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O Movimento 5 Estrelas e o possível mais jovem primeiro-ministro de sempre

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O Movimento 5 Estrelas e o possível mais jovem primeiro-ministro de sempre

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Falta cerca de uma semana para as eleições gerais italianas de março, que têm lugar depois da dissolução do parlamento pelo presidente da República Sergio Mattarella, em dezembro do ano passado.

O escrutínio tem lugar numa Itália que passou o pico de duas crises, tal como o fez a Europa: a crise económica e financeira, que destruiu postos de trabalho e castigou a classe média de um dos países mais industrializados do mundo, mas também a chamada crise dos migrantes e refugiados. A Itália é um dos países na linha da frente, com a sua costa para o mediterrâneo.

Foi no marco de um crescente descontentamento por parte do eleitorado que um conhecido comediante italiano, Beppe Grillo, deu voz a uma plataforma de protesto, o Movimento 5 Estrelas.


Transformado em partido, o M5S (sigla em italiano, Movimento Cinque Stelle), conseguiu 109 lugares na Câmara dos Deputados.

Se Grillo foi a voz dos descontentes e Luigi di Maio a cara, Gianroberto Casaleggio foi o mentor.

Fundador de uma pequena consultora na cidade de Milão, Casaleggio tinha em mente a ideia da democracia participativa, com o papel fundamental das redes digitais e de uma cidadania ativa.

O atual líder do Movimento, o jovem napolitano Luigi di Maio, passou de ser um desempregado que tinha desistido dos estudos de Direito na universidade, a ser o mais forte candidato ao cargo de primeiro-ministro – com apenas 31 anos.

A ascenção de di Maio na cena política italiana é um fenómeno sem precedentes desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Começou por apresentar-se às eleições de 2013, sem qualquer experiência em cargos políticos. Nem mesmo em polítia local.

Venceu um lugar na câmara baixa, em Roma, com menos de 200 votos. Concorreu por uma das circunscrições da Região de Campania.

Pouco tempo depois, é eleito vicepresidente da Câmara dos Deputados. O mais jovem da história da instituição.

Agora, as sondagens indicam que poderia encontrar-se, dentro de menos de 10 dias, em condições de ser o mais jovem cidadão italiano a formar Governo no país transalpino.

A Euronews falou com Paolo Picone, jornalista que acompanha a trajetória de di Maio.

Picone explicou ao nosso correspondente em Roma que di Maio é criticado porque “não tem uma licenciatura.”

“Não quero ser advogado do diabo.
Mas, se tivermos em conta que o ministro da Educação não tem uma licenciatura, nem o ministro da Saúde, porque haveria Luigi di Maio de ter um diploma para ser primeiro-ministro? Precisa é de tempo para desenvolver competências,” explicou Picone.

Em 2013, di Maio foi um dos cerca de 160 cidadãos sem qualquer experiência em cargos políticos a conseguir um lugar no parlamento.

Na altura, os eleitos do M5S prometeram honestidade e transparência.


Mas, Nicola Biondo, antigo responsável pela comunicação do Movimento, disse é Euronews que nada disso aconteceu:

“Comportaram-se como crianças na escola quando não está o professor ou o diretor. A legislatura de 2013 começou com eles a discutir sobre os gastos a que tinham direito e sobre mesadas, sobre dinheiro”.

Além disso, os membros do parlamento do Movimento 5 Estrelas disseram que iriam doar metade do salário, já que este era “demasiado elevado.”

O objetivo, explicou-se na altura, era criar um fundo para desenvolver pequenas e médias empresas.

No entanto, em fevereiro, a imprensa divulgou que vários nunca o fizeram.

Nicola Biondo fala de uma situação “quase irónica”, porque o Movimento nasceu “com grandes promessas de uma política com zero custos.”

“Infelizmente, a realidade foi mais forte do que os princípios.”

Depois da morte do consultor digital Gianroberto Casaleggio, em 2016, há quem tema, em Itália, que a herança política por ele deixada esteja a ser mal usada pelo filho, Davide Casaleggio.

Os críticos dizem que Davide não tem a mesma consciencia polítca que o seu pai e que poderia abusar do poder que lhe foi legado.

Marco Canestrari é um dos críticos. Antigo braço direito de Grillo, explicou à Euronews que quem tem acesso ao portal criado pelo pai de Davide Casaleggio tem muito poder:

“Quem gere aquele portal tem acesso a todo o tipo de dados. E sabe tudo o que acontece dentro do Movimento 5 Estrelas. Sobre todas as votações. E essa pessoa é Davide Casaleggio e quem trabalha com ele. E são muitas pessoas. Isso significa que esta pessoa terá um certo poder político. E tem um poder negocial muito forte, especialmente perante quem queira junta-se ao Movimento. Ainda que (ele) diga que nunca verificou quem votou e sobre o quê, é obvio que pode fazê-lo. E que as pessoas assim não falam livremente e de forma sincera. Gianroberto foi traido e as ideias dele foram traídas, fossem elas boas ou más.”

Numa entrevista dada ao diário La Stampa, em 2016, Marco Canestrari falou no M5S como uma instituição que “já tinha sido uma comunidade” e que agora era apenas “uma guerra pelo poder.”

Apesar das críticas na imprensa, dos abandonos da parte de cargos importante e de um futuro político dominado por um sistema conhecido pela sua instabilidade, a verdade é que o Movimento 5 Estrelas e o seu líder, Lugi di Maio, têm ainda motivos para sorrir.

Uma sondagem, realizada pelo instituto Ixé e publicada no Il Fatto Quotidiano, diz que o M5S cresce (28,3%). Mas não é o único. O Forza Italia (centro-direita) de Sílvio Berlusconi, também sobe nas intenções de voto (18%), ainda que continue terceiro nas intenções de voto.

Se as formações de Berlusconi e di Maio subiram na sondagem publicada na semana passada, o Partido Democrático (centro-esquerda), conta com 21,5% das intenções de voto – uma descida de 0,6%.
Com António Oliveira e Silva