de habitantes: os cipriotas gregos de Morfu vieram para o sul, enquanto que os cipriotas turcos fugiram para o norte. Foi o que aconteceu com a família Kandulu. As casas que ficaram desocupadas foram distribuídas por sorteio, ou seja, os Kandulu passaram a viver numa residência que pertencia a uma família cipriota grega.

“Esta casa pertence-nos agora. Tenho um certificado que comprova que é minha. Os cipriotas gregos dizem que nada disto é reconhecido internacionalmente. Eu não quero saber se é reconhecido lá fora. Eu vivo nesta casa há 43 anos. É uma vida” afirma Ramadan Kandulu.

Em 2004, os cipriotas gregos rejeitaram massivamente em referendo o plano de reunificação proposto pela ONU, ao contrário dos cipriotas turcos: na altura, 65% disseram “sim”. Hoje em dia, muitos não escondem as reticências.

“Nós somos turcos. Eles são gregos. As religiões são diferentes, as línguas são diferentes, é tudo diferente! Deixe-me colocar-lhe uma pergunta: alguma vez ouviu falar em problemas depois de 1974? De pessoas a matarem-se, como na Síria ou noutros países? Não. E isso explica-se pela presença do exército turco”, salienta Ali, filho de Ramadan.

“Não me importa se o presidente se chama Nikos ou Yannis ou Mustafa ou Ahmed”

Michael Georgiades considera “inadmissível” a presença de 30 mil soldados turcos no território. Este cipriota grego teve de fugir de Morfu quando tinha 18 anos. A família possuía também um laranjal que Michael pretende reaver. Nas negociações que decorreram recentemente, uma das grandes exigências do lado cipriota grego era a restituição de Morfu, que visita agora.

“Nesta praça havia uma igreja… Lembro-me de muita coisa que vivi aqui: lembro-me da Páscoa, lembro-me do Sábado de Aleluia, lembro-me de haver aqui muita gente a celebrar na Páscoa exatamente. Hoje em dia, a igreja tornou-se numa mesquita. Isto deixa-me muito triste e muito revoltado. Lembro-me de vir aqui em 2003. As portas estavam abertas e eu entrei. As luzes são as mesmas. Mas não há estátuas, não há mobília. Subi ao primeiro andar, encontrei os antigos sinos no chão e grande parte dos móveis da igreja destruídos…”, conta-nos.

Fomos ao encontro de Elena Georgiou, em Limassol, no sul. Vem de uma família cipriota grega, proveniente também de Morfu. “A foto que tenho no meu mural do Facebook diz: ‘Morfu é a minha terra! Quero a minha casa de volta. Quero a minha cidade!’. Esta outra foto é de quando eu era criança, na nossa varanda. Ainda sinto o cheiro das laranjas, crescemos com ele”, lembra.

Também Elena vive numa casa que pertencia a cipriotas turcos. Para ela, tanto faz que o presidente, em caso de reunificação, seja cipriota grego ou cipriota turco, católico ou muçulmano. O que realmente importa, diz, é que lute pelo bem comum: “Fala-se num futuro governo com cipriotas gregos e cipriotas turcos. Para mim, são todos cipriotas. Não me importa se o presidente se chama Nikos ou Yannis ou Mustafa ou Ahmed. Uma federação seria a solução perfeita”.

Hatice e Larkos vivem em Kiti, uma localidade no sul. Ele vem da comunidade grega, ela é de origem turca. Têm um grupo de música no qual cantam em ambas as línguas e um casamento que se tornou num símbolo de uma união alargada.

“Nós somos cipriotas cipriotas. Temos todos a mesma origem”, considera Hatice. “Temos de perdoar, não esquecendo o passado. Mas chegou uma nova era: vamos aproveitar para nos unirmos”, remata Larkos.

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