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Antonio Tajani, pres. Parlamento Europeu: "É inaceitável acusarem-nos de sermos nazis"


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Antonio Tajani, pres. Parlamento Europeu: "É inaceitável acusarem-nos de sermos nazis"

Antonio Tajani sucedeu ao alemão Martin Schulz como presidente do Parlamento Europeu em janeiro deste ano. Nasceu em Roma, Itália, a 4 de agosto de 1953, tem 63 anos, é casado com Brunella e tem dois filhos.

Foi oficial da força aérea italiana e também jornalista parlamentar ligado à RAI, a televisão pública italiana, e chefe de redação do Il Giornale, em Roma. Foi enviado especial ao Líbano, à antiga União Soviética e à Somália. Fala inglês, francês e espanhol.

Tornou-se eurodeputado pelo partido Forza Itália, em 1994, e entrou para o Partido Popular Europeu. Integrou a equipa de comissários liderada pelo português Durão Barroso, ocupando-se dos Transportes (2008-09) e da Indústria (2010-14).

Chega à liderança do Parlamento Europeu num dos momentos mais sensíveis da Europa. Terá Antonio Tajani os recursos necessários para levar a União Europeia a libertar-se da mais violenta tempestade da sua história e sobretudo guia-la para bom porto?

O novo presidente do Parlamento Europeu é o nosso convidado, nesta edição de Global Conversation.

euronews, Isabel Kumar: Muito em breve os líderes europeus vão reunir-se em Roma para as celebrações do 60.° aniversário do Tratado de Roma. Há quem evoque a imagem dos músicos que tocavam no Titanic enquanto o barco afundava. Sente-se o capitão de um navio à beira de se afundar?
Antonio Tajani:
Não, em absoluto. Sinto-me como um marinheiro que trabalha para sair da tempestade. Estou convencido que vamos vencer a tempestade e chegar a bom porto. Porquê? Porque os europeus já demonstraram ter capacidade de resolver problemas quando estão em dificuldades. Nós já ganhámos um desafio após a II Guerra Mundial. Graças à Europa, pudemos viver 70 anos de paz, de liberdade.

Mas estamos num contexto muito diferente, agora.
Existem três grandes problemas: o desemprego, sobretudo o desemprego entre os jovens e que implica o futuro da União Europeia; a imigração ilegal; e o terrorismo. Ainda não vencemos o desafio contra o ‘daesh’ (o grupo terrorista autoproclamado Estado Islâmico ou ISIL, na sigla inglesa).

São essas as grandes prioridades para o futuro nas quais a União Europeia se vai focar?
Exato. E depois há ainda o problema do ‘brexit’. Pela primeira vez um país pretende sair da União. Portanto, vamos ter de trabalhar todos juntos. Não é o momento de se criarem polémicas entre as instituições europeias. É preciso que o Parlamento — o qual tenho a honra de liderar —, a Comissão Europeia, o Conselho Europeu e os Estados-membros trabalhem todos juntos para os nossos cidadãos. É preciso trabalhar apenas para dar resposta aos nossos cidadãos. É esse o objetivo do nosso trabalho.

A Comissão Europeia fez cinco propostas para uma futura União Europeia. A que parece ser a preferida é a de uma Europa de geometria variável.
Se pensarmos numa geometria variável com dois, três ou quatro países que estão na vanguarda, isso não seria negativo. Por exemplo, na política europeia de defesa: se a França, a Alemanha, a Espanha e a Itália decidirem ir à frente para abrir uma nova rota, para reforçarem a política estrangeira da União Europeia — sem excluírem os outros, mas apenas a preparar o terreno para os outros — essa não é uma mensagem negativa, mas positiva. O que pensa fazer para os países que não partilham essa visão? Acantona-los e deixá-los à margem do projeto europeu?
De forma alguma. É preciso progredir, mas todos juntos. Se geometria variável significa alguém que tenta assumir a dianteira, isso é bom. Se, por outro lado, os que estão na vanguarda tentarem pôr os outros a um canto, isso será um erro.

A Polónia assumiu claramente o desejo de trabalhar contra as ambições europeias neste momento. O que vai fazer com um parceiro como a Polónia?
Existe sempre um debate político. Penso que haverá sempre ideias diferentes numa União Europeia que é muito grande. É uma união de Estados-membros que são diferentes e cada um tenta defender a sua linha política na discussão de uma estratégia. Tivemos a reeleição do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk. A Polónia votou contra. Os outros, a favor. É assim a democracia.

