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Juan Manuel Santos: "Num processo de paz é sempre preciso desenhar uma linha entre a paz e a justiça"


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Juan Manuel Santos: "Num processo de paz é sempre preciso desenhar uma linha entre a paz e a justiça"

Qual o futuro da Colômbia? Depois de mais de meio século de conflito armado com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), um histórico acordo de paz trouxe, pelo menos para alguns, a esperança de colocar um ponto final no confronto. Estima-se que mais de 200 mil pessoas tenham perdido a vida com o conflito e que mais de sete milhões se encontrem deslocadas. O esforço valeu a Juan Manuel Santos a conquista do Prémio Nobel da Paz. O presidente colombiano esteve à conversa com a Euronews em Paris.


Juan Manuel Santos

  • Desempenha funções como Presidente da Colômbia há dois mandatos
  • Venceu o Prémio Nobel da Paz em 2016
  • Assinou um acordo de paz histórico com as FARC em 2016
  • Pertence a uma das famílias mais influentes na política da Colômbia

Isabelle Kumar, euronews – Houve boas notícias para a Colômbia. O acordo foi firmado e a implementação está em marcha.

Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia – Sim, de facto aconteceu algo muito importante. 100% das armas que se encontravam nas mãos das FARC passaram para as Nações Unidas. Isto representa o fim das FARC porque se antes era um grupo armado agora não tem armas. Desapareceram como guerrilha e agora tornaram-se num partido político e apresentam-se à luz da lei. É disso que se trata a paz.

euronews – Como pode estar certo de que 100% das armas foram entregues?

Juan Manuel Santos – Ninguém saberá se se trata de 100% ou não, mas o que se sabe é que cada elemento da guerrilha fez um registo. Têm de assinar um juramento em como não voltarão a usar armas de novo. Cada arma está registada. É um processo bastante sério. Se compararmos o processo de paz com as FARC com quaisquer outros processos de paz no mundo perceberemos que este é, provavelmente, o mais sério e detalhado no sentido do controlo da entrega de armamento.

euronews – Mas as vozes críticas irão acusá-lo de ter sido leniente para conseguir este acordo com as FARC e o desarmamento. O que tem a dizer sobre isso?

Juan Manuel Santos – Os meus críticos querem simplesmente que faça desaparecer as FARC por meios militares. Isto teria prolongado a guerra por mais 30 ou 40 anos. Ou então queriam que os colocasse na cadeia por 40 anos. Se fosse esse o cenário, os elementos das FARC nunca desistiriam das armas. Num processo de paz é sempre preciso desenhar uma linha entre a paz e a justiça.

euronews – Não deixa de ser irónico o facto de ter referido que o mundo reconhece este acordo de paz e a forma como tem de ser implementado, mas internamente não é muito popular. Os níveis de popularidade como presidente estão extremamente baixos. Como explica isso?

Juan Manuel Santos – Porque fazer guerra é muito fácil e popular. Fui ministro da Defesa e fui bastante efetivo. É por essa razão que fui eleito Presidente. Procurar a paz implica sentarmo-nos com os inimigos e começar a fazer negociações para alcançar essa mesma paz. As pessoas não gostam das FARC porque cometeram todo o tipo de atrocidades ao longo dos últimos 50 anos. Por isso, ver um grupo que foi militarmente efetivo contra as pessoas a sentar-se à mesa e a negociar concessões é algo que não é muito popular ou bem aceite. A paz é muito melhor do que a guerra e a Colômbia florescerá depois deste acordo de paz como nunca antes se tinha visto.

euronews – Diz isso, mas há eleições a caminho no próximo ano e os elementos da oposição estão interessados em desfazer este acordo. Acredita que as coisas vão permanecer como estão atualmente depois da sua administração?

Juan Manuel Santos – Neste momento a paz é irreversível. Independentemente de quem ganhar as eleições não há volta atrás. Só de pensar que as FARC podem estar de novo armadas, podem voltar para as montanhas e continuar a disparar.

euronews – Mas há quem esteja desagradado com a possibilidade das FARC terem lugares no Governo, por exemplo. Isso poderia ser, eventualmente, revertido.

Juan Manuel Santos – A Constituição atual é o que permite às FARC tornarem-se membros do Parlamento. Mas isto faz parte do acordo de paz, em qualquer parte do mundo. Se comparar o que fizemos na Colômbia com outros processos de paz, verá que esta é a primeira vez na história mundial em que um grupo armado, uma guerrilha, depõe as armas e aceita ser julgada e condenada. Isto nunca aconteceu antes. Não haverá impunidade.

euronews – Este é um processo de paz em que apesar de ter dito que é colombiano também esteve dependente do apoio da comunidade internacional. Encontrou-se recentemente com Donald Trump na Casa Branca. Como avalia a posição de Trump em relação ao processo de paz?

