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“The Limehouse Golem”, terror e mistério na Era Vitoriana

Na décima edição do festival Hallucinations Collectives, em Lyon, a euronews conversou com o realizador Juan Carlos Medina a propósito deste _thriller_ de época.

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“The Limehouse Golem”, terror e mistério na Era Vitoriana

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Se colocarmos um thriller policial ao estilo de Seven e o universo vitoriano de Jack, o Estripador numa misturadora, o resultado não será muito diferente de The Limehouse Golem, um projeto que nasceu há mais de dez anos a partir do best-seller de Peter Ackroyd e que finalmente vê a luz pela mão do franco-espanhol Juan Carlos Medina (Painless).

Com uma mistura de humor, terror e mistério, Medina leva-nos ao universo do music-hall da Londres dos finais do século XIX. Uma série de crimes horrendos está a atemorizar a cidade, tanto que se pensa serem obra de uma criatura mítica – o Golem. Dan Leno (Douglas Booth) é a estrela do momento, artista de variedades adorado em toda a cidade, mas também com alguns inimigos… Lizzie Cree (Olivia Cooke) é uma jovem atriz que trabalha com ele, estrela em ascensão, presa acusada de ter envenenado o marido, John Cree (Sam Reid). O inspetor John Kildare (Bill Nighy) está persuadido que John é o assassino e quer prová-lo, livrando assim Lizzie da forca. Só que os suspeitos não se ficam por aqui… o próprio Dan Leno pode também ser o Golem, tal como um certo Karl Marx, que então calcorreava as ruas de Londres em defesa dos deserdados da Revolução Industrial…

Antes da aventura que se vive no ecrã, os direitos de adaptação de The Limehouse Golem viveram, também eles, uma aventura de mais de dez anos e passaram por várias mãos, incluindo as de Terry Gilliam, até chegarem às mãos de Medina, como o próprio contou na recente projeção do filme no festival Hallucinations Collectives, em Lyon.

À mesa com uma dezena de jornalistas, Medina contou-nos como sempre se sentiu um apaixonado pelas histórias de crime “à inglesa”: Cresci em Espanha durante os anos 80, a ver na TV filmes de Hitchcock, John Boorman ou Ken Russell. Sempre me reconheci nesse universo. Nos anos 80, a TV espanhola não tinha dinheiro para pagar filmes novos, por isso comprava muitos clássicos, que passavam ao fim de semana. Quem na altura dirigia a TVE era Pilar Miró, uma pessoa de um enorme bom-gosto, que sempre escolhia bons filmes e não as parvoíces “à Berlusconi” que vemos hoje.

Juan Carlos Medina à conversa com os jornalistas, na última edição do festival Hallucinations Collectives em Lyon (foto:RF)

Uma das notas mais positivas do filme vai para a escolha dos atores, como o assume o realizador: Milos Forman dizia que, num filme, ou temos maus atores e estamos lixados, ou temos bons atores e aí basta saber dirigi-los. Escolhi atores com muita amplitude – Olivia Cooke estava a ser desperdiçada em papéis secundários a fazer de menina doente. É uma excelente atriz, quase uma Lilian Gish dos tempos modernos. Ao mesmo tempo sensual e glamour, mas também diabólica, capaz de uma grande dureza. Tem o caráter típico do norte da Inglaterra, ao mesmo tempo duro e acolhedor.
Já o papel do inspetor Kildare parece ter sido feito à medida para Bill Nighy, embora fosse inicialmente destinado a outro ator – Alan Rickman, que teria tido aqui o seu último papel: Alan estava a 100% no projeto, queria ir até ao fim, apesar de estar doente. Estava a reagir bem aos tratamentos. Planeámos tudo de forma a que pudesse ir a Londres fazer a quimioterapia uma vez por semana. Tinha um cancro pancreático em fase terminal, estava consciente de que iria morrer. Tinha três ou quatro meses de vida, mas queria fazer um último filme. Três semanas antes do início das filmagens, teve um AVC e os médicos disseram que era impossível continuar. Tínhamos três semanas para encontrar um ator e foi quase um milagre o Bill estar disponível.

Esta apresentação de The Limehouse Golem em Lyon foi a quarta do filme, depois da antestreia mundial no festival de Toronto e da presença nos festivais de Sitges e Beaune. A estreia comercial chega depois do verão, com estreias marcadas no Reino Unido e Alemanha e só depois deverá estrear nos ecrãs do resto da Europa.

Dez anos de alucinações

Começou por ser uma filial lionesa do parisiense L’Étrange Festival e desde então Cyril Despontin e a restante equipa fizeram do Hallucinations Collectives um marco do calendário mundial de festivais de cinema fantástico, com uma fórmula de sucesso: Uma seleção reduzida (mas com grande qualidade) de filmes em competição, acompanhada de retrospectivas e projeção de filmes de culto, sem falar nas surpresas que a organização reserva para o público (e que foram muitas, na noite comemorativa da décima edição). Os triunfadores desta edição foram Message from the King, de Fabrice Du Welz (a poucas semanas da estreia comercial em França), vencedor na categoria de longas-metragens e, nas “curtas”, a obra de distopia The disappearance of Willy Bingham, que nos chega da Austrália, em que Matthew Richards nos coloca perante uma cruel alternativa à pena de morte…