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Roza Otunbayeva: "As pessoas que ordenam massacres não podem ser perdoadas"

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Roza Otunbayeva: "As pessoas que ordenam massacres não podem ser perdoadas"

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Roza Otunbayeva, presidente do Quirguistão

Knarik Papoyan, jornalista

Roza Otunbayeva, chefe de Estado do Quirguistão, esteve envolvida nas revoluções que levaram à queda dos presidentes corruptos: Askar Akayev, em 2005, e Kurmanbek Bakiev, cinco anos depois. Assumiu as funções de presidente do período transitório até ao final do ano. Declarou guerra à corrupção, aos sistemas de clãs, ao nacionalismo e ao radicalismo religioso. A euronews entrevistou-a em Paris.

Knarik Papoyan, euronews: O Quirguistão é a única república parlamentar na Ásia Central. Como foi tomada esta decisão?

Roza Otunbayeva, presidente do Quirguistão: Há um ano, os vários partidos políticos estavam unidos na oposição. Ao ver as raízes do regime corrupto de Kurmanbek Bakiev, compreendemos que havia apenas uma direção, através de uma forma de governo parlamentar. Hoje, com este facto consumado, ainda temos muitos desafios e riscos. Mas na altura estávamos convencidos de que tínhamos de mudar a forma de governação. A 7 de abril, quando 87 pessoas foram abatidas a partir do telhado da sede do Parlamento, compreendemos que era necessária uma mudança de poder.

euronews: Que medidas vai tomar em relação ao antigo presidente Bakiev?

R. Otunbayeva: Ele está na Bielorrússia e recebeu uma espécie de asilo. Os recentes acontecimentos em África permitiram-nos ver as coisas de um ponto de vista diferente. Admitimos que este género de pessoas, que ordenam massacres, não podem ser perdoadas.

euronews: Portanto insiste na extradição?

R. Otunbayeva: Sabemos onde se encontra. Insistimos também na extradição do filho, que vive em Londres…

euronews: Maxim Bakiev?

R. Otunbayeva: …e a extradição dos irmãos, em especial um deles, o que era chefe dos serviços de Segurança. É o homem que esteve envolvido em todas as atrocidades cometidas no nosso país. Não ficamos indiferentes ao facto de que muitos dos nossos pedidos continuam a ser ignorados por certos países. Sabemos também que alguns dos aliados de Bakiev conseguiram o estatuto de refugiados e mesmo a nacionalidade, graças aos grandes investimentos feitos nesses países, com dinheiro roubado.

euronews: Faz referência às revoluções no mundo árabe. Com base na sua experiência, qual é o seu conselho? Que erros é que os governos devem evitar nesta fase de transição para que as novas autoridades não caiam na corrupção, tal como as precedentes?

R. Otunbayeva: Bem, o mais importante é não perder tempo. Temos de fazer o que é necessário. Cada dia perdido pode ser fatal. Quando há este género de acontecimentos, todos os resíduos vêm à superfície, resíduos que deveriam, normalmente, ficar no fundo. Saem das profundezas. Por isso, precisamos de tomar decisões firmes para os voltar a mergulhar. Uma sociedade minada ou influenciada pela criminalidade não tem futuro. Por isso, é necessário ter um plano de ação claro e firme. As pessoas sempre apoiam as autoridades ou os novos líderes que querem, realmente, limpar o país.

euronews: O Quirguistão é o único país do mundo que acolhe bases militares russas e americanas. Não considera esta coexistência problemática?

R. Otunbayeva: É a atual situação política no Quirguistão. Certamente, pode parecer um paradoxo visto do exterior, mas para nós, esta política é lógica e clara.

euronews: Qual será o futuro da base americana no aeroporto de Manas? Há um calendário claro para o encerramento?

R. Otunbayeva: Sim, há já algum tempo, durante a administração Bakiev, foi assinado um tratado que limita a presença até 2014. Dois mil e onze será marcado pela retirada de todas as forças da Aliança do Afeganistão. Eu considero que os acordos devem ser respeitados.

euronews: O seu país é, por vezes, tido como o palco onde se sobrepõem os interesses geopolíticos de três países: Rússia, China e Estados Unidos. Qual é o vetor da política externa quirguize?

R. Otunbayeva: Penso que temos de ter em conta os interesses de todos esses países, os nossos grandes parceiros. Isso não é necessariamente mau. É também uma vantagem. Temos uma localização estratégica na Ásia e os interesses dos três países concentram-se no nosso território. Temos de tirar benefícios desta nossa vantagem.

euronews: Nos últimos dias esteve em Bruxelas para encontrar os líderes da União Europeia e da NATO. Que ajuda espera da Europa?

R. Otunbayeva: A União Europeia é o segundo maior doador do Quirguistão, após o Banco Mundial. Por isso, durante os encontros com os líderes da União Europeia, falamos das nossas circunstâncias financeiras, do grave défice orçamental que temos na república, dos desafios da expansão democrática, da necessidade de adaptar o sistema parlamentar. Precisamos de consolidá-lo. Temos de recriar o sistema judicial no Quirguistão, de formar os jovens jornalistas. Esta foi a lista de assuntos que discutimos em Bruxelas.

euronews: Um dos peritos da Ásia Central considerou-a como uma política brilhante e dinâmica, notando, ao mesmo tempo que, “ao contrário dos homens políticos do Quirguistão, com objetivos pragmáticos, as suas expectativas são mais românticas. Pensa que há espaço para o romantismo na política?

R. Otunbayeva: Bem, penso que há espaço para o romantismo. Mesmo se a situação não é apropriada. Vivemos num ambiente complexo e difícil. Mas o lado romântico é que a nossa sociedade não é composta apenas de revolucionários, mas também de poetas, não apenas de economistas pragmáticos, mas também de jovens homens e mulheres com os corações repletos de sonhos e esperança. Todos nós estamos ávidos de fazer avançar a sociedade, para que as nossas crianças tenham um futuro melhor.

euronews: É por aqueles que sonham que escreveu no seu blog, “basta de conversa política, vamos ler poesia”?

R. Otunbayeva: ….aconteceu, de facto!