Juan Manuel Santos – Ele foi muito claro na conferência de imprensa e o processo de paz.

euronews – Ele não mencionou o processo de paz na conferência de imprensa.

Juan Manuel Santos – Ele disse que tinha apoio para a Colômbia. Havia apoio no Congresso. O Partido Republicano votou para aumentar o apoio para o pós-conflito. Por isso, não podem ser mais claros nas intenções. Felizmente tivemos uma relação partidária bastante boa, quer com os Democratas quer com os Republicanos. O que fiz na minha primeira visita a Washington foi ratificar a relação.

euronews – Também está, naturalmente, a trabalhar com os Estados Unidos na luta contra as drogas. Isso pareceu atrair mais a atenção de Donald Trump do que o acordo de paz. Ele foi bastante categórico na abordagem da luta contra as drogas e disse: “Os muros funcionam.” Está de acordo?

Juan Manuel Santos – O tráfico de droga é como uma corrente. Temos de combater cada parte dessa corrente com os métodos adequados. Temos de ser bastante duros com os intermediários, com as pessoas que lucram. Temos de ser menos duros com os camponeses e os consumidores na Europa. Os consumidores nos Estados Unidos também são uma parte do problema. É uma corresponsabilidade. Os Estados Unidos e a Europa têm responsabilidade e o que a Colômbia está a tentar alcançar é uma abordagem mais efetiva e pragmática na luta contra as drogas.

euronews – Construir muros faz parte desse pragmatismo?

Juan Manuel Santos – Se erguermos um muro, as drogas contornarão o muro. O que é preciso é uma abordagem mais pragmática para se ser mais efetivo. Os melhores muros que se podem construir são o desenvolvimento económico para a América Central e do Sul de forma a que as pessoas não tenham incentivos para rumar a norte, para os Estados Unidos e Europa. O melhor muro é o desenvolvimento económico nessas regiões.

euronews – Quando está em causa o desenvolvimento económico, o comércio de cocaína é um problema para a Colômbia. O país é o maior exportador de cocaína no mundo.

Juan Manuel Santos – Continuamos a ser e os Estados Unidos e a Europa também continuam a ser os maiores consumidores.

euronews- Estão a trabalhar em conjunto consigo neste domínio?

Juan Manuel Santos – Estamos a trabalhar lado a lado com os Estados Unidos e com a Europa. Este é um problema global e tem de ser tratado à escala global. Um país não pode vencer a luta contra as drogas e dois também não. A abordagem tem de ser multilateral. É o que estamos a tentar alcançar na Colômbia para combater todas as partes da cadeia do tráfico de droga.

euronews – Mencionou a União Europeia como um parceiro. A União Europeia apoia a consolidação da paz com cerca de 95 milhões de euros. Para o que é que vai usar esse dinheiro?

Juan Manuel Santos – Para muitas coisas. Por exemplo, para desativar minas. Depois do Afeganistão somos o segundo país mais minado do mundo. É preciso desativar as minas. Temos de dar uma alternativa aos camponeses e às pessoas que se encontram em áreas de conflito. Temos de construir estradas, escolas, hospitais. Temos de reintegrar os elementos dos grupos da guerrilha para que se tornem cidadãos normais. Há um grande desafio no processo de pós-conflito.

euronews – O caminho para este acordo de paz não foi, obviamente, fácil. Em que exemplos se apoiou enquanto lutava por este acordo de paz. Como avaliaria as suas qualidades mas também as suas fraquezas?

Juan Manuel Santos – Como ser humano tenho muitas fraquezas. Por vezes, talvez seja impaciente. Talvez enlouqueça um pouco, às vezes, por algo que acontece ou não acontece. Este processo de paz foi bastante difícil. Nenhum processo de paz é fácil. Estudámos muitos processos de paz e retirámos de cada um o que se aplicava à Colômbia. O processo de paz da Irlanda do Norte, o processo de paz sul-africano, o processo de paz em El Salvador, no Sri Lanka. Tive um grupo de muito bons conselheiros, com experiência, que me acompanharam desde o início. Se se tem um objetivo e queremos alcançar esse objetivo temos de ser perseverantes. Estive na Marinha e aprendi a navegar. É preciso ter um porto de destino. Usam-se os ventos para chegar a esse porto e foi isso que fizemos com o processo de paz.

A versão completa da entrevista pode ser vista em euronews.com/globalconversation

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