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Cannes Lions: Os prémios e a revolução digital


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Cannes Lions: Os prémios e a revolução digital

O Business Line esteve em Cannes para fazer um programa recheado de criatividade e inovação. O Cannes Lions é o maior encontro mundial de publicitários, designers e especialistas de marketing. Os desafios e as tendências convergem num festival que atribui os mais prestigiados prémios do setor, repartidos por inúmeras categorias. Falámos com o presidente do júri da categoria musical da edição deste ano para descobrir como são escolhidos os vencedores. Conversámos também com Olivier Robert-Murphy, responsável do grupo Universal Music, sobre as profundas mudanças na indústria musical face à revolução digital. E ainda muito mais…

“Os desafios tornaram-se numa oportunidade”

Como identificar um vencedor, segundo Olivier Robert-Murphy, responsável global de New Business do grupo Universal Music.

“O júri visiona todos os vídeos para criar uma shortlist, que precede a chegada a Cannes, uma semana antes da entrega dos prémios. Durante essa semana, vamos voltar a ver todos os vídeos. Sem parar, durante 5 dias. E depois, naquele que eu acho que é o dia mais interessante, o último, debatemos entre nós quem deve ganhar.

Em resumo, foi uma experiência fantástica. Tínhamos um compositor no júri, tínhamos criativos, pessoas das editoras, artistas, ou melhor, O artista, Wyclef Jean. Todos eles trouxeram a experiência dos seus diferentes percursos. É verdade que a indústria musical foi a primeira a ser realmente desafiada pelo mundo digital. Mas, hoje em dia, isso tornou-se numa oportunidade formidável.

O que é que aconteceu em 10 anos? Transformámos, adaptámos, desenvolvemos novas ferramentas, novas fontes de rendimento. E basta olhar para os números atuais desta indústria para ver que, só no ano passado, ela cresceu 4,9%. Isso demonstra até que ponto os desafios se tornaram numa oportunidade.”

“Nem todos podem dizer que tiveram milhares de milhões de downloads”

Todos aqueles que têm um smartphone e gostam de música sabem o que é o Shazam. Foi uma das primeiras aplicações a ocupar um lugar de destaque. Mensalmente, regista 120 milhões de utilizadores. E muitos consideram que revolucionou a forma como consumimos música. Greg Glenday explica-nos a estratégia desta empresa que prefere falar de colaboração em vez de competição.

“Nós não temos concorrentes, não temos inimigos naturais. Temos uma parceria com a Spotify, a Pandora, a Amazon Music, a Google Play, a Apple Music… Ou seja, trabalhamos com praticamente todos os distribuidores de música. Nós somos apenas uma plataforma de descoberta. Temos de ser neutros como a Suíça. Quando alguém faz Shazam a uma música, pode utilizá-la como bem entender.

A nossa estratégia resulta. Há cada vez mais festas a convidarem-nos. A nossa abertura torna-nos numa boa aposta para as marcas, que têm apoiado a nossa atividade. Este ano, fala-se de realidade aumentada em Cannes, de realidade virtual. Há muita gente a trabalhar nesta área. Mas nem todos podem dizer que tiveram milhares de milhões de downloads. E isso faz-nos estar um passo à frente no mundo da realidade aumentada.”

Partilhar experiências virtuais com amigos

O YouTube mudou a forma como procuramos conteúdos na internet. A diretora Debbie Weinstein considera também que a próxima grande tendência será a realidade aumentada. Perguntámos-lhe como é que isso pode mudar o nosso quotidiano.

“O mundo digital está constantemente a reinventar-nos. Ainda estamos no começo no que toca às tecnologias da próxima geração, como a realidade virtual. Por isso, este é um momento muito excitante.

A realidade virtual dá-nos a possibilidade de viver experiências profundamente imersivas. É como se estivéssemos lá, na primeira fila de um concerto, por exemplo. Uma das coisas que acabámos de lançar foi a possibilidade de partilhar uma experiência virtual com um amigo. Dá para duas, três pessoas, um grupo inteiro na primeira fila de um concerto… Podem experimentar a realidade virtual ao mesmo tempo. É esse o caminho que queremos percorrer, o de criar experiências que envolvam toda a gente.”

A abordagem chinesa

O YouTube e o Shazam tornaram-se nomes globais. Na China, há rivais que podem não ser tão conhecidos, mas com um potencial gigantesco. Segundo Clement Yip, da Price WaterHouse Coopers, só em 2016, registaram-se mais de 46 mil start-ups chinesas com propostas que desafiam os modelos tradicionais de negócios.

“Muitas dessas start-ups tendem a oferecer melhores serviços, mais adequados. Há 5 anos, por exemplo, surgiu uma aplicação de partilha de carros que se tornou muito popular na China. Em 2015, lançaram uma versão chinesa que passou a angariar 8 milhões de pedidos por dia. As previsões para 2018 falam de 37 milhões de pedidos por dia. É fascinante. E há muitos serviços que vão continuar a desenvolver-se. Há 3 anos, começaram a aparecer na China as aplicações para encomendar pratos de restaurantes.”

“As pessoas não se importam com os seus dados até haver um problema”

Hoje em dia, com um smartphone podemos trabalhar, arranjar um carro, encomendar comida, ver um vídeo, ouvir música, ler e por aí fora. Muitos de nós não sobrevivem muito tempo sem, pelo menos, uma consulta rápida. E é um fenómeno cuja tendência parece intensificar-se cada vez mais. Mas isso levanta uma série de questões, entre as quais a privacidade dos nossos dados. Será que estamos a levar este problema realmente a sério? Alex Cheeseman, da Storyful, responde.

“Acho que vamos assistir a uma transição profunda: os consumidores vão passar a querer ter a propriedade dos seus próprios dados. O que é que isso implica? Neste momento, os consumidores não querem saber dos seus dados pessoais, dão-nos a qualquer site. Põem uma cruz numa caixa sem ler o texto que está em cima. Já todos fizemos isto umas centenas de vezes.

As pessoas não se importam com os seus dados até ao momento em que há um problema. E aí apercebem-se que a única forma de protegermos os dados é retirá-los e colocarmos a nossa própria proteção.

Quando as pessoas tomarem controlo dos seus próprios dados, o que vai acontecer aos anunciantes? O que vai acontecer às plataformas sociais? Vai surgir um valor de troca. É uma tendência massiva nos próximos 2 a 5 anos. Vai ter um impacto gigantesco sobre a indústria. E, a par da proteção de dados, teremos inteligência artificial, assistência personalizada para nos ajudar a tomar decisões. Isso é um bocado assustador porque vai ser quase impossível contrariarmos o nosso assistente pessoal que vai tratar das coisas por nós.”