Se a Alemanha assumir um papel ainda mais importante numa futura União Europeia, não poderá isso reforçar os argumentos dos populistas para quem é a Alemanha que decide tudo?
É preciso compreender porque os cidadãos votam nesses partidos (populistas). Se há um mal-estar e os eleitores decidem enviar uma mensagem aos líderes políticos e aos outros partidos. É por esta razão que é preciso trabalhar nos problemas e não na ascensão dos partidos populistas. Acabamos de ver na Holanda, os populistas não ganharam. Porquê? Porque o primeiro-ministro deu respostas concretas aos cidadãos.

As eleições em França acontecem em breve. Tem alguma estratégia alinhavada caso a Frente Nacional conquiste o poder?
Eu penso que o jogo está aberto e não estou seguro que a Frente Nacional vá ganhar as eleições. A posição do meu partido — o Partido Popular Europeu — é clara. A posição do Parlamento não é populista. Há uma só estratégia: responder aos cidadãos. Dar respostas. Resolver os problemas do desemprego, da imigração, do terrorismo e resolver o ‘brexit’. O primeiro passo a dar será resolver o divórcio britânico. Depois do divórcio, vamos decidir a forma de regular as relações entre a União Europeia e o Reino Unido.

Os britânicos já admitiram a possibilidade de saírem das negociações sem acordo e dizem que seria ainda pior para a União se não houver acordo. O que diz disto?
Eu penso que será pior para eles e acho que não nos devemos chatear quando surgem estas declarações. Os britânicos são capazes de concluir o acordo mas é preciso ficar atento, defender os nossos interesses e, mesmo tempo, não nos esquecermos nunca de que no dia a seguir ao divórcio o Reino Unido irá ser um interlocutor da União Europeia. O Reino Unido sai da União Europeia, mas continua a ser um país europeu.

Um outro problema na União Europeia é a imigração. Já evocou a possibilidade de haverem campos de refugiados num país como a Líbia. Esta é de facto uma possibilidade para o futuro?
Na minha opinião, devemos permitir aos refugiados um acolhimento em ambientes favoráveis, isto é, com acesso a médicos e medicamentos, e junto de quem defenda o direito deles à vida. Mas, claro, será preciso cooperarmos com as Nações Unidas. É preciso haver organizações capazes de os acolher.

Como será isso possível na Líbia, um país fora de controlo?
É preciso começar pelo sul, nos países da África subsariana. Depois, quando houver uma solução favorável na Líbia, poderemos fazer a mesma coisa na Líbia. É preciso evitar que o Mediterrâneo se torne num cemitério e a solução é já de si complicada. Não será suficiente criar os campos, é preciso investimentos ainda mais fortes em África.

Um dos fortes aliados da Europa na gestão desta crise de migrantes é a Turquia, com quem, no entanto, as relações diplomáticas estão cada vez mais explosivas. Pode a Turquia continuar a ser um aliado na solução para a crise migratória?
A Turquia continua a ser um parceiro. Penso que depois da campanha eleitoral para o referendo, Ancara vai desagravar a polémica e, por isso, entendo que devemos manter os acordos. É claro que nós defendemos direitos e ninguém pode acusar um país europeu de ser nazi. Isso é inaceitável. Nós somos o coração da liberdade, da democracia e dos direitos humanos. Podemos sempre ouvir conselhos, mas jamais poderemos aceitar que alguém nos venha a acusar de sermos nazis.

O que falta para revogar a candidatura da Turquia à União Europeia?
Revogar porquê? Se existem momentos difíceis, é preciso trabalhar para os resolver a nível diplomático. Temos de tentar compreender os problemas que os turcos atravessam, mas nós defendemos sempre os nossos valores: a liberdade de expressão, a democracia e os direitos humanos.

Falemos de si. O seu antecessor, Martin Schulz, era muito próximo de Jean-Claude Juncker. O presidente da Comissão Europeia diz que também vai abandonar a função no final do mandato. Gostava de falar da solidão quando se está no poder. Já a sentiu?
Nunca. Nunca me senti sozinho. Eu converso com os meus colegas, como com eles… Eu fui eleito, tanto em Itália como aqui, pelo consenso dos cidadãos e dos deputados, por isso não tenho qualquer problema de solidão. Não sofro desse problema.

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