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Igreja Baptista de Dnipro acolhe milhares de deslocados

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De  Nara Madeira  com LUSA
Igreja Batista de Dnipro, na Ucrânia, acolhe deslocados pela guerra
Igreja Batista de Dnipro, na Ucrânia, acolhe deslocados pela guerra   -   Direitos de autor  LUSA   -  

A Igreja Baptista de Dnipro, na Ucrânia, é hoje um centro logístico e ponto de passagem de milhares de deslocados que fogem da guerra no leste e sul do país. Pessoas que são depois são transferidas para locais mais seguros, no oeste da Ucrânia ou para fora do país.

Ali encontram calor humano, conforto e alguma esperança, podem "aquecer-se, (...) dormir bem. Não há bombardeamentos", explicava o pastor Sergii Syzonenko, acrescentando que "ajudar os homens é fazer o trabalho de Deus".

"É um sítio para refugiados que querem fugir da guerra. (...) vêm sem nada, só com a sua história e a roupa no corpo".
Pastor Sergii Syzonenko
Igreja Batista de Dnipro

Os bancos da igreja servem hoje de camas com vista para o altar, como o próprio pastor referia, os espaços para as aulas de catequese são dormitórios, "quando não há colchões, há esferovite ou espuma”, referia o pároco. A cave transformou-se num grande armazém de bens doados.

Partir com histórias terríveis na bagagem

Os pertences que estas pessoas levam consigo são poucos, mas a bagagem que carregam, os mais e os menos novos, com histórias de dor de quem só quer sobreviver, é muito pesada. Syzonenko contava que ouvem "muitas histórias de refugiados de Karkhiv, Mariupol. Há testemunhos de algumas pessoas que são histórias terríveis, mas pessoas sobreviveram" e este é um ponto de passagem no caminho para, espera-se, um lugar melhor.

Nas duas primeiras semanas de guerra retiraram de Kherson, Mariupol, Bergyansk, todas as pessoas que conseguiram. Agora, os dois autocarros da congregação vão buscar civis a Sievierodonetsk, junto a Lugansk, uma área que é alvo de bombardeamentos aéreos das tropas russas, a partir de Donbass, zona controlada por independentistas apoiados por Moscovo.

Ajudar quem precisa de apoio sem olhar aos perigos

Mas o caminho não é fácil. Os «checkpoints» multiplicam-se e, como explicava Nadia, uma das voluntárias, _ muito perigoso, há tiros"_, muitas vezes não os deixam passar, mas isso não os faz desistir.  

Por outro lado, "os corredores humanitários são muito perigosos e não funcionam muito bem", explicava o pastor, lamentando a situação dos civis que permanecem nas suas casas, em cidades ocupadas pela Rússia.

Por ali já terão passado mais de 3.500 pessoas, é difícil manter as contas em dia. Diariamente, este centro de acolhimento serve 250 refeições, comida doada e confecionada pelos restaurantes da cidade.

Ainda que este seja "um sítio seguro, longe da guerra", como explicava o referenciado clérigo, a grande preocupação são os mais idosos e os deficientes que precisam de ajuda particular que o país não pode dar-lhes.

"A Ucrânia não tem capacidade para ajudá-los, faltam condições, medicamentos e recursos. É melhor que eles saiam de cá durante a guerra".
Sergii Syzonenko
Pastor da Igreja Batista de Dnipro

Este pastor retirou parte da sua família da cidade onde vivia, há poucos dias. _"_Até há uma semana, a minha mãe estava em Bergyansk, sem comida, sem aquecimento", explicava, mas custou muito, em termos monetários, trazê-la para perto de si. A mãe, Galina, de 79 anos, recordava os últimos dias antes de partir: "foi tudo destruído pelos russos. Puseram tanques junto da minha casa e houve muitos combates. Tive de fugir, mas quero voltar".

Naquela cidade, um porto importante do Mar de Azov tomado, logo no início do conflito pelos russos, "o governo ucraniano deixou medicamentos, como insulina", mas no final do mês já não haverá nada e, referia Syzonenko cuja irmã vive ainda na cidade, "o novo poder russo não lhes deu nada".

De pastor a conciliador

"Somos fazedores de paz e fazemos tudo para ajudar a parar esta guerra", frisava o pastor, acrescentando que sabe que muitas pessoas que os procuram têm "problemas emocionais e traumas por causa dos bombardeamentos", e admitia sentir-se muito desgastado.

"Sou apenas um pastor, mas funciono como psicólogo, choro, rezo, abraço-os, ouço-os. Muitos deles estão destruídos fisica, emocional, psicologicamente e, claro, mentalmente".
Sergii Syzonenko
Pastor da Igreja Batista de Dnipro

Mas a "vida tem de continuar apesar da guerra", reconhecia Syzonenko. Em Dnipro, "as coisas são boas. Há água e recursos para as pessoas voltarem a sorrir”, dizia, mas cada dia é um dia. O serviço da igreja batista continua. Uns dias fazem-se casamentos, noutros funerais.

Editor de vídeo • Nara Madeira