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Egito: Que futuro?

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Egito: Que futuro?

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O Egito ainda conta os mortos, mas a Irmandade Muçulmana retoma o braço de ferro com as autoridades, lançando novos apelos aos apoiantes. O movimento islamita recusa ceder, tal como fez, dia e noite, desde 3 de julho, quando o presidente Mohammed Morsi foi deposto.

Antes, as ruas tinham sido ocupadas por milhares de egípcios que contestavam o presidente islamita. Mohammed Morsi acabou por ser derrubado pelo exército, está detido em parte incerta e a sua prisão acaba de ser prolongada por um mês.

Mohammed Morsi, primeiro presidente eleito democraticamente no Egito, esteve um ano no poder. Trocou a liderança do exército, uma instituição de peso no país, por esse cargo. O general Fattah el-Sissi sucedeu a Mohamed Tantaoui. Durante esse período, Morsi legislou para conseguir obter e concentrar poderes constitucionais extraordinários, o que foi visto como deriva autoritária. Hoje, o país está mais dividido do que nunca.

A euronews questionou um especialista sobre a evolução dos acontecimentos:

Sophie Desjardin, euronews – Hasni Abidi é politólogo, especialista do mundo árabe num Centro de Estudos em Genebra, CERMAN.
O recolher obrigatório imposto ontem, no Egito, segundo o nosso correspondente, não provocou qualquer intenção de cedência da Irmandade Muçulmana, pelo contrário. Que pode acontecer agora?

Hasni Abidi – Os sinais são muito preocupantes, tanto do lado do exército como do lado da Irmandade Muçulmana e dos seus simpatizantes. O primeiro indicador é o recolher obrigatório reinstaurado pelo exército. Mas o mais inquietante é que, com o estado de emergência, o exército vai conjugar todos os poderes, e, consequentemente vai impôr mais restrições no âmbito das liberdades públicas e privadas, e poderá efetuar detenções a qualquer momento. Por parte dos islamitas, espera-se uma multiplicação dos focos de tensão – e não apenas concentrações nas praças – nas cidades mais importantes de Egipto.

euronews – Muitos egípcios, nomeadamente intelectuais, apoiam o exército que os defendeu na primeira revolução.
Não deixa de ser um vínculo estranho entre os cidadãos e a poderosa instituição. Até onde pode ir o exército sem perder esse apoio de base?

Hasni Abidi – Há que salientar que o exército egípcio é um exército popular, não é profissional, como por exemplo o exército turco. Está presente em todos os setores do Estado, como o económico, e para qualquer egípcio, as Forças Armadas constituem a única garantia de que não haverá marcha atrás, ou seja, não se dará força a essa ideia feita no Egito, de que o país será governado unicamente pela Irmandade Muçulmana.

euronews – Isso quer dizer que lhe passaram um cheque em branco?

Hasni Abidi – Infelizmente, é legítimo o receio de uma certa deriva, de uma tentação autoritária.
Ontem conseguiu marcar uma posição de força, apesar das consequências serem terríveis para a sua imagem. As reações internacionais não são positivas para o exército, mesmo se conseguiu instaurar a segurança e a estabilidade, se conseguiu um pouco de ordem. Mas, na minha opinião, vai conseguir recuperar o capital de simpatia que tinha antes e também vai tranquilizar os egípcios, que estão, atualmente, mais divididos do que nunca.

euronews – Qual será a estratégia dos islamitas a partir de agora, o que podem fazer?
A situação não deixa de recordar a da Argélia nos anos 90… Há um risco de radicalização ou mesmo de terrorismo?

Hasni Abidi – Sim, há. As semelhanças entre o cenário egípcio e o cenário argelino são flagrantes: a interrupção do processo eleitoral, em janeiro de 2012, levou à clandestinidade muitos islamitas, à radicalização e ao nascimento de movimentos radicais como o GIA e o GSPC, na Argélia.
Infelizmente, o Egito tem os próprios movimentos radicais, nomeadamente a Gemma Islamya e a Jihad Islâmica, que perderam a batalha da primavera árabe por estarem convictos de que os islamitas chegavam ao poder graças às urnas e não à luta armada.
Mas os acontecimentos de ontem e o golpe de Estado contra o presidente Morsi, vêm dar força aos movimentos radicais, dentro ou fora da Irmandade, pois vão poder dizer: “Afinal, a participação política não é a boa opção; a única possibilidade, agora, é a luta armada.”

euronews – O Egito é um peso pesado no mundo árabe: será que este conflito pode ultrapassar as fronteiras egípcias?

Hasni Abidi – Se os islamitas continuarem com a lógica suicida ou a praticar a política de terra queimada, por já terem perdido tudo, vão debilitar o Exército, que tem de combater todos os focos de tensão, muito importantes no Sinai e noutras regiões. Também vai ter de enfrentar a alarmante circulação de armas procedentes da Líbia, que, atualmente, é incontrolável.
A gestão dos assuntos políticos também pode ficar mais frágil, por isso é imprescindível que o exército se retire o mais cedo possível para deixar estes assuntos nas mãos de civis ou nas mãos de Adli Mansur ou da o Bebelavi. Penso que a comunidade internacional tem, atualmente, o dever moral e político de não deixar os egípcios abandonados à sua sorte.