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"Não temos vontade nem força para solucionar os nossos problemas com a Turquia por meios militares", Demetris Christofias, Presidente cipriota

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"Não temos vontade nem força para solucionar os nossos problemas com a Turquia por meios militares", Demetris Christofias, Presidente cipriota

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O Chipre assumiu, há pouco mais de um mês, a Presidência rotativa da União Europeia, na mesma altura em que pediu ajuda financeira, aos parceiros europeus, devido à crise da dívida soberana. O país tem uma agenda, para seis meses, marcada pela crise económica.

Euronews:

A Euronews dá as boas-vindas ao Presidente do Chipre, país que há pouco assumiu a presidência rotativa da União Europeia. Qual é a coisa mais importante que pretende alcançar nos próximos 6 meses?

Demetris Christofias:

Junto com a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu – fazemos todos parte e somos uma parcela da União Europeia – precisamos avançar com um programa para tentar resolver os problemas económicos. A principal prioridade será negociar, no quadro financeiro plurianual, que será debatido, até dezembro, com os 27 membros da UE, em particular os da Zona Euro, e com todas as instituições.

Não podemos solucionar a crise económica, exclusivamente, com políticas de austeridade orçamental. Não podemos avançar sem o desenvolvimento, sem a criação de emprego, sem uma distribuição mais gradual ou mais justa da riqueza produzida na União Europeia. Esta é nossa filosofia geral.

Euronews:

Fala de austeridade, o que pretendo saber é se é um comunista a falar. A sua ideologia não é partilhada por muitos políticos europeus. Como é que as suas visões comunistas afetarão a presidência cipriota e a política de toda a União Europeia?

Demetris Christofias:

Antes de assumir a presidência da República do Chipre deixei claro que não tentarei implementar a minha própria ideologia Comunista. Usarei o sistema capitalista, mas de uma forma justa. Talvez o capitalismo seja desumano mas, ao mesmo tempo, podemos ter uma distribuição mais justa da riqueza sem introduzir um regime comunista. Eu sou membro de um partido político de pessoas que trabalham, é um partido progressista. É altura de resolver os problemas quotidianos das pessoas. Mais tarde veremos como lidar com a questão ideológica.

Euronews:

Estudou na Rússia, fala russo. Isso quer dizer que Bruxelas vai prestar mais atenção às relações com a Rússia, enquanto for presidente da UE?

Demetris Christofias:

Penso que a União Europeia deve ter relações de amizade e cooperação com a Rússia, que também faz parte da Europa, temos que ter consciência disso. Se e quando for necessário desempenharemos um papel importante nessa matéria.

Euronews:

Espera-se que o Chipre conduza outros países para fora da crise. Mas a verdade é que o Chipre está à procura de ajuda financeira. Como se conjugam estas contradições?

Demetris Christofias:

Não penso que haja um conflito ou contradição. O facto do Chipre precisar de ajuda externa, para recapitalizar alguns bancos, que foram contagiados pela Grécia, não significa que não devamos trabalhar para o benefício de outros países que precisam de ajuda. Penso que no Chipre não temos grandes problemas em termos de disciplina orçamental. O nosso maior problema foi a exposição dos bancos e isso será resolvido com ajuda europeia.

Euronews:

Para a maioria dos países europeus, o Chipre é uma ilha remota no Mediterrâneo. A vossa localização geográfica pode ser, neste momento, uma vantagem?

Demetris Christofias:

Por causa disso, por ser um local na fronteira sulista da União Europeia, o Chipre pode ter um papel muito importante como ponte para uma compreensão comum, amizade e cooperação entre a UE e os países da região, no Médio Oriente e no Norte de África. Temos relações muito boas com os países que passaram pela Primavera Árabe.

Euronews:

Como é que a UE vai lidar com a recusa turca em cooperar em muitas questões durante a presidência cipriota?

Demetris Christofias:

Penso que é lamentável que o governo turco tenha enviado mensagens diferentes no passado e agora se faça de duro. A minha mensagem à Turquia é que deve respeitar a República do Chipre como membro da União Europeia.

Euronews:

Quais pensa que serão os benefícios da vossa presidência da UE para a reunificação?

Demetris Christofias:

O facto de uma parte do Chipre estar ocupada por forças militares do país vizinho, que aspira a ser membro da União Europeia, é, em si mesmo, contraditório. Não temos vontade nem força para solucionar os nossos problemas com a Turquia por meios militares. Temos que encontrar meios pacíficos, desenvolver o diálogo. Sugeri isso várias vezes a Erdogan e Gul mas, infelizmente, eles não me reconhecem como Presidente da República do Chipre.

Euronews:

Em que é que o Chipre vai ser diferente dos seus antecessores na presidência da União Europeia: Dinamarca, Polónia e outros?

Demetris Christofias:

Não devemos esperar uma revolução por parte do Chipre dentro da União Europeia. No entanto, e devido à filosofia de que falei, fico feliz por dizer que o Conselho começa a ser um pouco menos liberal. Passámos à política da solidariedade entre as pessoas e Estados da União.