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Guterres confiante no compromisso "verde" dos EUA apesar de Trump


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Guterres confiante no compromisso "verde" dos EUA apesar de Trump

António Guterres diz que a decisão de Donald Trump se afastar do acordado em Paris para combater as alterações climáticas está a ter um efeito inverso no resto do mundo e acredita que, apesar disso, os Estados Unidos vão cumprir as metas ambientais.

Na sessão inaugural da conferência Tidewater, a decorrer em Lisboa até esta terça-feira, o secretário-geral da ONU deixou uma mensagem de otimismo.

“Após a decisão do governo dos Estados Unidos de abandonar os acordos de Paris, a verdade é que se verificou um sobressalto à escala mundial e estamos a assistir a uma reafirmação, por parte de todos os outros governos, do seu compromisso com Paris. Ao mesmo tempo, não deixa de ser interessante verificar que, na própria sociedade americana, este sobressalto está a gerar, por parte das cidades, de alguns Estados e da comunidade empresarial, um fortíssimo compromisso com a economia verde e com os objetivos da luta contra as alterações climáticas”, afirmou Guterres.

Para além da União Europeia, entre os países que reafirmaram o compromisso com as metas climáticas ratificadas, sublinhou o secretátio-geral da ONU, encontram-se “a China e a Índia”. Para António Guterres, tratam-se de dois países “essenciais para o sucesso dos acordos de Paris”.



Aviso à Administração Trump

O chefe administrativo da ONU deixou ainda um recado para a Administração Trump, considerando ser “fundamental” que os Estadops Unidos mantenham o “empenhamento multilateral” sob pena de “outros” ocuparem o “espaço vazio” eventualmente deixado pelos norte-americanos. “Sobretudo em relação às situações internacionais que exigem uma resposta global, na qual os EUA terão sempre uma influência determinante”, especificou.

No final de um encontro com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva (foto em cima), no Palácio das Necessidades, em que foram debatidos temas relacionados com a próxima Assembleia Geral das Nações Unidas, nomeadamente no que concerne à reforma da ONU, Guterres abordou o trabalho que tem vindo a fazer com a administração norte-americana, liderada por Donald Trump, considerando que “não está a ser mais difícil do que estava previsto”.


“Temos mantido um diálogo construtivo com a administração americana, procurando evitar que se afastem da resposta multilateral às grandes questões”, disse, reconhecendo que esse trabalho nem sempre tem tido êxito, como no caso dos acordos de Paris sobre alterações climáticas, que os EUA pretendem abandonar.

Por outro lado, António Guterres sublinhou que quer a administração norte-americana quer o Congresso têm dado “um apoio muito forte” à reforma das Nações Unidas, que procuram torná-la numa organização “mais eficaz e com maior rentabilidade em relação aos recursos postos à sua disposição”, respondendo aos interesses dos Estados Unidos, mas também de “todos os que dão uma contribuição financeira importante” para a ONU.

Sobre a reforma, o líder da ONU referiu que se pretende “uma alteração profunda dos processos e dos métodos de trabalho”. Guterres apresenta esta terça-feira ao Conselho Económico e Social das Nações Unidas “o primeiro documento sobre a reforma do sistema de desenvolvimento” da organização.

Além disso, a Assembleia-Geral já aprovou a reforma da estrutura do contraterrorismo e já está a ser concretizada a reforma em relação às questões da exploração sexual e dos abusos, referiu o responsável, acrescentando que o plano de ação sobre a paridade está a ser implementado.

“Apresentaremos durante o mês de agosto aos Estados-membros o projeto de reforma da arquitetura de estruturas de paz e de segurança e o projeto de reforma de gestão, que tem a ver todas as regras de gestão, financeiras, orçamentais e de pessoal e com a estrutura de gestão das Nações Unidas”.

Portugal, um “aliado permanente” na Europa

Portugal tem sido “um aliado permanente” na resposta à crise dos refugiados, revelou o secretário-geral da ONU, apelando à comunidade internacional para “restabelecer a integridade do regime de proteção” aos que fogem de conflitos.

“Portugal tem sido um aliado permanente, defendendo, no quadro europeu, a plena assunção das responsabilidades da União Europeia e dos países europeus, tendo consciência que só num quadro de solidariedade europeia será possível dar uma adequada resposta a esta situação. Portugal tem sido impecável na expressão dessa solidariedade”, afirmou António Guterres.

O secretário-geral das Nações Unidas comentou que Portugal não é um dos países “na primeira linha em matéria de pressão”, mas “tem cumprido exemplarmente as suas funções e a legislação internacional de refugiados”. “Infelizmente, o mesmo não acontece em toda a parte, inclusivamente no quadro europeu”, referiu, após o encontro com o ministro Augusto Santos Silva, nas Necessidades.

Guterres reiterou os seus apelos à comunidade internacional “para restabelecer a integridade do regime de proteção para os refugiados e para restabelecer as condições que permitam aos refugiados encontrar a proteção a que têm direito quando fogem de situações de conflito que são particularmente dramáticas, como as que infelizmente ocorrem neste momento no Médio Oriente e em vários pontos do continente africano”.

O líder das Nações Unidas alertou ainda que a resposta humanitária às situações de fome nas regiões do mundo mais atingidas tem sido insuficiente para “responder integralmente ao desafio”.

A intervenção das agências da ONU e das organizações não-governamentais tem conseguido “evitar o pior”, como atingir “níveis tão dramáticos como se registaram na Somália em 2011”, mas só consegue chegar a zonas onde a segurança o permita e enfrenta “fortes limitações” pela falta de verbas.

“O financiamento que foi solicitado está apenas assegurado a 40%, precisaríamos de fazer muito mais para responder integralmente ao desafio a que fazemos face”, considerou.

Durante o encontro, no âmbito da próxima Assembleia geral da ONU, Santos Silva e Guterres abordaram a reforma da organização, a crise do Golfo e a situação na Venezuela, na Líbia e na Síria.