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Ventos de Mudança em Angola

A segunda parte da conversa da euronews com o diretor do jornal angolano Expansão, Carlos Rosado de Carvalho, sobre as recentes mudanças em Luanda.

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Ventos de Mudança em Angola

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Cinquenta e poucos dias de governação e João Lourenço já começou a deixar marcas e a surpreender. São muitas as exonerações já concretizadas, as digamos mais emblemáticas foram os afastamentos dos dirigentes da Endiama, a empresa estatal responsável pelos diamantes angolanos mas, mais ainda, o de Isabel dos Santos, da presidência do conselho de administração da Sonangol e da maioria dos seus administradores.

À euronews o diretor do jornal angolano “Expansão” explicou que as mudanças são normais, principalmente num país como Angola:

“Angola é um país onde o Estado tem um peso muito grande, onde as empresas públicas são muito importantes. Por exemplo, não é possível governar Angola sem que exista um controlo, e uma sintonia, entre o Presidente da República e o Presidente da Sonangol, acho que é uma tarefa impossível” adianta o diretor do jornal angolano Expansão, Carlos Rosado de Carvalho.

Explicações, oficiais, sobre o que levou o novo chefe de Estado a afastar a filha mais velha de José Eduardo dos Santos, não há. O Jornal de Angola falava dos resultados de uma análise ao setor petrolífero, pedida pelo Presidente e que dava conta da ineficácia e excesso de burocracia da Sonangol, que resultava em perdas, significativas, em termos financeiros, para o setor e seus operadores, nacionais e estrangeiros.

No rescaldo da demissão Isabel dos Santos refuta as acusações. Nas redes sociais publicou um comunicado falando do bom desempenho da sua administração, da visibilidade positiva em termos internacionais e apresentando números.

Mas não foram só os dois setores principais da economia angolana que foram renovados. A dança das cadeiras afetou grande parte das empresas estatais, entre eles a rádio e televisão públicas. João Lourenço exonerou as administrações e os diretores de informação e, pediu aos novos dirigentes que “sirvam de facto o interesse público”. Mandou que se acabasse com o contrato com a Semba Comunicação, que geria os canais 2 e internacional do grupo estatal de televisão, e detido por outros dois filhos do ex-chefe de Estado.

O diretor do “Expansão” diz que há muito caminho pela frente, até porque há vícios do passado mas diz também que já se vêm mudanças:

“João Lourenço é, exatamente, uma mudança de 180 graus, na mídia pública. Nós já vemos o telejornal e os principais noticiários da rádio, e também o Jornal de Angola a mostrar uma Angola que era até aqui desconhecida para essa mídia. Mas eu acho que é preciso ir ainda mais longe, ainda não vemos a oposição. Os partidos políticos da oposição a terem um tratamento minimamente igual”.

A questão que permanece por responder é o que acontecerá a José Filomeno dos Santos, esta sexta-feira chegou a falar-se que o filho de José Eduardo dos Santos, presidente do conselho de administração do Fundo Soberano de Angola teria pedido demissão, informação já negada pelo organismo. Para o responsável do periódico angolano, com quem a euronews falou, só há duas opções: a exoneração ou a demissão pelo próprio, o que parece que não acontecerá. Já que, e dadas as informações divulgadas nos Paradise Papers, e que dizem que o Fundo terá dinheiro em paraísos fiscais, João Lourenço não manifestou, até ao momento, confiança neste responsável.

Angola vive um novo momento, os angolanos estão, em geral satisfeitos com o rumo da governação, mas como não há bela sem senão, esta é uma lua-de-mel que não vai durar para sempre:

“Seria bom que, independentemente da evolução do preço do petróleo, que Angola tomasse algumas medidas do ponto de vista económico que garantissem a sustentabilidade da nossa economia, uma menor dependência do petróleo, umas finanças públicas mais sãs, e isto passa pela adoção de algumas medidas que podem ser duras, e aí vai surgir o espaço para a oposição”, diz Carlos Rosado de Carvalho.

Uma revolução tranquila parece estar a operar-se em Angola, mas é preciso tempo para saber se João Lourenço será, de facto, o arquiteto da mudança.