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Fantasporto 2017: O triunfo da ficção científica

Balanço da última edição do Fantas, em que mais uma vez a euronews esteve presente. Leia aqui o resumo dos premiados e uma grande entrevista com o fundador e director, Mário Dorminsky.

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Fantasporto 2017: O triunfo da ficção científica

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Numa edição em que, continuando a tendência de anos anteriores, o cinema asiático e sul-americano marcaram o Fantasporto, o prémio mais aguardado, o da competição de cinema fantástico, foi para uma co-produção franco-belgo-espanhola de ficção científica – “Realive”.

O realizador e argumentista Mateo Gil tinha já assinado os argumentos de “Abre los Ojos” e do remake hollywoodesco “Vanilla Sky”, tal como de “Mar Adentro”, também realizado por Alejandro Amenábar.

A história de “Realive”, que antes do Fantas tinha já passado por Sitges e Gérardmer (entre outros festivais), não anda longe da mesma linha: Como pode a tecnologia interferir para mudar o destino de alguém e trazer de volta o amor que o coração quis mas as circunstâncias da vida afastaram? Seguimos aqui Marc Jarvis, um jovem doente de cancro congelado nos nossos dias e ressuscitado no século XXII.

“Realive” triunfou sobre aquele que muitos apontavam como favorito e que era, também, a peça mais rara do lote: “The Evil Within”, representante do terror puro, único filme realizado em vida por Andrew Getty, herdeiro da milionária família Getty morto em 2015. A ficção científica marcou também pontos com “Division 19”, de Suzie Halewood, prémio da crítica ex-aequo com o poderoso e claustrofóbico “Caught” de Jamie Patterson.

Destaque também para o prémio de melhor filme da Semana dos Realizadores para o drama filipino “Palmilya Ordinaryo” (“Gente Comum”), de Eduardo W. Roy Jr. e para o duplo galardão (Prémio do Público e Especial do Júri / Cinema Fantástico) de “Saving Sally”, do igualmente filipino Avid Liongoren.

Este é, sobretudo, um festival feito de “gente da casa”. “Da casa” é, sem dúvida, Ate de Jong, presente pelo terceiro ano consecutivo. Depois de ter presidido ao júri no ano passado, desta vez o realizador holandês esteve presente em dose dupla: Em competição com “Love is thicker than water” e no papel de grande homenageado, com um prémio de carreira e uma projeção comemorativa dos 25 anos do filme de culto “Drop dead Fred” (“A culpa é do Fred”), em que dirigiu Phoebe Cates e Carrie Fisher.

O outro prémio de carreira foi para a autora da TV Globo Glória Pérez, que juntamente com a atriz Mariana Ximenes trouxe os “flashes” a esta edição. Sobre isto e muito mais, conversámos com o “Sr. Fantas”, Mário Dorminsky, de regresso aos comandos do festival depois de um ano em que um susto de saúde o impediu de estar presente. Este ano, felizmente, sustos só no ecrã.

Entrevista: Mário Dorminsky


Ricardo Figueira, euronews: Como é este regresso ao “leme”, depois de a saúde o ter impedido de estar na edição do ano passado?
Mário Dorminsky: No ano passado correu tudo bem, foi só aplicar-se a receita, já estava tudo alinhavado por mim e pela Beatriz (Pacheco Pereira) antes do festival. Nós temos perspectivas diferentes, por isso completamo-nos. Ela escolhe filmes para um público mais cinéfilo, muito vocacionados para problemas sociais, o que se nota sobretudo na Semana dos Realizadores. Eu tento dar um toque mais leve.

E que tal correu?
Este ano está a ser complicado, porque fim de uma fase com muito trabalho e acumular isso com a preparação do festival foi um pouco violento para mim. Quanto ao festival, este ano teve mais pimenta que no ano passado. Tivemos filmes notáveis, quer na área do fantástico quer na Semana dos Realizadores. No fantástico foi uma autêntica “desbunda”, mas uma “desbunda” séria. Alguns filmes muito malucos, mas de bom cinema, um pouco a fazer lembrar os primeiros do Peter Jackson. Foi o caso do “Neil Stryker and the tyrants of time”, com que fechámos a competição. Quisemos fechar com um filme maluco, muito artesanal, que vai buscar muito ao Ed Wood e mereceu ser integrado. A nossa seleção passa por várias fases – Cannes, Veneza e o American Film Market, quando é feita a última fase da seleção, que nos permite apresentar muitas ante-estreias mundiais. Por isso o festival está a ter uma projeção internacional que não pensei que alguma vez tivesse. Somos muito divulgados pelas agências noticiosas e pela comunicação social de todo o mundo.


Mário Dorminsky (foto: Lauren Maganete)

Mas tenho a sensação de que este festival já teve mais cobertura do que tem hoje…
A nível internacional, nunca teve tanta cobertura como agora. No que toca a Portugal, infelizmente, há cada vez menos espaço para a cultura e menos jornalistas a fazer esse trabalho. Além de que se centram demasiado sobre o que se passa em Lisboa e esquecem o resto do país. Em Lisboa foram aparecendo mostras de cinema como cogumelos, sendo que os únicos a que posso verdadeiramente chamar festivais são o DocLisboa e o IndieLisboa. Além do Lisbon & Estoril Film Festival, que ainda não percebi bem o que é.

Falando de cinema: Contente com as decisões dos júris?
Sim. Penso que o “The Evil Within” poderia ter tido mais destaque, além do prémio de melhor ator que teve. É um filme com a marca Fantasporto a 100% e que, a meu ver, vai ter uma boa carreira internacional. A vantagem de um filme que passa em antestreia mundial ser premiado é que a imagem que passa é o prémio que recebe no primeiro festival onde esteve. De um modo geral, gostei das decisões, encaixam-se na divulgação que queremos dar ao festival. O “Realive”, que venceu a competição fantástica foi, muito provavelmente, de facto o melhor filme a ter passado pelo festival. Tem um argumento fabuloso – o Mateo Gil sabe escrever, fez o argumento para o “Vanilla Sky”, é alguém envolvido com o cinema norte-americano. Já não é um filme novo mas, lá está – o que é bom é bom.

O festival evoluiu muito ao longo destes 36 anos de existência – Começou por ser um festival virado puramente para o fantástico e tornou-se generalista, com secções. Quando criou o festival, pensou que um dia teria aqui artistas de novelas da Globo, por exemplo?
Já tínhamos tido, em anos anteriores. A Christiane Torloni, por exemplo. Mas sempre em filmes. Este ano é diferente, já que encetámos uma parceria com a TV Globo. A televisão faz parte do audiovisual e aqui não falamos de telenovelas, mas de séries de cariz fantástico, que foi o que exibimos. A Globo achou que o Fantasporto seria uma boa porta de entrada para estas séries na Europa. Ao mesmo tempo, isso chamou uma área que habitualmente não é a nossa, que é a das revistas cor-de-rosa. Vieram uma super-estrela, a Mariana Ximenes, e a Glória Pérez, que é talvez a melhor argumentista de televisão na América Latina.


Mariana Ximenes (foto: Lauren Maganete)

Como vai ser o futuro do festival?
Há coisas que vão ter de surgir, o que implica também trazer novas pessoas. O meu filho João vai pegar em muitas coisas e trazer uma equipa com ele. Digamos que a “velha guarda” vai coabitar com a “nova guarda”. Não é que não queira mais fazer isto, mas 40 anos a fazer um festival é muito. Quero, pelo menos, trabalhar até à quadragésima edição.