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A discórdia que o referendo instalou dentro e fora dos Mossos d'Esquadra

As diferentes posturas durante o referendo agravaram as tensões internas entre os Mossos d'Esquadra.

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A discórdia que o referendo instalou dentro e fora dos Mossos d'Esquadra

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O contexto político e social que se vive na Catalunha está a provocar inúmeras tensões internas entre os chamados Mossos d’Esquadra, a polícia local. É a informação avançada por alguns dos agentes. A revelação explica-se, dizem-nos, pela politização excessiva de vários membros deste corpo policial. As diferentes posturas durante o referendo agravaram ainda mais as discórdias. A euronews falou com um dos Mossos, sob anonimato, que salientou que a única solução é estes agentes dependerem de um só comando central a nível nacional. Aqui fica o seu depoimento.

“Para nós, seria o melhor, até pela segurança jurídica e profissional que poderíamos obter. Não queremos nada mais a não ser isso: poder servir todos os cidadãos, não apenas uma parte, como nos disseram para fazer até agora, através de ordens que eram elas mesmas pouco claras. O melhor para nós seria depender de um comando, que emita ordens claras, para que todos saibam o que fazer.

Estamos muito preocupados com esta ausência de ordens claras por parte dos nossos superiores e com a forma como são comunicadas aos agentes. É uma situação que gera insegurança entre nós.

As instruções que foram dadas à medida que o referendo se ia aproximando serviram para nos acalmar, porque nos garantiam que estávamos protegidos pela lei. Mas ninguém nos explicou se era pela lei autonómica criada especificamente para o caso ou a que já está em vigor e devemos cumprir. Também nos asseguraram que não ia haver consequências.

Ainda nem tudo foi revelado. Foram divulgadas apenas as imagens dos companheiros – “companheiros”, entre aspas, não sei se os considero como companheiros – a mostrar como estavam a tentar ajudar a população, como faziam o mínimo possível para fazer que encerravam as mesas de voto. A grande maioria das imagens não foi publicada, as que mostravam profissionais a realizar o seu trabalho. Talvez houvesse falta de meios… Havia dois agentes por mesa de voto. Se não podiam efetuar o trabalho fisicamente, podiam tê-lo feito doutras formas, exercendo a sua autoridade.

Em termos gerais, costumamos ter muito boas relações entre todos: polícia local, Mossos, Guardía Civil… Fazemos todos a mesma função no território nacional, ou seja, o nosso trabalho é igual: servir os cidadãos. As relações são ótimas, tirando alguns casos pontuais.

Os Mossos sempre encararam o futuro de forma positiva, porque há um espírito de prestar serviço. Continuamos e continuaremos a servir toda a população da Catalunha e de Espanha. O facto de terem pretendido fazer de nós polícias só dos independentistas não impede que o resto dos cidadãos tenha também a sua polícia. O que é importante é retirar o caráter político que atribuíram a esta força policial e colocá-la ao serviço de todos os cidadãos”.

Do lado oficial dos Mossos d’Esquadra, estas acusações não fazem sentido, até porque há mecanismos internos que permitem denunciar situações anómalas.

“Para se poder criticar ou elogiar o desempenho da polícia, é preciso ter todos os elementos em cima da mesa. Não podemos dar opiniões apenas baseadas em posições pessoais. De qualquer maneira, há mecanismos internos dentro da nossa organização, que existem desde que ela foi criada. Os agentes podem expressar as suas opiniões ou críticas, se for o caso, através da cadeia de comando”, afirma o inspetor Albert Oliva.

A atuação da polícia catalã foi fortemente criticada pela polícia nacional. As relações entre as duas forças deterioraram-se consideravelmente.

Segundo Ramón Cosío, porta-voz do sindicato da polícia, “os Mossos não cumpriram a sua função enquanto polícias. Nunca houve uma situação idêntica num país ocidental: uma força policial que não acata as ordens de um juiz ou que desobedece às instruções do Ministério da Administração Interna. A polícia não está ao serviço de nenhum partido político, nem de interesses políticos, nem de nenhuma ideologia. Estamos aqui para trabalhar pela segurança pública, é a nossa função. Quando os Mossos d’Esquadra voltarem a assumir esse papel, com o qual a sociedade conta, a tensão pode apaziguar-se”.