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Militares turcos exilados na Bélgica recordam golpe de Estado falhado


A redação de Bruxelas

Militares turcos exilados na Bélgica recordam golpe de Estado falhado

Dois militares de alta patente da delegação turca na sede da NATO, na Bélgica, estão entre as mais de 300 mil pessoas afetadas diretamente pelo golpe de Estado falhado na Turquia, seja por terem perdido o emprego, sido detidas sem julgamento ou postas em prisão efetiva.

A euronews conversou com os dois majores, que são agora requerentes de asilo por perseguição política. Os testemunhos foram dados sob anonimato, pelo que as várias declarações não são atribuídas especificamente a cada um deles.

“Estava a tentar entender o que se passava e disse à minha mulher que, apesar de dizerem que era um golpe, não me parecia um golpe. Não era a forma habitual de fazer um golpe. A Turquia já teve muitos golpes de Estado e costumam acontecer durante a noite, estabelecendo os postos de controlo e silenciando a imprensa. Na manhã seguinte, há apenas um canal de TV que anuncia à Nação que houve um golpe de Estado e que não se deve sair de casa”.

“Mas desta vez foi exatamente o contrário: o Presidente pediu às pessoas que fossem para a rua. Por volta das 9 horas ou 10 horas da noite estava toda a gente nas ruas, o que me parecia uma caricatura engraçada. Não parecia um verdadeiro golpe”.

Um dos militares trabalhava na sede da NATO, em Bruxelas, e o outro numa unidade em Mons, no sul da Bélgica. Dois meses depois receberam as más notícias.

“Uma lista muito grande chegou a 27 de setembro, continha 200 nomes e o meu nome também lá estava. Até esse momento, não pensei que realmente pudéssemos estar em perigo porque estávamos em Bruxelas, onde vigoram as regras do Estado de direito, pelo que íamos poder explicar, provar que não era possível que tivéssemos participado neste golpe”.

“Estávamos a cumprir o nosso dever na Bélgica, mas quando essa grande lista saiu tornou-se claro que não queriam saber quem tinha ou não participado no golpe, apenas queriam fazer uma grande purga”.

O Governo turco tem acusado o religioso Fethullah Gülen, exilado nos Estados Unidos, de ter organizado o golpe. Mas muitas das vítimas da purga ainda desconhecem porque são um alvo.

“Recebemos uma ordem de regresso, sem base legal ou qualquer explicação. Perguntámos o que se passava e responderam que era segredo de Estado e não podíamos saber qual era a acusação. Não nos disseram o que estava em causa, quais era as nossas culpas, as nossas acusações. Apenas disseram que havia uma investigação judicial e que tínhamos de regressar”.

“Aqueles que se dispuseram a regressar à Turquia, foram presos no aeroporto ou no quartel-general do exército turco. Quando vimos isso, decidimos ficar por aqui”.

Apesar de terem estatuto de diplomatas, muitos destes militares viram os passaportes revogados, as contas bancárias bloqueadas e os direitos à pensão cancelados. Membros da família que vivem na Turquia foram perseguidos.

“Não sabemos o que aconteceu naquela noite. Essa é a parte que nos custa mais. O que o governo diz não combina com o que dizem aqueles que viveram diretamente as coisas”.

Este foi o sétimo golpe de Estado desde a fundação da República da Turquia, em 1923.