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EADS-BAE Systems: Política supera lógica comercial

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EADS-BAE Systems: Política supera lógica comercial

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A fusão da EADS e da BAE Systems não descolou porque os interesses políticos foram mais fortes do que a lógica comercial.

Os governos britânico, alemão e francês acusam-se mutuamente do fracasso. Angela Merkel é considerada a principal responsável.

Berlim reconhece que tinha sérias reservas em termos de emprego e estratégia do futuro grupo, mas havia também a questão da partilha de capital entre os três países.

Esta foi a segunda vez que Tom Enders tentava criar um gigante europeu no setor aeronáutico e da defesa, rival da Boeing. Apesar do fracasso, o antigo paraquedista e atual patrão da EADS recebeu o apoio do conselho de administração. No final, diz-se surpreendido com a oposição ao projeto.

De forma direta ou indireta, Alemanha e França detém, em partes iguais, a maioria do capital da EADS. Se a Merkel vetou um acordo, do lado francês tinha-se oposto o grupo Lagardère, por não ver o interesse da fusão. O mesmo defendia a Invesco Perpetual, maior acionista da BAE Systems.

Face ao colapso, o ministro britânico da Defesa, Philip Hammond, afirma que “teria sido necessário operar como uma empresa comercial, livre do controlo ou da influência de qualquer governo e isso foi algo que, de forma evidente, a companhia decidiu mas não conseguiu concretizar”.

A fusão teria dado à EADS um acesso ao vasto mercado norte-americano da defesa.

A porta não está fechada. O consórcio europeu evoca a hipótese de avançar com parcerias ou aquisições de empresas americanas do setor, embora este viva dias complicados com os cortes nos orçamentos militares.

Para perceber as razões do colapso da fusão, a euronews falou com Dominique Dequidt, gestor do banco privado KBL Richelieu, em Paris.

euronews: Os dois grupos apontam a Alemanha como principal responsável pelo fracasso, mas não se conhecem as razões do bloqueio alemão. Quais são as verdadeiras razões?

Dominique Dequidt: De fato parece que a Alemanha ficava um pouco aquém da paridade decidida pela França e pela Inglaterra. A Alemanha sentia-se marginalizada. É o primeiro ponto. O segundo é que a atividade da defesa do grupo EADS está situada perto de Munique, na Alemanha, e as reestruturações que seriam implementadas, sobretudo, pelo grupo britânico, iriam ter impacto ao nível do emprego na Alemanha. Por isso, os riscos sociais parecem ter levado o governo alemão a renunciar à fusão.

euronews: Porque é que, desde o início das negociações, as bolsas acolheram mal este projeto de fusão? E o que é que levou os dois grupos a lançarem-se num desafio tão complicado?

D. Dequidt: Hoje, a EADS está concentrada em 80% na aeronáutica civil, que continua a expandir-se mesmo sendo um setor cíclico, e 20% no setor militar, enquanto a BAE faz, exatamente, o inverso. O desejo da direção da EADS era criar um grupo equilibrado, com metade de militar e metade da aeronáutica civil. Enquanto as perspetivas da aeronáutica civil se mantêm fortes e estão agora numa fase de maturação em termos de receitas, o mercado considera a fusão um travão ao potencial de crescimento dos lucros da EADS que seriam “comidos” pelos lucros da BAE, que está numa fase mais difícil. A BAE é atingida, agora, pela diminuição das despesas militares nos Estados Unidos e também pela queda das despesas ligadas à retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão ou do Iraque.

euronews: Com o fracasso das discussões, a EADS fecha a porta de entrada no mercado norte-americano da defesa?

D. Dequidt: No comunicado, a EADS deixou aberta a porta a possíveis acordos com o grupo BAE, não no seio de uma estrutura capitalista mas a acordos comerciais entre a BAE e a EADS. Por isso, é uma porta aberta, talvez, à entrada no mercado americano. Mas esperamos grandes dificuldades para o grupo EADS, já que a filial militar, Cassidian, está em situação de inferioridade face à BAE, que é o grupo que domina o setor militar na Europa.