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Islâmico de Mértola, um Festival de descoberta e tolerância

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Islâmico de Mértola, um Festival de descoberta e tolerância

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Espetáculos de música e dança, conferências, lançamentos de livros, exibição de filmes, exposições e atividades para crianças, foram alguns dos múltiplos atrativos que, durante 4 dias, atraíram milhares de visitantes nacionais e estrangeiros até Mértola.

De dois em dois anos, o festival, que já vai na 9ª edição, transforma a vila alentejana que abre os braços para celebrar e dar a conhecer a cultura islâmica e os seus laços com Portugal.

Durante a realização do evento, de 19 a 21 de maio, as ruas estreitas do centro histórico da vila, que em tempos teve como senhor Ibn Qasi e Ibn Wasir, ficaram cobertas de panos coloridos e um “souk” (mercado) ganhou corpo. Ao lado dos produtores locais de mel, queijo e pão, artesãos originários do norte de África venderam produtos tradicionais do Magreb.

Num tempo em que a islamofobia ganha expressão, o Festival organizado pela Câmara Municipal não tem receio em se assumir como espaço de encontro de culturas. É “um projeto estruturante e de salvaguarda, valorização, animação e promoção do património cultural de herança islâmica, assente num prolongado trabalho de investigação cientifica, capaz de promover o encontro entre diferentes povos, culturas e credos e simultaneamente uma oportunidade de desenvolvimento para o concelho de Mértola,” esclarece o vice-presidente da Câmara Municipal, João Serrão Martins.

A colaboração que, desde a primeira edição do Festival, acontece entre o município e a Comunidade Islâmica em Espanha, através da “sugestão de conferências, a realização da noite Dycra e a oração pública ao ar livre”, são motivos de orgulho para Jalid Nieto, Diretor de Comunicação da Fundação Mesquita de Sevilha.

Um dos exemplos práticos desta colaboração foi a conferência “O Islão: suas leis divinas e humanas”. O orador, Ahmed Bermejo, Imam Jatib da Mesquita Maior de Granada, apresentou uma conferência destinada a demonstrar como “a Sharia do Islão não é cortar mãos e cabeças, como se diz. Quando o verdadeiro Islão está estabelecido há uma proteção completa do cidadão e da sociedade. Apresentou exemplos fabulosos dos Tratados que o profeta Maomé estabeleceu , no ano de 614, para as pessoas da cidade de Medina, na Arábia Saudita. Aqui, protegia todas as tribos. Independentemente da sua religião, todos os habitantes estavam protegidos na honra, na religião, na vida, na propriedade e riqueza, e com tudo o que tem a ver com a ética e moralidade social, ” esclarece Jalid Nieto

“O Islão na literatura portuguesa: do romantismo a Fernando Pessoa” foi uma das palestras que marcou a edição de 2017. A partir do trabalho desenvolvido no espólio e na biblioteca particular de Fernando Pessoa, o investigador Fabrizio Boscaglia fez uma “introdução aos temas do Islão na literatura portuguesa, desde 1826 até 1935.” Boscaglia, um italiano de Turim, revela que “Fernando Pessoa interessou-se pelo Islão, pelo Al-andalus, pela poesia persa, e escreveu sobre estas matérias. Leu textos da mística islâmica. Na sua obra há um reconhecimento de aspetos do Islão e da civilização islâmica dentro do melhor da tradição sapiencial e cultural da humanidade.”

Momento alto da programação foram os concertos no cais, à beira do Rio Guadiana. Na noite de sexta-feira, depois da atuação do português Pedro Mestre, acompanhado pelo Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de S. Bento, subiram ao palco Les Filles de Illighadad. O projeto da guitarrista Fatou Seidi Ghali, uma das duas mulheres que sabem tocar guitarra em todo o Níger, trouxe até Mértola músicas que falam de esperança, de amor e dos guerreiros Tuareg.

Na noite de sábado, o grande palco foi aberto com o concerto de Hamid Ajbar Sufi Ensemble e o encerramento foi feito com o Kel Assouf. Anana Harouna, fundador dos Kel Assouf, nasceu em Agadez e “fez parte da primeira rebelião tuaregue, nos anos 90, contra o Estado do Mali e do Níger”. Uma rebelião que tinha como objetivo “recuperar o direito ao respeito das populações nómadas do Sahara”. “Hoje, Anana usa a guitarra como arma para denunciar as injustiças,” lê-se na apresentação à imprensa.

“Com um repertório de música Tuareg, Anana Harouna quis explorar sonoridades diferentes e levou-nos ao encontro de uma vertente mais Rock. Digamos que é o encarnar da violência que se passa no deserto, as guerras e o petróleo, e o traduzir isso em música. Estamos em alerta sobre que se passa no deserto mas, ente os nossos temas, há também músicas de amor e de nostalgia. Aliás, o nome do nosso grupo, Kel Assouf , pode querer significar nostalgia ou filhos da eternidade.” revela o produtor e teclista do grupo, Sofyann Ben Youssef.

A apresentação do filme “Feitos e ditos de Nasreddin”, do realizador francês Pierre-Marie Goulet, foi um dos momentos em que a sala de cinema se encheu. “As pequenas histórias da personagem de Nasreddin, conhecido em todos os países na margem sul do Mediterrâneo foram filmadas aqui por eu estar a fazer um outro filme em Mértola, mas também por as ruas de Mértola serem o cenário perfeito. Os campos e as ruas de Mértola estão podiam estar em muitos outros países do norte de África,” afirmou Pierre-Marie Goulet.

Luís Guita, para a euronews