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A máfia está a financiar a economia - diz Roberto Saviano

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A máfia está a financiar a economia - diz Roberto Saviano

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Roberto Saviano ganhou, em 2008, o Prémio Europeu do Livro, com a sua obra “A Beleza e o Inferno”, embora tenha sido a denuncia que fez da camorra que lhe deu notoriedade internacional.

Nesta entrevista à EuroNews, Saviano explica o fenómeno da Máfia e como os seus métodos se expandem, desde o sul de Itália, por toda a Europa. E como a máfia se aproveitou da crise internacional, para se transformar num agente político.

Roberto Saviano: “A crise económica criou grandes oportunidades para as máfias mais fortes, as ganhadoras. Mas teve um impacto negativo, nas mais débeis, as perdedoras. Algumas organizações criminais na Nigéria, Rússia, Nápoles e Córcega injectaram liquidez na economia, durante a crise. Graças a essa liquidez conseguiram influência em algumas áreas, como a construção e o sistema bancário”.

EuroNews: São úteis, neste momento, porque estão a impulsionar a circulação de dinheiro, é isso?

RS: Exactamente. Ãs vezes pergunto-me se, sem esse dinheiro, a crise em Itália, assim como na Europa, não teria sido pior. Segundo o promotor italiano anti-máfia, os seus lucros atingem 100 mil milhões de euros por ano e isso só em Itália. Imaginem, por exemplo, os números dos resultados dos carteis sul-americanos, em Espanha. O que seria da Europa, sem o dinheiro proveniente do tráfico de droga?

EN: Do seu ponto de vista, os governos, especialmente o italiano, estão a pensar nos problemas internos, confrontando-se com essas organizações?

RS: “Em Itália, o Estado não tem uma estrutura monolítica. É um país complexo. Podia dizer-se que algumas instituições mostram boas intenções e enfrentam, na prineira linha, o fogo que põe em risco as suas vidas. Outras estão profundamente comprometidas, com o crime organizado. De qualquer forma, penso que as medidas repressivas não são a melhor maneira de resolver o problema”.

EN: Qual seria o melhor instrumento?

RS: “Uma mudança política e económica”

EN: Como?

RS: “Pensemos, por exemplo, nos mecanismos públicos, onde as máfias levam sempre a melhor, sobre os seus concorrentes, graças aos baixos preços que podem oferecer e que são compensados com o dinheiro obtido, no tráfico de droga”

EN: Isso é a lógica da economia actual, não é?

RS: “Exactamente. A Itália, sozinha, não pode fazer nada contra isto. Os paraísos fiscais são refúgios para a máfia, são especialmente refúgios para Máfia”.

EN: O senhor desencadeou uma forte controvérsia em Itália, quando insinuou eventuais relações, entre o crime organizado e a Liga do Norte, um partido político que faz parte da coligação que governa a Itália. Também é o partido do ministro do Interior. Tem alguma evidência dessas relações?

RS: “Eu disse que a máfia da Calábria, ‘la ndrangheta’ contactou com a Liga e posso confirmar, poque a máfia está habituada a contactar com as instituições e o poder. Eu apenas mencionei uma investigação que está apta a desvendar novas pistas, como contactos, contactos úteis que representariam o desejo de controle dos registos eleitorais do partido e de corrumper políticos, mas o magistrado deve investigar”.

EN: Pode dar um exemplo?

RS: “Segundo as investigações criminais que estão a ser levados a cabo pelos magistrados Bocassini e Pignatione, descobriu-se que a ‘ndrangheta” quer encontrar-se com a Liga do Norte. Nas fitas gravadas com escutas feitas ao padrinho Pino Neri, ouve-se falar da Liga do Norte e ouve-se falar da vontade de estabelecer relações com o partido”.

EN: Mas eles foram recebidos pela Líga do Norte?

RS: “Digamos que se encontraram com um eleito municipal, mas este conselheiro disse, mais tarde, que nem sequer sabia quem era Pino Neri. Os magistrados investigaram. Mas isto é suficiente para mostrar como também, no norte de Itália, as máfias e as instituições falam, entre si. Isto que eu disse não é nenhum escândalo. Parece um escândalo, porque falei de um partido do norte. Se tivesse falado de um partido do sul, todos consideravam as minhas declarações como coisa normal. Porque os contactos entre a camorra e os partidos políticos locais, no sul, é uma coisa corrente. O meu objectivo era afirmar, publicamente, que ninguém se pode considerar protegido”.

EN: O actual ministro do Interior, Maroni, é considerado um dos políticos mais efectivos, na investigação das máfias, na história recente de Itália. Está isto certo?

RS: “Sim, mas parcialmente, porque a actuação decisiva contra a máfia não é apenas devida a Maroni. Ele tomou a ser cargo as investigações que estã a decorrer, há anos. É o caso de Caserta, perto de Nápoles. É um caso positivo, mas proclamar uma vitória sobre a máfia é simplesmente uma piada”.

EN: Depois da queda dos regimes socialistas, o crime organizado cresceu. Porquê? Qual é a relação?

RS: “Por um lado, as empresas legais estão com medo de investir, com medo de grandes perdas. Por outro lado, havia a velha guarda comunista, com medo de perder o seu lugar no poder. Então, fez-se uma espécie de aliança com a qual a máfia emprestou dinhheiro e protegeu alguns políticos. A máfia também contactou homens de negócios vulgares que procuravam um caminho para saltar os trâmites burocráticos. Queres abrir em fábrica em Tirana? Muito bem, então tenta fazê-lo por tua conta. Mas tens de pagar umas comissões e enfrentar uma burocracia inoperante. Mas se te deixares ajudar pela máfia, eles tratam de tudo em três semanas. Com isto, transformaram-se no novo sistema nervoso dos investidores. É importante estudar em profundidade o que a máfia fez na Europa de leste, porque impulsionou a economia. Inclusivé, numa lóguica de mercado livre, porque também assumem riscos”.