Última hora

Última hora

Luz sobre mundo opaco dos paraísos fiscais

Em leitura:

Luz sobre mundo opaco dos paraísos fiscais

Tamanho do texto Aa Aa

O Consórcio de Jornalistas de Investigação, CIJI, desvendou os segredos de mais de 120 mil empresas offshore e fundos e 130 mil milionários.

A principal conclusão é a de que a utilização destes paraísos fiscais se disseminou de uma forma radical, o que tem facilitado a fuga de impostos e dinamizado as práticas de corrupção.

Na lista figuram entre outros Maria Imelda Marcos, filha mais velha do ditador filipino, a baronesa espanhola Carmen Thyssen-Bornemisza; o presidente georgiano Bidzina Ivanishvili; a marinha mercante do Irão e a norte-americana Denise Rich.

Jean-Jacques Augier, da elite política francesa, a mulher do vice-primeiro-ministro russo Igor Shuvalov, o canadiano Tony Merchant, marido de uma senadora, o ex-ministro de Finanças da Mongólia, Bayartsogt Sangajav, e as filhas do presidente do Azerbaïjão Alief Ilham.

Os 15 meses de investigação revelaram que, paralelamente às transações legais, os paraísos fiscais permitem e expandem a fraude, a evasão fiscal e a corrupção política.

Assinalada com frequência pelo seu hermetismo, a Suíça pode respiraar de alívio, pois só 0,05% dos casos foram detetados na Confederação Helvética.

Mario Tuor é porta-voz da secretaria de Estado para questões financeiras internacionais: “Estas revelações mostram que a nossa política do mercado financeiro vai pelo bom caminho e que na Suíça não queremos dinheiro livre de impostos, dinheiro criminoso. Esperamos que se veja que a Suíça realmente está a mobilizar-se para conseguir este objectivo. Talvez outros mercados financeiros, que estão a fazer menos, se vejam obrigados a adotar medidas similares às suiças”.

Bruxelas reagiu imediatamente, pedindo aos países da União Europeia que se ocupem da questão da evasão fiscal e se ponham de acordo sobre uma definição comum de paraíso fiscal.

Recordou também que a evasão fiscal custa mais de mil milhões de euros por ano à UE.

Olivier Bailly. Porta-voz da Comissão Europeia: Não pode haver complacência, nem com os indivíduos nem com as empresas, ou países terceiros, que não respeitem as leis europeias ou as leis nacionais para organizar fraudes fiscais”.

A Comissão recordou que a evasão fiscal custa mais de mil milhões de euros anuais à UE.

Segundo a “Tax Justice Network”, os paraísos fiscais guardam entre 15 e 23 mil milhões de euros.

Uma hemorragia para os Estados e a economia que o G-20 se comprometeu a erradicar, em 2009, depois das derivas das finanças que desencadearam a crise de 2008.

Gordon Brown, era então primeiro ministro britânico e apresentou as conclusões:

Concordámos em que é preciso pôr fim aos paraísos fiscais que não transferem informação quando é requisitada. O segredo bancário do passado tem de ter um fim. A Organização para o Desenvolvimento e a Cooperação Económica vão publicar esta tarde uma lista de paraísos fiscais que não cooperam e em relação aos quais há que tomar medidas imediatas. É necessário criar normas restritas e sanções a aplicar contra quem não cumprir o estabelecido.”

Quatro anos depois, continua tudo na mesma. Haja alguma esperança para o próximo G8 de junho, no Reino Unido.

Entrevista com Michael Hudson, editor sénior da CIJI

As descobertas da CIJI apenas foram possíveis graças um enorme esforço humano supervisionado por quatro editores séniores.

Um deles, Michael Hudson, falou com o correspodente da Euronews em Washington, Stefan Grobe.

“Primeiro tivémos que ter acesso e limpar os dados, estabelecer uma forma de chegar ao ponto fulcral. É fácil para os jornalistas ocidentais caírem de paraquedas e ficar semanas ou alguns dias num país a pensar que sabem tudo. Mas são os repórteres no terreno em permanência que fazem a diferença, eles conhecem os atores, as leis e a história e é muito importante tê-los”.

“O que descobrimos é que estes tipos super-ricos usam esse dinheiro para comprar iates e usam-no também – e isso eu já sabia – para comprar mansões, para comprar joias. Mas o que me surpreendeu bastante é que usam o dinheiro dos ‘offshores’ para possuírem coleções de arte. Através destes documentos encontrámos registos da venda e compra de um Van Gogh”.

“Os super-ricos têm inúmeras escolhas para organizar as suas vidas financeiras e a média dos cidadãos do mundo tem muito poucas opções e acaba por pagar mais ou viver com menos serviços nos seus países por causa da sangria de fundos do tesouro dos Estados”.

“A hipocrisia das pessoas com muito poder e muito dinheiro pode ser muito mais destruídora por causa dos níveis de riqueza das nações. Levanta no mínimo a necessidade de escrutínio, de transparência e de se saber onde está o dinheiro e quem está a fazer o quê nos paraísos fiscais”.