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Segurança alimentar: será que os europeus podem confiar no que consomem?

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Segurança alimentar: será que os europeus podem confiar no que consomem?

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A indústria alimentar, um dos maiores setores da indústria transformadora na Europa, tem estado no centro das atenções. No entanto, não é pelas melhores razões. Basta recordar o escândalo em torno do leite infantil Lactalis, os ovos contaminados e a controvérsia que envolve o debate em torno da renovação da licença do glifosato, a principal substância utilizada em vários herbicidas, tudo isto tem vindo a afetar a confiança dos consumidores. Resta perguntar, quão seguros são os alimentos na Europa?

Point of view

"Quer se coma uma maçã em Parma ou em Lisboa, podemos estar seguros de que a segurança destes produtos está garantida"

Bernhard Url Diretor-executivo da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar

Euronews: Bernhard Url é o diretor-executivo da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar, com sede em Parma em Itália. Sr. Url, benvindo à euronews. Gostaria de começar com uma questão pessoal. Compra e consume alimentos orgânicos?

Bernhard Url: Sim, eu compro alimentos orgânicos mas não exclusivamente. Faço uma mistura.

Euronews: É isso que recomenda às pessoas?

BU: Penso que se trata de uma questão de diferenciação de qualidade. Não se trata de uma questão de segurança alimentar mas sim de qualidade e da forma como os alimentos são produzidos. Penso que a diferença está na forma como as plantas são cultivadas, os animais são tratados. Existem diferenças e é bom ter alimentos orgânicos.

Euronews: Hoje em dia, as pessoas falam muito sobre segurança alimentar. Tivémos a controvérsia do glifosato há poucos meses, depois um escândalo sobre ovos contaminados e agora a questão da Lactalis. Perante esta situação, quão confiantes podem estar os consumidores europeus sobre os alimentos que consomem?

BU: Nessa questão penso que temos boas notícias para os consumidores europeus. Eles podem confiar no que comem. A segurança alimentar é um dos tópicos principais na agenda dos produtores alimentares e das instituições europeias. Basta olhar para os últimos 15 anos, quando entrou em vigor a lei geral sobre alimentos na Europa em 2002. Fez uma enorme diferença. E quer se coma uma maçã em Parma ou em Lisboa, podemos estar seguros de que a segurança destes produtos está garantida.

Euronews: A questão da Lactalis domina a atualidade. Sei que a sua formação académica inclui a higiene e tecnologia de lacticínios, que acho um tema muito interessante. Na sua perspetiva, o mecanismo de crise está a funcionar? Será forte o suficiente para lidar com questões como esta da Lactalis?

BU: Nada é de risco zero. Pode acontecer. É provável que seja uma contaminação ambiental e nesse caso, o objetivo é a deteção e comunicação rápida de forma a organizar-se uma recolha de produtos.

Foi isto que se passou em França, feito pela empresa mas também as autoridades competentes.
Na Europa existe um sistema de alerta rápido através do qual um estado-membro alerta os outros estados sobre quaisquer incidentes ocorridos com alimentos. Isto também aconteceu no caso Lactalis em dezembro. O sistema na Europa é robusto e funciona.

Euronews: A agência que dirige examina com frequência dezenas de produtos e substâncias mas apenas uma mereceu destaque no ano passado, o glifosato. A sua agência fez parte de um processo controverso de tomada de decisões. Quais foram as lições retiradas do glifosato?

BU: O glifosato foi um caso em que trabalhamos de forma estreita com os estados-membros. Todos os 28 países chegaram à mesma conclusão que nós. E a agência química europeia chegou à mesma conclusão que nós, assim como a OMC, a Suíça, os Estados Unidos e o Canadá... assim, de um ponto de vista científico, a questão é clara. Politicamente, a discussão é muito diferente. Trata-se de uma questão de quais práticas agrícolas e modelos de produção queremos ter na Europa, é uma questão de utilização de agroquímicos na produção agrícola.

Euronews: Uma das questões levantadas durante o debate foi a transparência. As pessoas disseram que o processo era muito opaco, não há transparência. O que diz a isto?

BU: A Autoridade Europeia de Segurança Alimentar publicou cerca de 6000 páginas de documentos de enquadramento sobre o glifosato. Mas existe uma questão que requer uma resposta política. E trata-se da tensão existente entre a total transparência dos dados que utilizamos para fazer uma avaliação. Gostavamos de publicar todos estes dados, são dados científicos e a ciência requer abertura e escrutínio. Mas existe igualmente um interesse legítimo por parte da indústria em torno da confidencialidade. Trata-se desta tensão entre transparência total e a proteção dos direitos de propriedade intelectual da indústria. Isto não é uma questão científica. Requer uma resposta política.

Euronews: Já apelou por várias vezes ao aumento do orçamento para a sua agência. Se tivesse acesso a fundos ilimitados, o que é que faria com o dinheiro? Onde investiria e onde faria melhorias?

BU: Necessitamos de mais dinheiro ao nível de preparação para riscos futuros, esta é uma das missões da Agência. Quais serão os riscos futuros derivados da globalização, devido às migrações, mudanças climáticas, novas tecnologias, novas formas de cultivar plantas, nanotecnologia? Que novos perigos e riscos vão surgir e como podemos evitá-los. É aqui que devemos investir, na preparação.