Última hora

Última hora

O difícil equilíbrio entre a Irmandade Muçulmana egípcia, Israel e Gaza

Em leitura:

O difícil equilíbrio entre a Irmandade Muçulmana egípcia, Israel e Gaza

Tamanho do texto Aa Aa

Alguns egípcios manifestaram-se no Cairo contra os bombardeamentos israelitas em Gaza.

São manifestantes que votaram recentemente em Mohamed Mursi, e que colocam o presidente numa posição mais do que ambígua: entre a fidelidade ao Hamas, a política da boa vizinhança com Israel e as boas relações com Washington

Entre a espada e a parede, Mursi repetiu perante os compatriotas a postura egípcia do governo tal como a comunicou pouco antes ao norte-americano Barack Obama:

Presidente Mohamed Mursi:

“Expliquei a Obama que o Egito decidiu manter boas relações com os Estados Unidos e com o mundo, mas ao mesmo tempo condenamos com veemência estas agressões. Não aceitamos este tipo de ações: nem o derramamento de sangue nem o assédio aos palestinianos”

Procedente de um partido historicamente próximo do Hamas e à frente de um país unido a Israel por uma vintena de tratados de paz, Mursi tem pouca margem de manobra. Além de suscitar esperanças em Egito, a sua eleição em março deste ano devolveu o otimismo aos membros do Hamas em Gaza.

Ismael Haniyeh foi o mais otimista de todos:

“O Egito vai ter um papel muito importante, um papel de motor, um papel histórico na luta pela causa palestiniana.”

Há muitos analistas que consideram possível que a eleição de Mursi marque uma viragem política substancial em relação aos territórios palestinianios. O Hamas e a Irmandade Muçulmana têm um passado comum, e os egípcios sempre simpatizaram com a causa palestiniana.

O presidente egípcio deposto, Hosni Mubarak, foi sempre um intermediário importante para as duas partes, saudado pelo papel de mediador mas criticado pelo próprio povo, e alguns vizinhos, por ser demasiado complacente com Israel.
Para Mursi será mais difícil assumir o papel de mediador se a maioria egípcia não aceitar.

Nathan Thrall, do Grupo Internacional de Crise, com sede em Jerusalém…
Há um status quo entre Israel e o Egito desde Mubarak. Agora que a Irmandade Muçulmana está no poder, o que devemos esperar?

Nathan Thrall – Esta visita do primeiro-ministro egípcio está a ser seguida com grande expectativa. A atuação do Egito vai, certamente, mudar, sob presidência de Mursi, já não é o Egito de Mubarak.
Durante a Operação Chumbo Fundido, a passagem de Rafah foi fechada. É a passagem entre Gaza e o Egito. Agora vemos precisamente o inverso, com esta visita como sinal de que o Egito tem uma nova atitude em relação ao conflito entre Gaza e Israel, ou seja, que é um aliado da Faixa de Gaza e que tem um papel a desempenhar.

Tokunbo Salako, euronews – Como interpreta a visita do primeiro-ministro a Gaza?

NT – Penso que o Hamas ficou satisfeito com o anúncio e com a visita. É um sinal que o isolamento diplomático acabou. Também é uma esperança no fim do isolamento económico. O Hamas acredita que é também um sinal claro de que os vizinhos não vão ignorar o destino de Gaza como até agora.

euronews – O Egito foi um dos melhores aliados de Israel no Médio Oriente durante muito tempo. Como vê agora este movimento da Irmandade Muçulmana? Até que ponto é decisivo?

NT – O Egito do presidente Mursi tem de encontrar um equilíbrio muito delicado.
Por um lado, pretende preservar a aliança com os Estados Unidos, ter boas relações com a Europa e respeitar o tratado de paz com Israel, pelo menos por agora. Ao mesmo tempo, tem uma ótima relação com os dirigentes de Gaza, os dirigentes do Hamas e o que pretende é não melindrar nenhuma das partes.

euronews – Que consequências podem ter para Israel as ações das últimas 48 horas? O isolamento?

NT – Tal como em muitas escaladas do género, qaunto mais tempo passa mais a comunidade internacional tende a apoiar o mais forte e neste caso, o tempo não joga a favor de Israel.

Médio Oriente: Entrevista com porta-voz do exército israelita
 
Mohamed Shaikh Ibrahim (Euronews)
 
A partir de Jerusalém temos connosco Avichay Adraee, porta-voz das Forças de Defesa Israelitas.
Israel lançou uma operação militar contra Gaza. Porque o fez nesta altura?
 
Avichay Adraee:
 
Numa semana foram disparados a partir de Gaza 130 rockets contra Israel. Desde o início do ano foram lançados 750 rockets. Decidimos avançar com esta operação com dois objetivos:
 
Atacar as organizações terroristas em Gaza e enviar a mensagem aos terroristas de que protegeremos a vida dos israelitas e impedi-los-emos de atacar Israel.
 
O segundo objetivo é criar um ambiente seguro para os nossos cidadãos no sul.
 
Mohamed Shaikh Ibrahim
 
Anunciou uma operação militar que visava as chefias dos braços armados palestinianos, mas o que constatamos é que a maioria das vítimas são civis. O que tem a dizer sobre isso?
 
Avichay Adraee:
 
Efetivamente foram feridos e morreram civis durante a nossa ação militar. Na guerra isso é normal, mas garanto-lhe que estamos a tomar todas as medidas para evitar baixas civis.
 
Mohamed Shaikh Ibrahim
 
Falemos de Telavive. Pela primeira vez em 20 anos a cidade foi atingida por rockets lançados de Gaza.
Como explica isso do ponto de vista militar?
 
Avichay Adraee:
 
Isso mostra o quão vital é para nós agir, porque as organizações terroristas têm armas capazes de agredir Israel e milhões de israelitas sempre que quiserem.
 
 
Mohamed Shaikh Ibrahim
 
 
Contudo, Israel tem a mais poderosa máquina militar do Médio Oriente.
 
Avichay Adraee:
 
É verdade mas somos um estado soberano e quando tomamos uma decisão temos em mente as reações da comunidade internacional, dado que Israel é democrático.
No entanto, as organizações terroristas decidem loucuras quando muito bem entendem.
 
Mohamed Shaikh Ibrahim
 
Israel vai lançar uma ofensiva terrestre contra Gaza?
 
Avichay Adraee:
 
Para já, com esta operação militar conseguimos reduzir a capacidade deles para atacar Israel. Foi um assalto vigoroso às bases de rockets, mas ainda têm rockets de longo alcance com os quais já atacaram Tel Aviv, sem no entanto causarem vítimas.
 
Mohamed Shaikh Ibrahim
 
Confirma que o Knessett foi atacado?
 
Avichay Adraee:
 
Isso é uma mentira do Hamas. A maioria dos escritórios dos media são em Jerusalém. Se isso tivesse acontecido era notícia em todo o mundo.
 
Mohamed Shaikh Ibrahim
 
O Hamas diz que Israel pode contar com grandes surpresas se lançar um ataque terrestre?
 
Avichay Adraee:
 
O exército israelita está pronto para cumprir todas as ordens dos nossos líderes e isso inclui uma ofensiva terrestre. Prometo-lhe que o Hamas e outras organizações em Gaza pagarão um preço muito elevado. Mais elevado do que o que já pagaram.